Ela tem apenas 34 anos e, em seus pouco mais de 1,5 m de altura, se tornou gigante. É expoente da comunidade Monte Cristo, no extremo-oeste continental de Florianópolis, onde vive desde 2016. Jaqueline de Sousa Ribeiro, é o tipo de mulher inquietante, transformadora, inspiradora.
A líder comunitária do território (forma como ela chama parte de seis comunidades das dez que integram o bairro Monte Cristo) tem por vocação unir forças, buscar parceiros e, após entender as demandas, buscar soluções para o local onde vive na cidade. Tudo com o singelo e admirável intuito de melhorar a vida das pessoas.
Jaqueline de Sousa Ribeiro é do Pará, mas vive na comunidade do Monte Cristo desde 2016, onde atua em projetos para o desenvolvimento das pessoas – Foto: Leo Munhoz/NDHoje, não há quem more no Monte Cristo e não conheça ou tenha ouvido falar dos trabalhos dessa mulher. O bairro é um dos maiores da Capital, com uma população de 992 moradores, conforme dados do censo de 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – os números do Censo deste ano que atualiza a população do local serão divulgados apenas no fim do ano -, mas a líder comunitária afirma que por lá são mais de 12 mil pessoas atualmente.
SeguirNossa personagem já montou uma cooperativa de doces para mulheres, com o intuito de capacitar as moradoras e gerar renda, e lutou para ajudar a colocar comida na mesa das centenas de famílias em situação de vulnerabilidade social durante a pandemia da Covid-19, coletando alimentos e distribuindo cestas básicas.
Atualmente, é a presidente da Ammo (Associação das Mulheres do Monte Cristo), que oportuniza cursos de capacitação socioemocional e de qualificação profissional a jovens e mulheres da região. Tudo sem recursos públicos, apenas com a ajuda de outras instituições, voluntários externos, pessoas da própria comunidade e parceiros da iniciativa privada.
Jaqueline de Sousa Ribeiro é uma prova de que Florianópolis tem o dom de produzir e atrair mulheres inovadoras e preocupadas com o desenvolvimento das pessoas. Jaqueline não é manezinha nascida e criada aqui na Ilha da Magia, mas assim como muitos escolheu Florianópolis para criar, educar os filhos e se apaixonar pela comunidade.
“Floripa mudou a minha vida. Sou apaixonada por esta comunidade que me acolheu, me capacitou e me transformou na mulher forte que sou hoje. Por isso, o que faço é só devolver todo este amparo que recebi”, enfatiza.
Mulher, negra, nortista, mãe de cinco e líder comunitária
Para entender a citação de Jaqueline de Sousa Ribeiro, é preciso conhecer a história de superação da líder comunitária do Monte Cristo. Ela é paraense, da cidade de Ananindeua, que fica na região metropolitana de Belém. Filha de pai desconhecido e de uma auxiliar de limpeza, se casou cedo, aos 17 anos de idade. Logo vieram os filhos. Cinco enquanto ela ainda morava lá no Norte do Brasil. O caçula já é catarinense.
Jaqueline de Sousa Ribeiro diz que hoje só devolve todo o acolhimento e a transformação de vida que a comunidade do Monte Cristo deu a ela – Foto: Leo Munhoz/NDJaqueline lembra como chegou a capital catarinense. Tudo ia bem no Pará, até que o então companheiro dela foi demitido. Em busca de novas oportunidades, a família decidiu mudar para Santa Catarina.
“Meu ex-marido é natural de Lages, a família dele mora aqui em Florianópolis. Em 2012 ele foi demitido e, então, decidimos vir para cá em busca de oportunidades pra nós e principalmente para as crianças”, comenta.
O casal se estabeleceu em Biguaçu. Alguns anos depois, um dos filhos de Jaqueline foi diagnosticado com problemas renais. “Foi uma época bastante difícil. É doloroso até hoje. Aos 13 anos, meu menino teve que fazer um transplante renal. Apesar de todos os esforços das equipes médicas, ele não resistiu e morreu pouco tempo depois”, lembra ela.
