‘Comentários me deixam triste’, diz nordestino em Joinville sobre ofensas após eleições

Xingamentos e ofensas publicadas na internet podem ser consideradas racismo, explica delegado

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Fernanda Silva Joinville

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“É triste comparar o povo nordestino com jumento, sem educação”, diz Adriana*, nordestina e moradora de Joinville, no Norte de Santa Catarina, sobre comentários e ofensas contra o Nordeste após as eleições do último domingo (2). “Me sinto acuada por não poder me expressar.”

Comentários foram publicados após o primeiro turno das eleições – Foto: Internet/ReproduçãoComentários foram publicados após o primeiro turno das eleições – Foto: Internet/Reprodução

Os comentários tiveram início logo depois que o resultado da votação para presidente foi divulgado, mostrando que Lula (PT) teve maioria dos votos nos estados do Nordeste, onde Bolsonaro (PL) foi menos votado, segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Trabalhadora autônoma, Adriana é natural de Pernambuco e veio para Joinville há quase 15 anos, quando se casou com um joinvilense. Hoje, ama a cidade, mas se sente triste ao ver comentários contra nordestinos, que têm aumentado após o primeiro turno das eleições.

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O mesmo sente Ney Santos, que é natural do Amapá, no Norte do país. “Falam para eu voltar para minha cidade, comer pão com mortadela”, diz. O operador de logística veio para Joinville há três anos com a esposa e os filhos. “A gente quer ajudar a cidade, ajudar o desenvolvimento, trabalhar”, ressalta.

Ele afirma que, depois do primeiro turno, tem ouvido com mais frequência os comentários negativos sobre as regiões Norte e Nordeste do Brasil. “Viu só o que seu povo fez? Tem que voltar para a sua cidade”, escutou de colegas de trabalho.

O nortista conta que se sente triste e excluído com os comentários e defende que é seu direito estar na cidade sem ouvir ofensas. “Eu sou brasileiro, posso estar aqui e em qualquer lugar”, reforça.

O mesmo vive Lucas*. Nascido no Maranhão, ele trabalha com comunicação e veio para Joinville há 10 meses. Desde então, diz que percebeu resistência das pessoas em receber imigrantes, tendo dificuldades, por exemplo, em alugar um imóvel.

Para ele, os comentários generalizam as pessoas que são nascidas no Norte e no Nordeste quando, na verdade, cada um tem sua individualidade. “Esses comentários me deixam triste”, lamenta. “O Brasil é uma nação única, tem questões em que o Nordeste é muito bom, e Sul é muito bom em outras, é integrado”, complementa.

Comentários ofensivos foram feitos, principalmente, contra a população nordestina – Foto: Internet/ReproduçãoComentários ofensivos foram feitos, principalmente, contra a população nordestina – Foto: Internet/Reprodução
Migrantes nortistas e nordestinos se sentem ofendidos pelos comentários na internet – Foto: Internet/ReproduçãoMigrantes nortistas e nordestinos se sentem ofendidos pelos comentários na internet – Foto: Internet/Reprodução

Esperança em amigos e colegas

Ney defende que as questões políticas e de eleições não podem ser margem para ofensas. Ele conta que, no trabalho, mesmo com divergências, há colegas que também o apoiam e não o deixam baixar a cabeça após os comentários de cunho xenofóbico.

Já Lucas, após 10 meses morando na cidade, diz que fez amigos e, assim, pode se sentir mais acolhido para além dos comentários maldosos. “Joinville é uma cidade de imigrantes, vejo isso pelos lugares, pessoas que vieram tentar a vida aqui”, defende.

Comentários são tipificados como racismo

Os comentários contra pessoas do Nordeste geraram a abertura de um inquérito para apurar o crime de racismo em Garuva, cidade vizinha a Joinville, também no Norte catarinense.

“A lei de racismo é clara sobre delitos que buscam discriminar e condutas preconceituosas. E o fato de propagar, incitar e praticar essas ações discriminatórias e preconceituosas por redes sociais fazem a pena ficar mais alta. É uma pena bastante pesada”, enfatiza o delegado Eduardo Defaveri, responsável pelo inquérito.

Ele conta que, após os comentários, feitos principalmente nas redes sociais, as vítimas temem serem prejudicadas e, até mesmo, agredidas. “Essas manifestações geram ódio e podem causar mal maior à população”, destaca.

Conforme Defaveri, a lei do racismo não trata de ofensas pessoais, mas condutas que buscam atingir diversas pessoas, grupos e comunidades, ofendidas e colocadas numa situação abaixo das pessoas em geral, o que é considerado racismo, segundo a legislação.

A pena da infração pode variar de um a três anos de prisão e multa. Porém, para práticas pelas redes sociais, a pena pode ser ainda maior, entre dois anos e cinco anos de reclusão, além da multa.

*Nomes fictícios a pedido das fontes, que preferiram não se identificar.

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