Ei, mulher negra! Você pode! Não deixe que digam o contrário

Para que o preconceito termine, precisamos nos empoderar dentro de casa e passar aos nossos filhos valores de resistência

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Amanda Santos Florianópolis

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Ser mulher no Brasil está longe de ser fácil. Para a mulher negra então, nem se fala!  Aliás, qualquer debate sobre igualdade entre homens e mulheres gera uma certa polêmica. E se formos discutir preconceito ou os espaços que são negados aos negros e, mais ainda, à mulher negra, sempre soa como exagero.

Mulher negra enfrenta dificuldades que extrapolam a questão de gênero – Foto: Pixabay/DivulgaçãoMulher negra enfrenta dificuldades que extrapolam a questão de gênero – Foto: Pixabay/Divulgação

Já ouvi em conversas informais que racismo nem existe mais. O que tornou a conversa obrigatoriamente formal, claro!  Quando vemos um artigo redigido por uma mulher negra já rompemos uma barreira. Infelizmente, é um ineditismo que não gostaríamos de comemorar, mas é algo comum.

A mulher negra enfrenta desafios com três graves vertentes. Não basta ser mulher. Ela sofre o preconceito de gênero, o de raça e o de classe social, já que ainda somos minoria com ascensão profissional.

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Além disso, no mapa da violência, nós mulheres negras, somos as que mais sofremos violência doméstica. Essa violência, muitas vezes sexual, vem de uma construção histórica. Corpos negros foram hipersexualizados durante a nossa construção, fruto de um processo de desumanização das negras. Talvez por isso exista todo um mito em torno da nossa desenvoltura sexual.

Portanto, dentro de uma sociedade com valores e padrões historicamente hegemônicos, os desafios das mulheres negras são ainda maiores: estão em situações mais vulneráveis.

O papel da educação

Há quem acredite que a medida principal para uma mudança de chave está em políticas públicas com debates e inclusões. Eu vou além. Para que isso ocorra precisamos nos empoderar dentro de casa também. Passando para nossos filhos valores de resistência, luta e cobrando das escolas a informação real do nosso surgimento e participação para a evolução do país.

Nossas crianças só poderão lidar com situações constrangedoras se dentro de casa aprenderem que são tão capazes quanto um branco. Se acreditarem que nossa vulnerabilidade pode, em alguns casos, ser uma forma de impulsão e não de desânimo.

E é aí que nós mulheres negras entramos. Mesmo ainda com um número absurdamente menor, já temos médicas, jornalistas, modelos, médicas, doutoras, professoras, dentistas, escritoras, historiadoras, atrizes, políticas nesse país.

Já somos um número onde antes não tínhamos o direito de nos apresentarmos como tal. E com essa informação podemos nos multiplicar, pois criamos referências. Como fazemos isso? Passando aos nossos filhos os valores que nos fizeram chegar até onde estamos. Claro que essa responsabilidade social não é só nossa.

No país já existem leis que garantem que tenhamos nossa cultura esclarecida de forma cirúrgica dentro das salas de aula desde 2003 (Lei 10.639), você sabia disso? Algo que temos que cobrar para que saia do papel. Até porque a educação é uma das principais ferramentas para dissipar a ideologia da supremacia masculina/branca.

Assim, um dos caminhos para enfrentar as discriminações raciais e étnicas das mulheres negras é criar formas educativas que envolvam mídia, escola, organizações sociais e universidade. Para que aprendam/ensinem sobre as lutas e o papel social da mulher negra nos movimentos sociais e feministas.

Então… Parafraseando dois sambas enredo que ouço muitas vezes como um mantra (ou até mesmo como motivação) para mais um dia de luta e rumo às conquistas:

“Brasil, meu negoDeixa eu te contarA história que a história não contaO avesso do mesmo lugarNa luta é que a gente se encontra,” (Mangueira, 2019)

E

“Sofri nos braços de um capatazMorri nos canaviais onde se plantava gente”……“Onde mora a senhora liberdade, não tem ferro e nem feitor;” (Paraiso do Tuiuti, 2018)

É isso, mulher! Não deixe que nosso contexto histórico nos diga que não somos capazes. A história que permanece no anonimato e nos exclui de protagonismos de desenvolvimento nacional tem que sair do silêncio. É lei… Já não admitimos mais a resistência pois EXISTIMOS.

E mais que isso, ascendemos constantemente. Somos descendentes de Antonietas, somos alunas de Jeruzes, Nelis, Udas, Solanges, Neusas… Queremos ser Elisas, Michelles e tantas outras catarinenses referências negras para todos nós.

Saímos dos números e ganhamos espaços. E para você que ainda não sabe disso, vai Negra… Te liberta dessa opressão que não te permite reinar. Pega a tua coroa de cachos e te ponha a sonhar! Você é! Você pode! Você existe! Não deixe (JAMAIS) que te digam o contrário.