Se você não é barbeiro nem tem pretensão de ser, suas chances de entrar na família Souza são praticamente nulas. O gari Francisco de Souza e a dona de casa Judith Nairma de Souza tiveram oito filhos, cinco homens e três mulheres. Os filhos tornaram-se barbeiros. As filhas casaram-se com barbeiros.
Na foto, estão representadas 7 das 13 barbearias da família Souza – Foto: Leo Munhoz/NDDepois, os netos de Francisco e Judith passaram a trabalhar com os pais, ou abriram salão próprio. Lá se vão três décadas e a família Souza construiu 13 barbearias na Grande Florianópolis. São 17 profissionais entre filhos, genros e netos de Francisco e Judith.
A história começa com seu Chico, em casa, cortando o cabelo dos filhos. Se ficava desalinhado, com uma ou duas franjas, não importava. Afinal, não havia dinheiro para levar a criançada ao barbeiro. Depois de um tempo, ele pegou jeito com as tesouras e até os vizinhos começaram a cortar cabelo com Francisco.
SeguirA profissionalização na família foi em 1989, quando o filho mais velho do seu Chico, Laureci de Souza, fez curso de barbeiro e transformou a tesoura em ganha-pão.
“Comecei no Estreito. O dono tinha 30 anos de profissão. Fiquei dois anos e, em 1991, montei a Barbearia Souza. Um ano depois, incentivei nosso segundo irmão mais velho (Francisco) a também cortar cabelo”, explica Laureci.
Os irmãos ficaram 12 anos em sociedade e Laureci saiu. Atualmente na Ponto Chic Barbearia, montou 26 salões ao longo da vida. Aos 52 anos, três décadas cortando cabelo, está passando o legado adiante. “Além de vários sobrinhos, tenho quatro filhos que cortam cabelo e uma filha casada com barbeiro”, conta.
Francisco pai não está mais entre os seus, mas viu os filhos prosperarem: “Ele tinha um grande orgulho, porque viemos de uma família bem necessitada. Meu pai nunca teve uma casa na vida e, quando começamos a cortar cabelo, nos unimos e fizemos uma casinha para ele. Depois, cada um passou a ter a sua própria casa”, enfatiza Laureci.
Terceira geração ainda mais profissional
Responsável por tocar o primeiro salão dos Souza, Francisco Filho também atingiu três décadas no ofício.
“A princípio, nem queria cortar cabelo. Lembro que ele [Laureci] abriu em agosto de 1991 e, em dezembro, já dizia: ‘tem três, quatro esperando pra cortar, tens que vir ajudar.’ Um dia fui trabalhar, estava no ônibus e veio o pensamento: ‘vais cortar cabelo’. E, assim, decidi. Nunca tirei dez dias de férias direto. Hoje, estou até com um pouco de dor no braço. Agora os filhos também estão trabalhando mais que eu. Essa é a tendência. Daqui para frente, vamos deixando para eles”, completa.
A terceira geração dos Souza, segunda a exercer o ofício, começou naturalmente. Queriam ter o próprio dinheiro e suaram para ganhá-lo. “Você começa, seus filhos crescem e, com 14 anos, querem o dinheirinho deles. Eu disse: ‘Venham para a barbearia, vou ensinar vocês. Não tem mesada, não’”, lembra.
Devagar, os herdeiros atenderam os primeiros clientes, depois, fizeram seus próprios cursos e mergulharam no ofício. “Meus filhos também começaram cedo, com 14 para 15 anos. Um dos meus irmãos, o Edinho, também cedo, 13 anos”, comenta Francisco Filho.
Para casar, cunhado teve que aprender a cortar cabelo
Quem tentou entrar na família e não tinha profissão, foi encaminhado. “Teve um que queria casar com a nossa irmã, mas não tinha profissão. ‘Quer casar? Vai aprender a cortar cabelo’”, conta Laureci sobre o cunhado Alexandre Neves. “Ele entrou, gostou e hoje tem a barbearia, o prédio é dele”, completa Laureci sobre o cunhado.
Garantir o sucesso dos estabelecimentos, sobretudo agora que a competição é maior, não é fácil, mas os Souza conhecem o caminho:
“nossa profissão nunca vai deixar rico, mas nunca nos deixa passar necessidade. Sempre tem demanda”, frisa Laureci. “Os meus dois filhos estão quase se formando em administração, mas para administrar a empresa. Eles não pensam em abandonar o ofício”, declara Francisco Filho.
Satisfeitos com uma trajetória longeva, Francisco e Laureci, os pioneiros, também passaram pelas adversidades do início de qualquer carreira. Três décadas depois, acumulam histórias daquelas que só barbeiro vive:
“Às vezes, chego nos clientes e digo que, até hoje, cortei só duas orelhas. Em 31 anos, só duas, tá bom demais”, brinca Francisco.