Do subsolo, catarinense relata dias de tensão na Ucrânia: ‘Quero sair em segurança’

Kelly Müller e Fabio Wilke que foram buscar a filha nascida de barriga de aluguel vivem dias de tensão e esperança; só querem voltar para casa em segurança

Raquel Schiavini Schwarz Joinville

Receba as principais notícias no WhatsApp

Mikaela completou um mês de vida neste domingo, dia 27. Está segura nos braços dos pais Kelly Müller e Fabio Wilke no subsolo de um prédio em Kiev, na Ucrânia. Mal sabe ela que do lado de fora uma guerra machuca o país e causa apreensão entre seus habitantes e estrangeiros. Momentos de tensão são relatados por eles.

kelly com a filha e o maridoKelly, a filha Mikaela o marido Fábio – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND

A pequena Mikaela nasceu em uma barriga de aluguel e os pais foram recebê-la semanas antes do nascimento. Kelly, que morou em Canoinhas, no Planalto Norte, e o marido Fabio chegaram em Kiev no dia 7 de janeiro. O parto de Mikaela estava previsto para dia 21 de janeiro, mas ela decidiu esperar mais um pouquinho e veio ao mundo em 27.

Em entrevista ao Portal ND+, Kelly conta como está vivendo na capital da Ucrânia, o medo e a expectativa de voltar para casa.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

Refúgio

Kelly recorda que, para amanhecer da última quinta, 24/2, quando levantou para fazer a mamadeira da filha, viu a notícia de que o espaço aéreo havia sido fechado, olhou para janela e viu o trânsito caótico. “Trânsito parou. Os carros não iam para frente nem para trás”. Era a guerra abrindo as primeiras feridas, revelando as primeiras consequências.

trânsito caótico em kievImagem do trânsito na quinta-feira, dia 24, pela manhã em Kiev. –  Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND

Ao lado de outras famílias, crianças e um grupo de jovens – cerca de 40 pessoas – Kelly, o marido e a filha estão abrigados, desde quinta-feira, no subsolo de um prédio de um condomínio residencial em Kiev.

O espaço de cerca de  40 m², na verdade, era o restaurante deste condomínio onde os casais atendidos pela clínica de barriga de aluguel desciam dos apartamentos para fazer as refeições. Desde o início da guerra, no entanto, tornou-se um refúgio. Eles dormem, se alimentam e raramente podem sair até o portão. Esta (domingo, dia 27, para segunda-feira) será a terceira noite dormindo no subsolo, relata kelly, que está bem.

“Há bastante comida, bebida, temos suporte aqui. Estamos bem e seguros.” A comunicação é, basicamente, em inglês ou por Google tradutor.

Toque de recolher

No entanto, os momentos de tensão são constantes. Mesmo afastado do centro, do condomínio é possível ouvir barulho de explosões.

Neste sábado, dia 26, por exemplo, começou um toque de recolher em Kiev das 17 horas até 8 horas de segunda-feira, dia 28.

“Nesse período, a gente não pode sair nas ruas. Quem sair será considerado inimigo da Ucrânia e pode ser abatido”, disse Kelly lendo um panfleto assinado pelas autoridades locais.

toque de recolher

No sábado, 26, à noite,  outro momento de grande apreensão. “Mandaram todos ficar em silêncio. Apagamos as luzes, paramos de falar porque duas pessoas suspeitas foram vistas na rua. Depois de uns cinco minutos, veio a informação de que era ‘pessoal nosso’ e que estava tranquilo. Aí voltamos a conversar e acendemos as luzes novamente”, lembra.

Expectativa de ir embora

Kelly, assim como outros estrangeiros, está em contato direto com a Embaixada Brasileira, que, segundo ela, está dando todo apoio e orientações necessárias.

Já houve, inclusive, dois momentos em que a Embaixada sinalizou que poderiam ser janelas de fuga. Na sexta-feira, dia 25, um trem partiu da estação central indo em direção a uma fronteira da Ucrânia, já que todo o espaço aéreo do País está fechado. A Embaixada sugeriu que poderia ser uma oportunidade de sair do País.

No entanto, o clima estava muito tenso naquele momento, conta Kelly. A família, então, decidiu que não era o momento ainda. No sábado, dia 26, pela manhã, em novo contato com a Embaixada, ela foi informada que havia outro trem e, desta vez, o cenário era mais favorável lá fora. Brasileiros e latino-americanos seriam priorizados.

Kelly e Fábio começaram a pesquisar carro para levá-los até a estação. Não encontraram.

“A gasolina está racionada, não tem uber, táxi, que pudesse fazer a corrida até a estação. Entramos em contato com alguns conhecidos no Brasil para saber se tinham parentes em Kiev para poder nos dar uma carona, mas não conseguimos. Então, mais uma vez, decidimos ficar.”

