Especialistas respondem: o que falta para Joinville ser a cidade dos sonhos?

09/03/2023 às 05h30

No dia em que Joinville completa 172 anos, especialistas em diversos segmentos respondem o que falta para a cidade ser ainda melhor

Raquel Schiavini Schwarz Joinville

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Em 2022, Joinville foi eleita a melhor cidade do Brasil, segundo o ranking Melhores Cidades do Brasil, da Editora Três e da agência Austin Rating. O índice leva em conta indicadores públicos nas áreas fiscal, econômica, social e digital em uma análise de acordo com o porte de cada município.

Mas sempre dá para melhorar, certo? Por isso, neste dia em que a maior cidade de Santa Catarina completa 172 anos, o Portal ND+ perguntou a especialistas em diversos segmentos o que falta para Joinville se tornar a cidade dos sonhos. Com a palavra, os peritos em suas áreas.

Joinville na área centralJoinville foi eleita a melhor cidade do Brasil em 2022 – Foto: Carlos Jr/ND

O que pode melhorar na saúde?

Para Tarcisio Crocomo, pediatra, infectologista e professor de Medicina na Univille, a saúde está relacionada com quase tudo. Ele começa falando do saneamento básico que impacta diretamente na saúde. “Nossos índices de cobertura para tratamento de esgoto são baixos. Avançamos nos últimos anos, mas ainda falta muito”, destaca.

Na assistência direta à saúde, sem dúvida, segundo Crocomo, é necessária uma oferta adequada de serviços à população, desde consultas, medicamentos, exames, cirurgias e reabilitação.

“Vale lembrar que o ideal é uma estrutura adequada na atenção básica, com equipes que possam oferecer o atendimento da estratégia de saúde da família adequada (equipe completa com sua capacidade ideal de atender um número adequado de pacientes). Porém, sabemos que a oferta é pequena também nessa área, necessitando ampliação desses profissionais qualificados nesse nível de atenção”, acrescenta.

Investimento na saúde básica reflete em outros atendimentos, diz especialista – Foto: Carlos Jr/NDInvestimento na saúde básica reflete em outros atendimentos, diz especialista – Foto: Carlos Jr/ND

O especialista faz questão de frisar que a atenção básica bem estruturada resolve a maioria dos problemas em saúde da população em geral, não sobrecarregando as emergências, por exemplo.

“As emergências/urgências com uma “retaguarda” boa da atenção básica poderiam funcionar nos moldes mais adequados desse atendimento. Nas especialidades, vale a mesma lógica: uma atenção básica bem estruturada vai tornar o fluxo das especialidades muito mais rápido e objetivo”, complementa o especialista, ponderando que há também falta de profissionais para suprir essa demanda.

Crocomo segue dizendo que os hospitais também são impactados pelos aspectos anteriores. É preciso, segundo ele, modernizar os hospitais, remunerar bem os profissionais em todos os níveis da atenção à saúde e dar boas condições de trabalho. “São fundamentais para melhores resultados.”

“Não posso deixar de ressaltar a importância do SUS, um patrimônio que cada dia mais deve ser preservado e receber investimentos adequados. De qualquer maneira, Joinville, mesmo com todas dificuldades, oferece serviços de ótima qualidade e sabidamente com recursos não suficientes. Aí seria necessário um aporte financeiro do Estado e Federação. E, finalizando, a importância de cada cidadão fazer sua parte, mantendo sua saúde em dia, praticando atividades físicas, mantendo sua vacinação em dia, alimentação saudável”, conclui o professor de Medicina.

Outros especialistas citam a importância de manter a excelência conquistada na área de tratamento de casos de AVC, exemplo da referência do Joinvasc, eleito o melhor programa de centro avançado de saúde, trazendo mesma gestão às outras áreas, principalmente na medicina preventiva.

O que pode melhorar na economia?

Como melhorar uma cidade que já é próspera e tem uma economia forte? José Rizzo, empresário, presidente da ABii (Associação Brasileira da Internet Industrial) e do Join.Valle, diretor executivo da Accenture e morador de Joinville há 30 anos, responde.

Segundo ele, nos últimos quatro ou cinco anos, o foco da ABii foi trabalhar a transformação digital das empresas, acelerando a adoção da Indústria 4.0. E o Join.Valle atuando forte para que Joinville revelasse toda sua vocação para inovação, tecnologia e empreendedorismo.

Agora, mirando os próximos anos, é possível avançar ainda mais e colocar o nome da cidade na mesa de grandes investidores e talentosos profissionais. O presidente da ABII resume o pensamento: “O que precisamos fazer para atrair jovens talentos para a cidade, um pesquisador? O que levaria uma grande empresa de tecnologia a se instalar aqui?”, questiona Rizzo.

Portanto, essa deve ser a lição de casa para tornar Joinville ainda mais atrativa e conhecida no Brasil e no mundo, uma cidade, sublinha Rizzo, que fica perto do mar e das montanhas.

