Comunidade quilombola comemora três anos de certificação em Joinville: ‘história muito bonita’

Localizada na área rural, a comunidade do Ribeirão do Cubatão resgata a história da população negra na maior cidade do Estado

Juliane Guerreiro Joinville

Receba as principais notícias no WhatsApp

É com orgulho do passado e do presente que o aposentado Olívio Cristino exibe a foto dos pais e o documento que certifica a comunidade do Ribeirão do Cubatão, em Joinville, como remanescente quilombola. Localizada na área rural da cidade do Norte de Santa Catarina, ela completa três anos de certificação em 2023.

Olívio exibe com orgulho e carinho o documento de certificação da comunidade quilombola e a foto dos pais – Foto: Carlos Jr/NDOlívio exibe com orgulho e carinho o documento de certificação da comunidade quilombola e a foto dos pais – Foto: Carlos Jr/ND

Desde que o documento foi publicado e ganhou espaço de destaque em uma das paredes da sala da casa de  Olívio, muita coisa mudou na comunidade e para o homem de 73 anos. E entre as maiores mudanças, está um orgulho ainda maior das raízes afro da família.

“Eu aprendi na escola que havia escravos que eram mal tratados, chicoteados. Hoje eu estou olhando uma coisa diferente do que foi ensinado: que a raça negra foi a mão de obra do país, que tem uma história muito bonita”, destaca.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

Aliás, não muito tempo antes de a comunidade ser reconhecida como remanescente quilombola, Olívio não sabia bem o que o termo significava. “No sítio, quando se plantava arroz, farinha, se diria uma quarta, um alqueire. Boi é vendido em arroba e quilombola não sabia o que era, pensei que vinha de quilo”, brinca o aposentado.

O entendimento começou a mudar, porém, quando Olívio foi convidado pela Secretaria de Estado da Educação a participar do Seminário Estadual das Políticas para Educação das Relações Étnico-Raciais: Implementação da Lei nº 10.639/03, que aconteceu em Laguna, em 2016.

“Aí que eu fui entender o que eram quilombolas, que eram os negros escravizados refugiados do mato e que formavam quilombos”, conta. A partir daí, o idoso começou a se interessar, de fato, pela história dos quilombos e fez uma descoberta que o aproximou ainda mais do tema.

A alforria de Antônio Naro

Olívio conta que, em 2013, a assistente técnica pedagógica da Coordenadoria Regional de Educação, Alessandra Bernardino, havia comentado que na região em que ele mora havia negros escravizados no passado. Porém, ele nunca tinha ouvido falar sobre o assunto.

Foi em uma visita ao Museu Nacional de Imigração e Colonização de Joinville, logo após o seminário em Laguna, que ele acabou conhecendo o historiador Dilney Cunha. “Ele disse que na minha região tinha escravos, buscou um livro e na página 153 mostrou que meu avô Antônio Naro era escravizado e foi alforriado em 1879”, conta.

O registro do jornal Kolonie-Zeitung, mais tarde publicado no livro Joinville – Os Pioneiros, de Raquel S. Thiago e Maria Thereza Böbel, mostra que Antônio Naro teria sido alforriado após ajudar no tratamento de doentes com febre amarela. Veja:

Relato sobre a alforria de Antônio Naro foi publicada no Kolonie-Zeitung – Foto: Reprodução/Carlos Jr/NDRelato sobre a alforria de Antônio Naro foi publicada no Kolonie-Zeitung – Foto: Reprodução/Carlos Jr/ND

A partir dessa descoberta, Olívio teve ainda mais interesse na busca por conhecimento a respeito da história dos quilombolas e da cultura afro. “Fui buscando mais coisas e acabei descobrindo que no Arquivo Histórico de Joinville tinha o depoimento da família Cercal, que teria trazido meus avós como escravos deles”, fala.

Essa pesquisa, porém, torna-se difícil. Em Joinville, os registros sobre a população negra escravizada ainda são dispersos, embora cada vez mais pesquisas venham se debruçando sobre o tema. “Eu não parei ainda, tenho que descobrir mais coisa”, se anima Olívio.

Comemoração e planos para o futuro

Embora a comunidade do Ribeirão do Cubatão tenha sido certificada no fim de dezembro de 2019, a data é comemorada no dia 1º de fevereiro, quando a mãe de Olívio, Maria da Graça Leopoldino, fazia aniversário.

Comunidade do Ribeirão do Cubatão comemora três anos de certificação – Foto: Carlos Jr/NDComunidade do Ribeirão do Cubatão comemora três anos de certificação – Foto: Carlos Jr/ND

A extensa família de Olívio, que se soma a quatro irmãos, sobrinhos e sobrinhos-netos, deve comemorar os três anos da certificação no dia 11 de fevereiro, em uma partilha com amigos da comunidade.

“A certificação trouxe muito benefício para a comunidade, mas tem que correr atrás”, diz Olívio. Para o futuro, ele deseja construir um galpão que sirva de escola, espaço para artesanato e, principalmente para a troca de ideias entre outras comunidades – em Joinville, há também a comunidade remanescente quilombola do Beco do Caminho Curto.

“Espero um galpão grande para trazer escola, trabalhar com artesanato, incentivar. Trazer pessoas de fora pra trazer ideias, ir para outras comunidades quilombolas conhecer o trabalho deles, levar a boa vontade da gente pra lá e trazer o que eles têm de bom pra comunidade”, conta.

Se depender de Olívio, aliás, boa vontade não falta. “A gente quer deixar essa história para a geração mais nova, fazer com que cultivem isso e também sintam orgulho”.

Tópicos relacionados