Eles são crianças, mas têm atividades, rotinas e sonhos de gente grande

12/10/2022 às 04h45

Os manezinhos Ana Beatriz Koch Tonin, Juju Müller, Ravi Nunes Maciel e Gustavo dos Santos Albino estão “de folga” nesta quarta-feira (12), celebrando o Dia das Crianças

Nícolas Horácio Florianópolis

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O verbo favorito deles tem sete letras, duas sílabas e começa em b: brincar! Mas alguns baixinhos gostam de levar certas brincadeiras a sério e estão escrevendo livros, modelando, laçando, ou tocando gaita.

Juju Müller já tem uma casa que pode chamar de sua – Foto: Leo Munhoz/NDJuju Müller já tem uma casa que pode chamar de sua – Foto: Leo Munhoz/ND

Falando de suas “carreiras”, feitos e desafios, eles se divertem à beça e fazem rir. Hoje, Dia das Crianças, não querem saber de outra coisa: “Não sei ainda quais os planos. Mas não vou ficar quieta um segundo”, diz a escritora Ana Beatriz (9 anos).

Nesta reportagem, ela, a modelo Julia Müller (4), o laçador Ravi Nunes Maciel (5) e o gaiteiro Gustavo dos Santos Albino (11) falam como se divertem sendo criança em 2022.

Ana Beatriz Koch Tonin nasceu em 20 de janeiro de 2013, em Florianópolis. Aos cinco, começou a fazer sessões de fonoaudiologia para desacelerar a fala. Ao descobrir as brincadeiras de trava-língua, a terapia ficou ainda melhor.

Resultado: a terapia virou obra literária. Assim nasceu “As aventuras de Luzia e as loucuras dos trava-línguas”, publicado pela Autografia Editora e lançado na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em julho.

Além da paixão prematura por leitura e escrita, Bia faz taekwondo, coral, teatro, natação, catequese, estuda piano, violão, ukulele e flauta. “Gosto de todos, mas o que tenho prática acho que é o piano, porque foi o primeiro que aprendi”, diz Ana Beatriz. “Ela não acha difícil, porque faz tudo brincando”, complementa a mãe, Iriana Custódia.

Ana Beatriz, sua obra e os marcadores de livro estilizados – Foto: Divulgação/NDAna Beatriz, sua obra e os marcadores de livro estilizados – Foto: Divulgação/ND

Diante de uma energia transbordante, o desafio da mãe é ficar entre uma biblioteca e outra atrás de novidade para saciar a leitora voraz. A biblioteca da escola não basta. A menina tem cadastro nas públicas do Estado e do Município.

No dia a dia, se alterna entre as atividades: ler, assistir TV, ler, usar o tablet, ler. E é só livro físico, nada de digital. Entre os autores favoritos, Neida Rocha e Maria Luísa Ramos, de Santa Catarina, e os nacionais Ziraldo e Maurício de Souza. Uma leitora assídua só poderia levar a uma escritora de sucesso.

“Onde vamos as pessoas pedem. As fonoaudiólogas também estão usando nos consultórios”, conta a mãe, cheia de orgulho. Hoje, nada de trabalho. Bia vai aproveitar para brincar. De manhã, vai assistir A Bela e a Fera, no shopping. À tarde, diversão garantida com os primos. Além de ler, a escritora mirim brinca de boneca, pega-pega, queimada.

Ela quer produzir um segundo livro, dessa vez, sobre uma cirurgia que fará para resolver uma questão genética que a atrapalha no andar. Antes de se despedir, um recado:

“Acredite em seus sonhos. Pegue as dificuldades, pegue uma caneta, um papel, anote e comece a escrever. Se demorar muito, não se preocupe, porque demora meses mesmo. O meu [livro] demorou meses. E ouça sua mãe. Quando ela diz, vai fazer tarefa, não deixa para a última hora. Se não, você vai se dar mal.”

Modelo antes de sair das fraldas

Julia Müller é de 22 de dezembro de 2017. Também manezinha, está quase com cinco anos e, desde um ano e meio, tem uma profissão: modelo. Começou por acaso e levou os três irmãos a tiracolo. Caio (11), Theo (10) e Nina (2) foram na onda e estão fazendo os primeiros cliques.

Mas quem domina os flashes mesmo é a Juju. Desde o primeiro trabalho, ao menos uma vez por mês ela é demandada pelas agências, marcas e profissionais do meio que estão se habituando e se surpreendendo com o profissionalismo da Juju.

Juju Müller e alguns dos seus trabalhos como modelo em revistas – Foto: Leo Munhoz/NDJuju Müller e alguns dos seus trabalhos como modelo em revistas – Foto: Leo Munhoz/ND

Ela está na pré-escola. Estuda numa escola pública no bairro Carianos, faz sessões de fonoaudiologia pra tentar melhorar a fala em função da síndrome de down e uma terapia comportamental em casa. Além disso, brinca com os três irmãos e nunca falta aula por motivo de doença, só por trabalho.