E parece que foi a escolha certa, já que horas depois houve alerta de ataques aéreos e a situação voltou a ficar bem crítica. “Até nosso contato lá na Embaixada precisou ir para um abrigo às pressas”, relata a catarinense.

Ela e outras famílias estão seguindo todas as orientações da Embaixada, que recebe informações constantes das autoridades locais.

“A Embaixada está em contato direto com as autoridades e vai nos reportando como está a situação lá fora, todo o contexto.”

Com a filha de um mês, Kelly não quer arriscar.

“Quero sair em segurança. Não tenho nenhuma intenção de forçar a barra. Não quero sair em momento tenso”, reforça.

espaço onde estão abrigados os estrngeirosAbrigo onde há cerca de 40 pessoas na expectativa de poder voltar em segurança a seus países- Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND

Covid-19

Três dias após Mikaela nascer, Kelly e o  marido pegaram Covid-19 e tiveram de ficar isolados da filha por nove dias. “Ela ficou em um andar e nós em outro andar do prédio”, conta. A pequena estava sendo assistida e se alimenta com fórmulas infantis.

O voo de volta ao Brasil estava marcado, inclusive, para este domingo, dia 27/2. A família teve de correr atrás dos documentos da filha, pois houve um problema no sistema de registro da Ucrânia e ela não conseguiu a documentação.

Agora, no entanto, com exames de DNA feitos e ajuda da Embaixada, documento e passaporte da menina foram emitidos e está tudo certo. Só esperando a hora de voltar para solo brasileiro.

Em Santa Catarina e no Paraná, familiares aguardam a volta com muita apreensão. A mãe de Kelly, que mora em Mafra, tem descendência dos bucovinos, região que fazia parte da Romênia e Ucrânia. Kelly nasceu em Rio Negro (PR), divisa com Porto União (SC). A maior colônia de bucovinos do Brasil está justamente em Rio Negro e Mafra, esta cidade do Planalto Norte catarinense.

mikaelaPequena Mikaela completou um mês de vida neste domingo, dia 27- Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND

Barriga de aluguel

A jornalista, que já trabalhou em um jornal de Joinville e agora é técnica do judiciário e mora em Guaratuba, no Paraná, contou para o Portal ND+ a jornada até a chegada da filha Mikaela.

Kelly conheceu o marido em Guaratuba e casou-se em 2013 com Fabio. Em 2015, engravidou, mas teve um aborto espontâneo bem no início da gestação.

Depois disso, engravidou mais duas vezes, mas entrou em trabalho de parto com cinco meses. “Foi muito difícil. Me culpei demais”, conta. Ela ficava na tensão dos primeiros três meses. Quando passava pelos três meses e os exames apontavam que estava tudo bem era um alívio. Porém, aos cinco meses, os dois filhos nasceram. Sobreviveram sete horas e os momentos estão entre os momentos mais difíceis do casal.

“Eu me culpei muito. Por mais que tivesse feito repouso, acompanhamento, tomei medicamentos, exames, tudo, tudo”. Mas de repente….

Kelly então recebeu o diagnóstico “Incompetência de colo de útero”.

Em janeiro do ano passado, em busca de realizar seu sonho, passou a pesquisar clínicas de barriga de aluguel. Encontrou nos Estados Unidos e na Ucrânia. Nos EUA, porém, ‘era muito caro’, explicou a jornalista.

O casal decidiu, então, pela Ucrânia. Em abril do ano passado, viajou ao País para coleta de material. A clínica pede uma série de exames de fertilidade.

“A nossa barriga de aluguel engravidou de primeira. Tem casais que esperam até dois, três anos. Fiquei muito feliz. Era meu sonho. Estava difícil continuar sem realizar isso”, testemunha.

Naquele momento (abril do a no passado), já havia muita tensão em Kiev, lembra ela, que acompanhava tudo pelo noticiário.

“Antes da guerra, foi o momento de maior tensão no País desde 2014. Havia tropas na fronteira.”

Naquele momento, entretanto, o presidente russo Vladimir Putin recuou e ninguém acreditava que o cenário atual pudesse virar realidade.

“Achamos que, depois do recuo, não iria mais acontecer nada, que jamais iria acontecer algo dessa proporção. Eu observava que os ucranianos e eles tinham o mesmo pensamento. Estavam tranquilos. Mas, infelizmente, houve a invasão”, lamenta.

Sem entender o que está acontecendo, a pequena Mikaela devolve as forças, a esperança de voltar para casa em segurança e coloca um sorriso no rosto dos pais kelly e Fabio toda vez que eles olham para ela.

“Ela é muito alegre”, finaliza.