Uma semana após as polêmicas envolvendo uma live sobre memória LGBTQIA+ em Itajaí, o criador do projeto, Daniel Olivetto, usou a tribuna na Câmara de Vereadores de Itajaí para rebater as críticas.
Daniel, que é ator e mestre em teatro e atua na área desde 1998, começou o discurso contando que o termo “criança viada” é antigo e se popularizou na internet, para retratar a infância de pessoas que iam contra padrões de sexualidade e gênero. “Eu fui uma criança viada”, disse.
Organizador do evento “Criança Viada Show” usou a tribuna na Câmara para rebater críticas – Foto: Câmara de Vereadores de Itajaí/Reprodução/NDJá o “Criança Viada Show” tem como proposta, segundo ele, trazer a memória de adultos LGBTQIA+. Para Daniel, isso também significa cuidar das crianças.
Seguir“Nós também nos preocupamos com as crianças, porque fomos violentados desde a infância, mas nós tivemos a sorte de chegar à vida adulta no país que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo”.
Segundo Daniel, o projeto foi contemplado pela Lei Aldir Blanc em dezembro de 2020. A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) Subseção Itajaí também emitiu uma nota de repúdio pelo que classificou como “censura” pro parte da Fundação Cultural e da prefeitura de Itajaí.
“O cancelamento do evento, na noite da véspera de sua produção, configura Censura, o que não se justifica no Estado Democrático de Direito em que vivemos, gerando extrema insegurança e prejuízos para os artistas – que dispenderam mais de cinco meses de preparação, após sua aprovação pelo Ente Municipal”, diz a nota, assinada pelo presidente da instituição, Renato Felipe de Souza.
Polêmica
Na sexta-feira (14), o ND+ explicou porque a live estava causando tanta confusão em Itajaí. Apesar do nome “Criança Viada”, o público alvo do evento não eram crianças.
Ato organizado pela Coletiva Epicena, com apoio do Mães pela Diversidade, protestou em frente à sede da Fundação Cultural de Itajaí contra o cancelamento do evento – Foto: Coletiva Epicena/DivulgaçãoMesmo assim, a Prefeitura de Itajaí mandou cancelar a ação, “em função do projeto, contemplado no Edital nº 011/2020 – Credenciamento de Prêmios e Projetos Artístico-Culturais da referida lei, em tese, poder confrontar o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), que prevê a proteção integral da criança e do adolescente, em função do uso do termo ‘Criança Viada Show’ em seu anúncio”.
A notícia veio na noite de sexta para os idealizadores. Em nota enviada à reportagem pela assessoria de imprensa do projeto, eles destacam que “Criança Viada Show é um projeto de memória e registros de cinco artistas homossexuais, que falam, em formato de podcast e vídeo, sobre suas trajetórias, vidas e existências enquanto homens LGBTQIA+. O projeto é feito por e para adultos, nunca tendo sido dito nada diferente disso na divulgação do mesmo”.
Repercussão
A Fecate (Federação Catarinense de Teatro) emitiu uma nota de repúdio e em apoio ao projeto. “A Fecate repudia veemente todos os atos de censura e homofobia e lança um alerta para a sociedade em relação a esse grave ocorrido no município de Itajaí-SC, importante polo de desenvolvimento cultural do Estado. Os atos arbitrários colocam em risco a vida das pessoas LGBTQIA+ pois incentivam ainda mais a homofobia e cerceiam a liberdade dessas pessoas (que foram impedidas de falar sobre suas vivências). Os atos ainda ferem gravemente a liberdade de expressão e retiram as condições mínimas de trabalho das equipes do projeto e da Comissão de Seleção”.
O secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro, Mario Frias, comemorou a decisão pelas redes sociais. No Twitter, ele parabenizou a prefeitura: “Estarei sempre atento para impedir o uso da verba da cultura para outros fins, outrora ignorados pelos antigos governos”.
Parabenizo a prefeitura por reconhecer o equívoco, cancelando o edital, evitará que tomemos medidas jurídicas. Estarei sempre atento para impedir o uso da verba da cultura para outros fins, outrora ignorados pelos antigos governos. pic.twitter.com/m5Rx5fYBeB
— MarioFrias (@mfriasoficial) May 14, 2021
O grupo Coletiva Epicena, com apoio do Mães para Diversidade, realizou um ato em frente à sede da Fundação Cultural de Itajaí contra o cancelamento da live.
O segundo filho do presidente e vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro (Republicanos), também comentou sobre o projeto nas redes sociais e o classificou como contraditório.
“No momento em que a esquerda exige os recursos do pagador de impostos para uso da lei rouanet [sic], período de pandemia que impede realização de ‘shows’, sendo uma clara prova de contradição do que dizem exercer, a terceira via apoia recursos públicos para ‘peça’ com título criança viada”, tuitou.
No momento em que esquerda exige os recursos do pagador de impostos para uso da lei rouanet, período de pandemia que impede realização de “shows”, sendo uma clara prova de contradição do que dizem exercer, TERCEIRA VIA apoia recursos públicos para “peça” com título CRIANÇA VIADA. pic.twitter.com/LiRVT5lKY8
— Carlos Bolsonaro (@CarlosBolsonaro) May 16, 2021