Conheça as histórias de um manezinho centenário do Norte da Ilha de SC

Com disposição física e lucidez Manoel Leopoldo da Rosa, de 101 anos, lembra da época que foi pescador, do trabalho na roça, o serviço ao Exército e a fundação de Jurerê tradicional

Paulo Clóvis Schmitz – Especial para o ND Florianópolis

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Viver um século já não é tão incomum, mas poucos chegam aos 101 anos com a disposição física e a lucidez do manezinho Manoel Leopoldo da Rosa, morador da praia do Forte, em Florianópolis. Ele é capaz de lembrar dos dias exatos em que entrou no Exército, comprou sua casa, em 1948, e de quando, um ano depois, se mudou para lá com a mulher, que lhe deu 14 filhos num tempo de privações e dificuldades. A morada original, de estuque, foi melhorada, mas continua cercada de árvores e flores, compondo um conjunto que se harmoniza perfeitamente com o ambiente e com o ruído das ondas batendo na areia e nas pedras a poucos metros dali.

Líder nato, Manoel teve participação ativa na vida da comunidade, ajudando a erguer residências para quem não tinha um teto próprio, digno, mesmo dando duro na roça e na pesca. Quatro prefeitos já sentaram à sua mesa para um café – o último deles foi Topázio Silveira Neto, o atual ocupante da cadeira no paço municipal. Sempre trabalhou (também foi carpinteiro, pedreiro e militar), e ainda teima em cultivar algumas hortaliças, com a reprovação dos filhos e netos, que preferem vê-lo sentado, contando histórias do passado.

Líder nato, Manoel Leopoldo da Rosa teve participação ativa na vida da comunidade da praia do Forte – Foto: Cristiano Estrela/Especial para o NDLíder nato, Manoel Leopoldo da Rosa teve participação ativa na vida da comunidade da praia do Forte – Foto: Cristiano Estrela/Especial para o ND

Politizado, Manoel fala com desenvoltura dos feitos de ex-presidentes como Epitácio Pessoa e Arthur Bernardes – este, diz ele, usou pela primeira vez a faixa que ainda é entregue a cada eleito para o principal cargo da nação. E lembra de lances da guerra para a qual chegou a ser convocado, com a missão de combater os nazistas e fascistas na Europa. Não embarcou, mas guardou os relatos de quem sobreviveu e voltou. Hoje, faz questão de mostrar fotos ao lado de militares que foram seus superiores, homenagens e regalos que remetem aos tempos de caserna, dos quais se orgulha muito.

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Manoel plantou de tudo na propriedade da família, ao lado da fortaleza de São José da Ponta Grossa, no Norte da Ilha de Santa Catarina, e acompanhou as transformações da região, hoje um ponto turístico importante, e também as mudanças da cidade. Antes dos barcos a motor, quem plantava ou pescava, levava o excedente para o Mercado Público em embarcações empurradas por vela ou remo, em jornadas que poderiam durar de nove a dez horas.

Além de produzir o feijão, o milho, a batata, a cebola e o amendoim para consumo próprio, Manoel da Rosa era um pescador que aproveitava a fartura do mar. Peixes, siris e berbigões eram pródigos nas águas turbulentas da entrada da baía Norte. Cada cerco aos cardumes e cada metro quadrado de plantio garantiam a ração diária dos filhos e da mulher – ela também uma guerreira que arregaçava as mangas e conciliava a criação da prole numerosa com os afazeres da casa e a atenção a quem necessitasse de ajuda na comunidade.

A pesca no Sul, na entressafra local

Um dos fundadores de Jurerê tradicional, Manoel da Rosa coordenou o grupo de 60 homens que aterrou uma área cheia de cobras venenosas onde foi construída a sede campestre do Clube Doze de Agosto, em Jurerê. E foi um dos muitos ilhéus que conciliavam a roça e a pesca com as temporadas servindo as empresas de Rio Grande (RS), então um polo pesqueiro poderoso no extremo Sul do país. Era a forma de ganhar dinheiro na entressafra local, sem remuneração fixa e carteira assinada. “Quando a coisa apertava, a saída era ir para lá, deixando só as mulheres, crianças e idosos aqui”, conta.

Muitos pescadores não retornavam, constituindo famílias no Sul, sendo solteiros, e até abandonando a mulher e os filhos para fazer a vida por lá, indiferentes ao sofrimento de quem ficava, sem arrimo, lutando pela subsistência.

Manoel Leopoldo da Rosa fundou Jurerê tradicional- Foto: Cristiano Estrela/Especial para o NDManoel Leopoldo da Rosa fundou Jurerê tradicional- Foto: Cristiano Estrela/Especial para o ND

A terra, de qualquer maneira, era o porto seguro de todos, porque sempre dava o essencial. “A gente comprava apenas sal e querosene”, conta seu Manoel. A energia elétrica só alcançou a praia do Forte na década de 1960. O asfalto chegou quase na mesma época, e depois vieram o telefone e a água encanada. O café já foi farto na região, mas hoje é raro encontrar um pé no quintal dos moradores nativos.