Pouco tempo depois ela engravidou novamente. “Foi aí que meu casamento acabou. Me separei grávida. Meu ex-marido se comprometeu a dar a pensão, mas me vi naquela situação de me perguntar: e agora?”, relata.
Jaqueline foi resgata pela amiga da comunidade Monte Cristo
“Foi aí que veio um anjo, aqui de dentro da comunidade do Monte Cristo, e me acolheu”, enfatiza Jaqueline, com um brilho no olhar. Ela está falando da amiga Lair Dias. “Ela, vendo minha situação disse sem exitar: ‘Jaque, não vou deixar você ficar na rua com seus filhos. Pega suas coisas e vamos lá para casa’. Assim começou a reviravolta na minha vida”, lembra, orgulhosa.
A amiga morava em uma pequena casa – aquelas moradias populares da comunidade – junto a 11 pessoas, entre filhos e netos. “Imagina a situação. Eu chegando lá com meus quatro filhos, grávida, com todas as minhas coisas. A casa já estava cheia, mas minha amiga não pensou duas vezes e me acolheu. (…) Foi ali, naquela situação, que aprendi o poder, o engajamento e a força de uma comunidade”, enfatiza.
‘O caminho para uma vida nova passa pela educação’
Com a ajuda dos amigos do Monte Cristo, que cuidavam das crianças de Jaqueline, ela conseguiu sair para procurar um emprego. Logo começou a trabalhar informalmente pelo bairro. “Em três meses, arrumei um emprego no Colégio Catarinense. Fui contratada para fazer a limpeza da Instituição. Ali vi que o caminho certo para uma vida nova passava pela educação”.
“Minha amiga mais uma vez me incentivou e eu voltei a estudar. Terminei o ensino médio e fiz magistério. Isso só foi possível porque meus amigos da comunidade cuidavam dos meus filhos enquanto eu trabalhava de dia e nos momentos em que eu estudava à noite. Sem esse amparo, isso seria impossível”, reconhece Jaqueline.
Foi após começar a trabalhar que Jaqueline conseguiu deixar a casa da amiga para voltar a ter o espaço próprio para cuidar da família. Com os estudos em dia, veio um novo desafio. “Estava terminando o magistério e fiquei sabendo de um concurso público da Prefeitura de Biguaçu, para a contratação de professor auxiliar de sala, sem muitas pretensões resolvi fazer a prova. Acabei passando em quarto lugar”, diz Jaqueline.
Figura popular e cativa da comunidade Monte Cristo, Jaqueline de Sousa Ribeiro busca nos projetos sociais a transformação das pessoas da comunidade – Foto: Leo Munhoz/NDO retorno à comunidade que sempre a apoiou
Mesmo trabalhando na escola em Biguaçu, Jaqueline fez questão de continuar morando na comunidade do Monte Cristo, na Capital. “Já estava envolvida com este lugar, não queria sair daqui. Aqui meus filhos eram cuidados pelos meus amigos, frequentavam as escolas, mudar para que”, enfatiza.
Nesse período, um dos filhos de Jaqueline começou a “dar trabalho” na escola em que estudava, a Escola de Educação Básica América Dutra Machado. “Todo dia era um novo pedido para eu ir à instituição para conversar com os professores e diretores. Mas o que começou como um problema se tornou algo maravilhoso, porque acabei criando um envolvimento muito grande com a equipe educacional e comecei a me engajar nas atividades da instituição”, conta a líder comunitária.
“Quando tinha um evento na escola, já me chamavam para ajudar a organizar. Até que em 2019 fiquei sabendo que duas alunas estavam grávidas. Uma menina de 13 anos, e outra de 16 anos – que já tinha um bebê”, relata. Ao se deparar com aquela situação a líder comunitária decidiu intervir.
