Nos últimos anos, as empresas globais de tecnologia e startups foram vanguardas na adoção de culturas organizacionais mais diversas e abertas, impulsionadas pela busca da inovação e também a partir da pressão da sociedade.
Um marcador importante foi o movimento Black Lives Matter, em que as empresas passaram a ser cobradas por posicionamentos sobre questões raciais e outras pautas.
A partir disso, a diversidade e inclusão de grupos sub-representados nas empresas tornou-se um dos principais temas nos ambientes corporativos, sendo uma área de estudo e análise ainda muito recente.
Diversidade por IA – Foto: Imagem gerada por inteligência artificialUma pesquisa publicada no final de 2022, da Brasscom – Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e de Tecnologias Digitais sobre Diversidade no Setor de TIC, indica que no Brasil, 61,4% dos profissionais do setor são homens brancos, enquanto o percentual de homens negros é de 18,4%, e de mulheres negras é de 11,6%.
Outros dados divulgados pela instituição, como o baixo número de pessoas com deficiência e diferentes faixas etárias, demonstram como o mercado de TI ainda é bastante conservador e com pouca representatividade.
O último estudo Capital Humano na Tecnologia Catarinense da ACATE, com dados de 2020, indica que o perfil predominante dos colaboradores em Florianópolis também é de homens (51,7%), com ensino superior (37,8%) e idade média de 35 anos.
No entanto, a pesquisa não mapeia outras questões e interseccionalidades nas empresas de TI no estado, como o número de pessoas negras em cargos de liderança e por áreas técnicas, ou o número de pessoas com deficiência, e nem apresenta dados sobre identidade de gênero e orientação sexual.
Mas apesar da falta desses dados, é fato que muitas empresas e startups da cidade foram pioneiras no estado, ao pensar em políticas e programas de diversidade, acompanhando o movimento global das big techs que valorizam equipes e ambientes diversos, que podem impulsionar a inovação.
A Consultora Clarissa Daroi, especialista na empresa Mais Diversidade, que atua nacionalmente com a temática em empresas de diferentes setores, analisa que “muitas das organizações de Santa Catarina são formadas por pessoas que são parte do mesmo grupo e comunidade.
Assim, há uma grande oportunidade de abrir os negócios para entrada de pessoas diversas, podendo ser um fator crítico para o sucesso e expansão dos resultados”.
Trabalho remoto ampliou as contratações de diferentes perfis e grupos
Durante a pandemia da Covid-19, com a adesão ao trabalho remoto, muitas empresas de tecnologia ampliaram as contratações de pessoas diversas.
É o caso da Feedz, startup criada em 2018 em Florianópolis, e que hoje tem um quadro de 170 colaboradores.
Durante a pandemia, com a migração de 100% do time para o trabalho remoto, a empresa ampliou o número de vagas e a contratação de pessoas de diferentes regiôes do pais, e hoje tem colaboradores de 39 cidades de todos os estados brasileiros.
A empresa trabalha com soluções para recursos humanos, com uma plataforma de performance e engajamento, que hoje tem mais de 1 mil clientes e 150 mil usuários.
Em 2022, a startup foi comprada pela Totvs por R$66 milhões. Entre os pontos que levaram ao rápido crescimento da empresa, a Head de Pessoas e Cultura da Feedz, Camila Bonetti Nunes, associa a formação de times diversos, que promovem mais questionamentos e impulsionam a inovação dos serviços.
Desde 2019, a Feedz trabalha com vagas afirmativas para atração de talentos. “Na época, a equipe tinha 30 pessoas e não recebíamos curriculos de pessoas diversas.
Nesse cenário, entendemos que era necessário atrair diferentes públicos, por isso criamos as primeiras vagas afirmativas para pessoas negras em 2020”, recorda Camila Bonetti. A partir daí, foram criadas estratégias diferentes de divulgação e atração, o que reverberou inclusive nas vagas de ampla concorrência, que passaram a receber inscrições de públicos diversos.
Nos anos seguintes, foram criadas outras vagas conforme a necessidade de cada área, e até hoje a empresa tem banco de talentos para mulheres pretas, pardas e indígenas, mães, pessoas neuro diversas, pessoas com deficiência, pessoas com mais de 40 anos, pessoas trans e travestis.
Atualmente, 60% das pessoas colaboradoras da empresa são mulheres, 33% são pessoas negras e 30% são parte do grupo LGBTQIA+.
Além dos programas de atração, um dos focos da Feedz é treinar lideranças para garantir a inclusão desses grupos na empresa, com acolhimento e empatia, bem como promover o desenvolvimento profissional.
Na startup, a cultura de diversidade é acompanhada pelo foco nas entregas, jornadas mais flexíveis e ações de conscientização ao longo do ano com os grupos de diversidade e toda a empresa.