“A única coisa que percebemos um preconceito é, às vezes, com os trabalhos. Ou reservam um tempo maior para criança em inclusão, porque vai demorar um pouco mais e deixam ela por último, ou no começo, para não dar trabalho. Daí, ela chega e eles ficam boquiabertos, porque ela faz a prova de roupa, vai no lugar e faz as poses. É muito comum, nos trabalhos, ela fazer mais looks do que eles separam para ela”, conta a mãe Alessandra Müller.

A maior alegria da Ale é acordar às 5h e levar a filha para fazer fotos, mesmo que isso demande uma viagem: “Eu me preparei tanto para levar ela para o hospital. Toda vez que levo, falo: ‘estou levando ela para fazer foto’. Ela nunca se hospitalizou. Enquanto eu chorava muito após o diagnóstico, hoje, estou dando entrevista sobre a vida profissional da Julia”, ressalta.

“Sempre escutei, ‘ah, os irmãos vão ser muito bons para Julia, Fica tranquila’. Mas ninguém falou que ela seria muito boa para eles. E está. Inclusive abrindo caminhos profissionais”, completa.

Aos quatro anos, Julia é uma das poucas pessoas que pode dizer: comprei minha casa aos quatro, com meu próprio cachê. É uma casinha de boneca, só para ela, mas é uma conquista rara.

Um laçador nato

O manezinho Ravi Nunes Maciel é de 13 de novembro de 2016. No auge dos cinco anos, já ganhou dois troféus como laçador na vaca parada, prova de rodeios que insere a criançada. Ravi, que é cria dos CTG Os Praianos, foi campeão no Peitoral de Ouro, outro CTG de São José.

“Gostei de ganhar todos. Fiquei mais que louco”, diz sobre a conquista dos troféus. Segundo a mãe, Andresa, desde que se entende por gente, Ravi gosta de cavalo. “Nada de ursinho, carrinho, nunca! Sempre cavalo e boi. Nem andava e gostava de estar trepado em cavalo. Se deixar, laça o dia inteiro”, conta.

Ravi: R, de Roni, o pai, A, de Andresa, a mãe e Vi, de Vitória, a irmã de 22 anos do pequeno laçador – Foto: Leo Munhoz/NDRavi: R, de Roni, o pai, A, de Andresa, a mãe e Vi, de Vitória, a irmã de 22 anos do pequeno laçador – Foto: Leo Munhoz/ND

Desde sempre, o garoto está com o pai, Roni, e a mãe no CTG. “Gosto tanto, porque quero laçar o boi de verdade. Mas gosto mais de andar a cavalo”, revelou Ravi, trocando a frase por uma risada um tanto quanto feliz e um tanto quanto sapeca. Montar a cavalo também não é difícil para ele. Já sabe subir e descer do seu animal favorito, a égua Lobuna.

Ravi também é apaixonado por futebol. Mas entre bola e lombo do cavalo, prefere o animal. Ele nem hesita. Ansioso por qual presente vai ganhar no Dia das Crianças, espera também o início das provas campeiras no Jubileu de Ouro, festa de 50 anos do CTG Os Praianos, quando vai participar da vaquinha parada.

No embalo da gaita

A festa dos Praianos ainda não acabou, mas também vai ficar para sempre na memória do gaiteiro Gustavo Albino. Nascido em 3 de março de 2011, portanto com 11 anos, o também manezinho Gustavo fez uma participação no show d’Os Serranos durante a festa. Gustavo está começando, mas coleciona 23 troféus exercendo seu ofício.

“Meu pai começou a cantar Os Serranos quando eu estava na barriga da minha mãe e não sei porque, mas nasci com o dom de tocar gaita e veio o interesse quando os amigos do meu pai iam lá em casa”, conta o garoto, que começou a praticar na brincadeira, depois de ganhar uma gaita de brinquedo, da tia, aos dois anos.

Depois, ele ganhou uma gaita reduzida, adaptada ao seu tamanho, e a brincadeira foi ganhando outros ares. “Com cinco anos, comecei a fazer aula com o professor Flavio Alves. Ele é muito bom”, ressalta Gustavo. Na sua participação no Show dos Serranos ele tocou Gaiteiro Bom.

Gustavo já levou mais de 20 troféus para casa graças ao talento na gaita – Foto: Leo Munhoz/NDGustavo já levou mais de 20 troféus para casa graças ao talento na gaita – Foto: Leo Munhoz/ND

“Foi William Hengen que escreveu e foi uma experiência muito legal. Como já toquei várias vezes com eles, estava mais em casa, vamos dizer. É muito bom tocar com gente que sabe mesmo”, enfatiza o gaiteiro, que está no 6º ano e não desvirtuou o foco da escola. Questionado se prefere escola ou gaita, não hesita: “os dois!”

Brincando, aprendendo, mas também ensinando e esbanjando talento, eles ainda são crianças. Mas não se engane: os pequenos também olham para o futuro. Entregando simpatia e pureza, esperam da vida nada mais que risos, alegrias e amor.