No próximo domingo (3) é celebrado o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial. Para esta data trago uma reflexão: quando a “virada de chave” começa dentro da sala de aula.
3 de julho é Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial – Foto: Freepik/DivulgaçãoOlha que interessante: uma cartilha produzida pelo Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), baseado em um estudo realizado pela Universidade de Harvard afirma que o preconceito sofrido na infância pode causar impactos sérios no desenvolvimento infantil.
Isso acontece porque os sistemas de resposta ao estresse das crianças permanecem ativados em níveis elevados por longos períodos, tendo um efeito significativo de desgaste no cérebro em desenvolvimento e em outros sistemas biológicos.
SeguirO preconceito na infância também pode ter impactos duradouros na aprendizagem, no comportamento e na saúde física e mental. Com base nesse estudo trago também a informação da pedagoga Carollini Graciani, que defende que o papel da escola é fundamental no combate ao racismo, já que na fase do ensino infantil a criança replica o que vê e ouve.
“Nessa fase é natural que as crianças questionem as diferenças entre elas (cor do cabelo, da pele, do olho, altura). E no dia a dia o educador vai trabalhando ludicamente com essas crianças o fato de não existir um padrão, que cada um é único, que nosso país é rico culturalmente, que o cabelo dela é bonito como é, que ela pode e deve amar as características que ela tem, e que ela respeite as características dos amiguinhos, tudo isso por meio de contos e atividades”, explica a educadora.
Talvez por isso os livros infantis tenham ganhado mais cores… Os personagens têm vários rostos, com cabelos crespos e tons puxados para o marrom. Coisa que há cinco anos quase não se via. Que maravilha! É um começo.
Voltando para a pedagoga. Segundo Carollini, nos ensinos médio e fundamental a abordagem é diferente: “o educador nesta fase trabalha responsabilidade, conscientização e respeito, lembrando os jovens que a sociedade só vai progredir nesta e em outras questões se eles mudarem de atitude e não repetirem atos negativos. E nesta idade, quando um professor presenciar um aluno desrespeitando outro, é necessária uma intervenção pedagógica naquele momento, não pode deixar para resolver depois. É preciso parar a aula e explicar o que é o racismo, como ele se construiu, mostrar, com exemplos atuais, que o negro pode chegar aonde ele quiser, que ele pode e deve ocupar o espaço que ele desejar”.
Quais são as consequências do racismo
De acordo com a psicóloga Sandra Duarte Antão, as relações sociais são parte essencial da formação da personalidade, podendo contribuir para o desenvolvimento de aspectos como autoestima, autoeficácia, empatia e altruísmo.
No entanto, existem fatores que operam de maneira negativa na vida de uma criança e a exposição ao racismo traz essa realidade, podendo gerar consequências que irão impactar de maneira dolorosa em sua subjetividade.
A criança pode ter sentimentos ambivalentes, sentindo-se triste, irritada ou ansiosa, podendo gerar comportamentos como isolamento social ou agressividade por não se sentir pertencente àquele contexto.
Com base nestas informações, há o viés de termos a consciência que educação é uma via de mão dupla. Começa em casa com instruções básicas, livros direcionados e tornando a convivência com outros coleguinhas a mais sadia possível.
Combater a discriminação é uma responsabilidade social. E é nosso dever garantir um futuro melhor, mais diverso e sem preconceito para os nossos filhos. Abaixo algumas sugestões de obras sobre o tema, para todas as idades.
Para as crianças:
Meu avô africano, de Carmen Lúcia Campos: Um livro maravilhoso, em que o pequeno Vitor descobre a verdade sobre a venda de seus antepassados para o Brasil. Valoriza a preservação da história dos antepassados e o respeito aos mais velhos.
Kiriku e o colar da discórdia / Kiriku e a feiticeira, de Michel Ocelot: A série Kiriku é extensa e muito indicada para as crianças conhecerem e desmistificarem as culturas e modos de viver africanos.
Koumba e o tambor de diambê, de Madu Costa: Faz parte de uma série que tem como objetivo trabalhar a identidade afrodescendente a partir da imaginação infantil. Baseia-se na valorização dos griots, que são contadores de histórias.
A menina que abraça o vento, de Fernanda Paraguassu: Conta a história de uma menina que se separou dos seus pais após fugirem dos conflitos na República do Congo.
Meu crespo é de rainha, de Bell Hooks: Esta obra é interessantíssima! Apresenta para as meninas formas de penteados e cortes de cabelos de forma positiva, alegre e com bastante elogios.
Para jovens e adultos:
O genocídio do negro brasileiro, de Abdias Nascimento: O autor foi uma das mais destacadas vozes na luta pelos direitos dos negros no Brasil. Natural de Franca, no interior de São Paulo, Abdias (1914-2011) fundou o Teatro Experimental do Negro e teve uma carreira brilhante na academia. Também atuou como ator, poeta, escritor, artista plástico, e na política foi deputado federal (1983 a 1987) e senador (1997 a 1999). O livro desmascara o mito da Democracia Racial por meio de artigos apresentados num congresso na Nigéria.
Tornar-se negro, de Neusa Santos Souza: A psiquiatra e psicanalista escreve esta obra sobre a questão racial no Brasil apresentando um estudo teórico, com relatos de sua vivência e a respeito da vida emocional do negro em nosso país. A obra trata de questões como a auto rejeição do negro, sentimentos de inferioridade e convenções de beleza exterior. Uma obra valiosíssima.
Dossiê Mulheres Negras: retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil, organizado por Mariana Mazzini Marcondes, Luana Pinheiro, Cristina Queiroz, Ana Carolina Querino e Danielle Valverde: Valiosa obra que traz artigos sobre a condição de vida da mulher negra em nosso país num projeto idealizado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). É possível ter acesso à obra na internet de forma gratuita.
A integração do negro na sociedade de classes, Florestan Fernandes: Livro publicado em 1964 pela primeira vez. A obra é a tese de doutorado de Florestan, considerada a mais famosa já defendida na USP. O livro traz uma abordagem que representa uma virada histórica na imagem que o Brasil apresentava de si próprio. Aqui Florestan discute a democracia racial como um mito construído através dos tempos. É um marco da sociologia no Brasil.
Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda: Livro publicado em 1936, é uma importante obra para se conhecer o processo de formação da sociedade brasileira. Sergio nos fala sobre o legado colonialista que se mostra como um obstáculo para o estabelecimento da democracia em nosso país.