Diversidade impulsiona a inovação e resultados financeiros
Embora muitas pesquisas nacionais e internacionais apontem a diversidade como fator de crescimento dos negócios e inovação de serviços, não existe um cálculo exato que garanta que a inclusão de determinados grupos irá gerar esses resultados. “De fato, não há relação de causa e efeito, mas sim de correlação.
Quando falamos de lucro e inovação há uma série de variáveis e aspectos que podem ser avaliados.
Mas, em geral, a cultura das empresas com equipes mais diversas, tende a ser mais aberta para entender o mundo de uma forma diferente e buscar soluções inovadoras para problemas complexos”, explica Eliézer Leal, Cofundador da Singuê, consultoria especializada em questões étnicos-raciais criada em Florianópolis.
Grupos compostos por perfis semelhantes, com a mesma formação técnica, das mesmas universidades, faixa etária, gostos e grupos de amigos, tendem a ver o mundo de forma parecida, limitando o potencial de inovação.
Assim, desde a seleção de talentos é importante analisar outros aspectos para além das competências técnicas.“Trata-se de uma mudança bastante significativa, onde as lideranças passam a valorizar a história de vida e experiências pessoais, mais do que a faculdade onde a pessoa estudou ou a última empresa do currículo, observando o potencial de aprendizado e desenvolvimento”, ressalta Eliézer.
Hóttmar Loch, CEO da Nohs Somos, startup de impacto social criada em 2019 em Florianópolis, que atua na consultoria de diversidade com foco em questões de gênero, acredita que muitas lideranças e empresas ainda não perceberam o potencial da diversidade. “Não se trata de assistencialismo, mas sim de negócios.
Hoje há um novo momento econômico, em que a diversidade de colaboradores é um critério para receber ou perder investimentos, atrair clientes, além de atender e estar pronto para lidar com questões legais, como o uso do nome social de pessoas trans”, indica Hóttmar.
Com o movimento do ESG (sigla que em português se refere a Sustentabilidade Ambiental, Social e Governança Corporativa), as empresas precisam olhar para a diversidade, no pilar Social, de forma estratégica.
Nesse sentido, é necessário pensar em uma Política de Diversidade específica para cada negócio. “Para isso é necessário realinhar toda a cultura da empresa, partindo da compreensão do por que a diversidade é importante para o negócio e quais os valores da instituição.
Também é preciso pensar em objetivos, metas, investimentos, códigos de ação, políticas de consequência, canais de escuta e outros aspectos”, explica o CEO da Nohs Somos.
Jornada da diversidade
Na prática, a ampliação da diversidade de pessoas diversas e inclusão desses grupos nas empresas demanda tempo e intencionalidade.
Na RD Station, startup de marketing digital, criada em Florianópolis em 2011, e que hoje tem mais de 700 colaboradores, as primeiras ações pensando em diversidade, partiram da organização de grupos de afinidade pelo próprio time.
Em 2016, foram criados os grupos “Preto no Preto” e depois o grupo “Ser” de mulheres, que passaram a discutir pautas de interesse para o desenvolvimento profissional e ampliação da representatividade no time.
A partir desses movimentos e com o crescimento da empresa, as ações foram se estruturando e ganhando força. Em 2020, a área de diversidade passou a integrar o time de Desenvolvimento de Pessoas, com a contratação de especialistas e ampliação da equipe.
Hoje, a diversidade é vista como parte da estratégia do negócio, com a definição de metas e indicadores para ampliação de grupos e acompanhamento das altas lideranças.
Gabriela Baptista, Coordenadora da área de Diversidade, Inclusão e Bem-estar na RD Station, explica que a área está organizada em três pilares: representatividade, desenvolvimento de pessoas e segurança psicológica.
Esse pilares envolvem ações desde a atração de pessoas de diferentes regiões, perfis e características, com a criação de vagas afirmativas e formação de lideranças, até o desenvolvimento de programas de inteligência emocional, apoio psicológico e a criação de benefícios específicos.
Em 2022, a startup assumiu um compromisso público de ampliar o número de mulheres nos cargos de tecnologia e liderança.
Crescendo de 20% para 30% de mulheres desenvolvedoras e em cargos lideranças em um ano.
Ao todo, hoje na RD Station o percentual de mulheres em diferentes cargos é de 53,5%, e nos cargos de liderança é de 47%.
A ampliação gradual se deu a partir de diferentes ações de desenvolvimento do time, atração de talentos, formação e conscientização das altas lideranças.
Entre os resultados observados a partir das ações e programa de diversidade e inclusão na RD Station, Gabriela Baptista cita a maior atração e retenção dos colaboradores, bem como uma melhor performance e engajamento.
“Para manter a empresa funcionando, eu preciso que as pessoas queiram trabalhar e permanecer aqui. Então, a gente vê a diversidade com um olhar de produtividade, aliado a criação de ambientes seguros e de bem-estar para as pessoas”.