“O único meio de você mudar a realidade de uma pessoa é você dando autonomia para ela gerar a sua própria renda, não existe outro caminho. Se o cidadão não gerar o próprio dinheiro ele nunca vai sair da vulnerabilidade”, frisa.
Projetos sociais pela comunidade
Pensando nisso, a líder comunitária e professora reuniu um grupo de mulheres junto às duas alunas grávidas para discutir e pensar maneiras de gerar renda. “Decidimos então criar uma cooperativa para mulheres especializadas na produção de doces. Buscamos capacitação e o projeto se tornou um sucesso”, detalha Jaqueline.
“Surgiu, então, a pandemia da Covid-19. Tudo fechou, inclusive a cooperativa”, lamenta. “Lembro bem que quando a pandemia foi decretada fui à escola. Na comunidade, os pequenos se alimentam, muitas vezes, nesses projetos, porque a família tem poucos recursos. Os pais estavam desesperados”, lembra.
O grupo de voluntários liderados por Jaqueline se propôs a comprar alimentos para produzir marmitas para as crianças, mas “devido ao decreto nacional que impunhas as restrições, (…) não teve como continuar”.
É claro que nossa personagem não desistiu: “Fomos ao plano B. Buscamos apoiadores e começamos a montar cestas básicas. Milhares foram distribuídas por nosso grupo de voluntários, o qual agradeço muito”.
Jaqueline de Sousa Ribeiro diz que a educação e a oportunidade são as ferramentas para mudar uma comunidade – Foto: Leo Munhoz/NDCom o fim da Pandemia, surgiu a necessidade de voltar a gerar renda, mas agora o foco mudou, segundo a voluntária. “Muitas mulheres começaram as nos procurar em busca de empregos. É difícil para a comunidade conseguir uma vaga. Falta experiência, qualificação e abertura do mercado de trabalho. Transforamos a cooperativa na Ammo (Associação das Mulheres do Monte Cristo). Com muitos parceiros, oferecemos uma serie de cursos às elas e aos jovens da comunidade”, diz orgulhosa.
O projeto está por todo o bairro. São cinco polos de atendimento, como uma loja escola, laboratório para letramento digital, sala de corte e costura, entre outros. “Sempre estamos criando novas capacitações, mas uma é fundamental e obrigatória a todos que ingressam nas atividades da Ammo, a de desenvolvimento socioemocional”, pontua Jaqueline, que acrescenta mais uma observação de impacto:
“É muito difícil para quem mora num território vulnerável sair dessa bolha e voar, vencer na vida. Por isso, não basta apenas dar a qualificação profissional. É preciso fazer uma transformação mental para o empoderamento. Esse é nosso ponto de partida”, acrescenta Jaqueline.
A Ammo atualmente segue ajudando a comunidade também outros projetos. “No ano passado a gente atendia a mais de 5 mil famílias com uma cartão de alimentação no valor de R$ 500. Hoje estamos com o vale-gás. Por meio de projetos, doamos todos os meses um botijão de gás a 700 famílias da comunidade. Assim seguimos, com a ajuda de quem pode, todos juntos na missao de ajudar a mudar realidades da nossa comunidade, oferecendo oportunidade”, conclui a líder comunitária do Monte Cristo, Jaqueline de Sousa Ribeiro. Atualmente ela pediu exoneração do quadro de servidores da Prefeitura de Biguaçu para se dedicar exclusivamente às atividades da Ammo.
Floripa 350
O projeto Floripa 350 é uma iniciativa do Grupo ND em comemoração ao aniversário de 350 anos de Florianópolis. Ao longo de dez meses, reportagens especiais sobre a cultura, o desenvolvimento e personalidades da cidade serão publicadas e exibidas no jornal ND, no portal ND+ e na NDTV RecordTV.
No mês de agosto, o projeto irá contar histórias de ‘Mulheres da Ilha’. Personagens com diferentes perfis que fazem a diferença na Ilha da Magia.