“A terra é uma santa mãe para nós e aguenta o mau uso que fazemos dela”, diz Manoel. “Com o mar é a mesma coisa, porque o pescador foi quem matou os peixes pequenos e diminuiu os estoques”.

As sequelas da guerra nos relatos de quem foi para a Itália

Boa parte da vida de Manoel Leopoldo da Rosa foi cumprida no Exército, coincidindo com o período da segunda guerra mundial. Em 12 de maio de 1944, ocorreu o embarque do primeiro escalão local da FEB (Força Expedicionária Brasileira) para a Itália – um dia de apreensão no quartel do bairro Estreito, porque quem embarcava não sabia se ia retornar. Lutar ao lado dos aliados era um sonho para muitos, mas eles não tinham noção do que era um conflito mundial, com suas atrocidades e incertezas. Os soldados foram treinados no 63º BI, no continente, e Manoel acabou não sendo chamado.

Muitos dos 314 soldados de seu batalhão que foram para a Itália voltaram transtornados, com terríveis sequelas físicas ou mentais. “Ouvi relatos de pessoas que diziam que o pior não eram as balas, mas o barulho pavoroso dos aviões passando acima de suas cabeças”, conta. De sua parte, agradecido por ter ficado, trabalhou no cassino dos oficiais até ser liberado, no ano seguinte ao fim do conflito na Europa.

Se não foi para o campo de batalha, ele reproduz em palavras os traumas da experiência. “A despedida dos companheiros que embarcaram, no Estreito, foi o dia mais triste da minha vida”, afirma Manoel. “Se todos soubessem o que é uma guerra, não seriam a favor dela”.

Horas no remo para chegar ao Centro

Antes da grande expansão imobiliária do Norte da Ilha, muitos moradores de Jurerê, Rio Vermelho, Ratones e Vargem Grande levavam sua produção de grãos, frutas e verduras para o Centro da cidade, muitas vezes de carroça, em jornadas de muitas horas por estradas tortuosas. Havia os “pombeiros”, homens que vendiam de casa em casa, e os que vinham de barco da Armação da Piedade, Enseada de Brito, Ribeirão da Ilha e Ponta de Baixo – estes, com as famosas louças de barro que são uma marca do município de São José.

“A gente saía à meia-noite de barco e chegava lá pelas 9h da manhã na cidade”, conta Manoel da Rosa. Para voltar, era outra maratona, porque às vezes o vento não ajudava e o esforço para chegar em casa era hercúleo. Passar horas manuseando o remo era o único jeito de entregar a produção. A região de Jurerê já contou com cinco engenhos de farinha de mandioca, dois engenhos de cana e criação de gado no pontal da Daniela. Arrastões e redes de caceio eram parte do cotidiano dos moradores – o peixe tinha pouco valor monetário, mas era a base da alimentação local.

Os hábitos das famílias dependiam muito do que o meio oferecia. “Fui criado comendo em pratos de barro”, conta Manoel. Não havia mobília e mesas no centro da sala, e todos se alimentavam sentados no chão, sempre após a bênção do pai. As gamelas de madeira eram habitualmente usadas para as mulheres tomarem banho, numa época em que o alumínio e o plástico, se existiam, não eram acessíveis a todo mundo.

A receita para passar dos 100 anos

Manoel da Rosa ri, com cara de saudade, dos anos da juventude, quando ir aos bailes era a principal diversão disponível. Cita de memória um Carnaval que passou no clube 1º de Maio, em Barreiros, São José, ainda na década de 1940. As missas e as festas na freguesia de Canasvieiras eram formas de sair do ritmo de trabalho no plantio e no mar. Os brinquedos eram criados pelos próprios moradores, e passear na casa de parentes e amigos também quebrava a rotina dura do dia a dia.

Hoje, ele ouve notícias no rádio, vê futebol e o noticiário da televisão e programas que mostram o Brasil e o mundo de cima, com suas belezas e recantos inacessíveis para a maioria das pessoas.

Existe alguma receita para a longevidade? Seu Manoel não tem o segredo, mas recomenda fazer como ele – usar pouco sal, fugir das comidas gordurosas, viver sem cigarro e bebidas alcoólicas. As dores do mundo precisam ser suportadas, porque “quem não sofre não tem o gosto de viver”. Nosso filósofo diz, com bom humor, que seus pais, irmãos e os filhos que já morreram esperam por ele, mas aposta que os jovens de hoje, mesmo com os avanços da medicina, têm menos chances de virar centenários. “A morte entra pela boca”, decreta.

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