Os dados recentes de violência contra mulheres em Itajaí, Litoral Norte de Santa Catarina, acendem um alerta vermelho nas delegacias, instituições de acolhimento, centros de assistência social e, especialmente, na mente de quem pode ser a próxima vítima.
Homem que matou esposa e escondeu corpo em estacionamento é condenado – Foto: Christiano Antonucci /Divulgação/NDChristiane Stuart (PSC) decidiu pautar a atuação como vereadora de Itajaí, entre outras frentes, no enfrentamento a este tipo de violência, após ter sido vítima de violência psicológica.
“Eu queria muito que as mulheres entendessem o que é violência. A física é a última delas, mas, quando chega nela, é porque passou por todas as outras, e não se deu conta”, explica Christiane.
A questão financeira, os filhos e os papéis impostos às mulheres na sociedade são só alguns dos motivos que, para a vereadora, podem fazer com que as mulheres passem por isso.
Romper o ciclo da violência não é fácil, mas Stuart não se arrepende de nada. “Cada pedra que apareceu no meu caminho eu usei de degrau para subir”. A atual vereadora conta que sofria do ex-companheiro violências psicologias. “Uma mentira falada muitas vezes se torna verdade. Eu realmente me sentia um lixo”, relembra.
No final do casamento, ela percebeu que as outras mulheres com quem o ex-companheiro se relacionava não eram tratadas da mesma forma. Este foi o gatilho para romper o ciclo da violência. Essa experiência serviu para abrir a consciência dela e, hoje, também serve de inspiração para outras mulheres.
Violência psicológica pode escalar para física – Foto: Pexels/Anete Lusina/NDPara outra vítima, que prefere não se identificar, a violência escalou para o físico, além do psicológico. O relacionamento dela durou 24 anos. O ex-marido era dependente químico e, para ela, por ser o marido, ela deveria cuidar dele. Chegou a interná-lo, mas não houve mudanças. “Eu levei esse casamento 24 anos acreditando na mudança dele, até que, no último ano, foi o extremo de tudo”, relembra.
O amor fez com que inúmeras tentativas de separação acabassem num retorno. A mudança, no entanto, não vinha. Agressões, xingamentos. “Numa conversa, ou até se preparando para sair, ele do nada ‘invocava’ em alguma coisa, que não era verdade”, conta. Chutes, socos, tapas no rosto. “Eu vi ele contanto, dez tapas”.
A gota d’água foi quando ela descobriu as traições, e as agressões eram quase diárias. Ela saiu de casa, registrou boletins de ocorrência, solicitou medidas protetivas. Tudo por influência de pessoas como Christiane, que deram forças para que o ciclo fosse rompido.
Acolhimento às vítimas
As vítimas de violência doméstica encontram, no acolhimento, segurança e forças para recomeçar. Itajaí tem 20 vagas para acolhimento institucional em um abrigo não governamental, conforme dados compilados pelo Observatório da Violência contra Mulher de Santa Catarina.
Mulheres em risco podem ser transferidas para as Casas-Abrigos pelos CREAS (Centro Especializado de Assistência Social), a partir de uma triagem. A Casa das Anas de Itajaí foi inaugurada em 2019 por uma iniciativa da ONG Vidas Recicladas.
Na Casa das Anas, além de apoio psicológico e de assistente social, as mulheres recebem acompanhamento jurídico, participam de oficinas e de cursos para retornar ao mercado de trabalho.
Casa das Anas de Itajaí foi inaugurada em 2019 e conta com 20 vagas para acolhimento de mulheres – Foto: Marcos Porto/Prefeitura de Itajaí/Divulgação/NDDados
Segundo dados da SSP/SC (Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina), 2022 foi, até agora, o ano com mais casos de lesão corporal contra mulheres dos últimos três anos. De janeiro a julho, foram 386 registros. No mesmo período, em 2021, foram 290 casos. Em 2020, foram 275.
Dados da PM (Polícia Militar) de Itajaí, levantados pelo ND+, mostram que houveram dois feminicídios consumados contra moradoras de Itajaí, enquanto três foram tentativas. Um dos casos de feminicídio foi o da servidora do Judiciário, Indira Mihara Felski Krieger.
2022 também foi o ano com mais estupros registrados pela SPP de janeiro a julho. Foram 26, só nos primeiros sete meses do ano. Em 2021, foram 23 e, em 2020, 19 registros. Estes, no entanto, são os números que chegam até as polícias.
Machismo cultural
Os papéis aos quais as mulheres são submetidas, de feminilidade e da subserviência, enquanto aos homens é lhes imposto a virilidade e expressão da força, atrapalham o processo de percepção do ciclo de violência vivido, sobretudo no momento da tomada de decisão pela denúncia, como explica a coordenadora das DPCamis (Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idosos ) de Santa Catarina, Patrícia Zimmermman, em entrevista à série Palavra de Mulher, da jornalista Amanda Santos.
Segundo a psicóloga Iramaia Callerani, é muito importante, ao identificar que se está em uma relação abusiva, se assegurar de que há uma rede de apoio, uma amiga, um serviço de qualidade que valide seus sentimentos e que não as julgue. Alguém que permita que ela tenha uma fala será direcionada para a proteção e não para o julgamento.
É comum as mulheres sentirem vergonha, uma vez que os autores da violência as responsabilizam pelo fracasso da relação. Aí entra o receio de como essas mulheres vão comprovar que estão sofrendo violência, uma vez que esta nem sempre é física?
O passo seguinte tem a ver com a punição do agressor. Outro empecilho já que o processo exige encontrar, justificar a violência, ter testemunhas e provas.
Após as denúncias, as medidas protetivas são artefatos que podem colaborar na proteção das mulheres. Entre janeiro e julho de 2022, o TJSC (Tribunal de Justiça de Santa Catarina) distribuiu 500 medidas. Destas, a Rede Catarina, da PM, acompanha 497. Foram 109 visitas só em agosto, e mais de 2,5 mil desde a criação do programa, em outubro de 2017.
*Com informações de Juliana Senne, da NDTV.