Atrair talentos é desafio para a economia a inovação em Joinville – Foto: Carlos Jr/NDAtrair talentos é desafio para a economia a inovação em Joinville – Foto: Carlos Jr/ND

Para abril do ano que vem, a ABii planeja um grande evento de tecnologia para dar visibilidade e mostrar que o município tem capacidade e infraestrutura para receber investimentos em escala mundial. O tema será “Mobilidade Inteligente”, envolvendo carros autônomos, elétricos com muita robótica e inteligência artificial.

Imaginou a região Norte catarinense como um polo de desenvolvimento de veículos autônomos e elétricos? Essa é ambição da ABii, e o caminho está sendo aberto, até porque a região já abriga multinacionais automotivas e de motores elétricos.

O megaevento está sendo mapeado para ocorrer no Ágora Tech Park e até a presença de um carro autônomo está sendo cogitada. “Quanto mais próspera uma cidade, mais atrativa ela se torna. E essa visão acaba refletindo em outros eixos, como educação e cultura”, resume José Rizzo, que fez questão de dizer que as universidades têm papel fundamental na inovação e conhecimentos relacionados à tecnologia.

Outro elemento que deve ‘vingar’ nas relações de trabalho é o híbrido (home office e presencial), aposta Rizzo, sendo também uma forma de atrair talentos para a cidade. “É uma tendência predominante”, acredita.

O que pode melhorar na cultura e lazer?

Nilton Santo Tirotti, professor de Cinema da Unisociesc, analisa que vivemos por muito tempo com eixo do entretenimento voltado para Curitiba e Florianópolis. Essas cidades atraíam mais shows, por exemplo.

“Hoje já recebemos alguns espetáculos, mas são lutas isoladas de iniciativas privadas sem muito patrocínio municipal. Quero complementar que, neste sentido, podemos e devemos considerar eventos culturais, não apenas os tradicionais, mas, por exemplo, os das Artes Visuais, que fazem girar a economia, não apenas com exposições e festivais de arte, mas seus desdobramentos em novas procuras de cursos, como ao promover a produção local.”

“A área cultural promove a produção poética e humana, propicia as discussões de importantes assuntos de maneira cognitiva indicadas para o setor da educação, promove em paralelo o setor do entretenimento pelos eventos realizados, entrega atividades nos relacionamentos e dinâmicas com todos os públicos com resultados saudáveis, viver bem promovendo o bem-estar para a área da saúde.”

Para Mônica Elisa Heinzelmann, engenheira, pedagoga e envolvida com o Projeto Resgate, Joinville precisa de mais parques que integrem natureza e espaços para a prática de atividades físicas.

Joinville precisa de mais espaços de lazer, sugere engenheira e pedagoga – Foto: Carlos Jr/NDJoinville precisa de mais espaços de lazer, sugere engenheira e pedagoga – Foto: Carlos Jr/ND

“Um espaço ao ar livre para eventos culturais como shows musicais, apresentações de teatro, dança, mais museus, galerias de arte com atividades recreativas integradas a esses espaços e voltadas para a história, a cultura local, as artes. Praças mais confortáveis para todas as idades, com espaços para quem quiser ler, bater papo com amigos, para as crianças brincarem, com um café”, sugere.

Mônica lembra, ainda, da beleza natural do Morro do Amaral, sua ligação com a Baía Babitonga e a possibilidade de atividades náuticas.

O que pode melhorar no urbanismo?

“Para que Joinville seja melhor ou possa se aperfeiçoar, entendo que seja necessária a implantação de maciça vegetação para gerar áreas de sombreamento e, com isso, favorecer a caminhabilidade”, pontua Rogério Pupo, professor de Arquitetura e Urbanismo da Unisociesc.

Especialista destaca a necessidade de implantar vegetação para gerar áreas de sombreamento – Foto: Carlos Jr/NDEspecialista destaca a necessidade de implantar vegetação para gerar áreas de sombreamento – Foto: Carlos Jr/ND

Aliado a esse fator, ele defende a instalação de calçadas em toda a cidade, mas calçadas que sejam seguras e confortáveis que, junto com a arborização, formem um conjunto agradável de equipamentos urbanos.

“Uma cidade que não oferece conforto para caminhar deixa de criar o principal espaço de convivência entre os indivíduos. É preciso sociabilização, integração dos cidadãos em um espaço democraticamente acessível, promovendo qualidade de vida”, conclui o professor.

O professor Nilton Santo Tirotti complementa dizendo que seria interessante encontrar um mesmo discurso entre arquitetos e urbanistas para um plano que vise o bem-estar da população, uma melhor distribuição por meio das necessidades de cada região e, principalmente, criar políticas públicas para evitar um grande colapso habitacional.

“Afinal, uma cidade que cresce rápido, como estamos presenciando, deve ter um plano diretor com investimento de infraestruturas”, analisa  Tirotti.

O que pode melhorar na educação?

Flávio Sartori, diretor da UniSociesc, elogia bastante o ensino de Joinville e faz algumas análises. O educador começa falando das principais perspectivas e tendências da educação em 2023, principalmente no pós-pandemia. Entre elas, está o campo da transformação tecnológica digital.

“Tecnologias digitais e metodologias ativas são inevitáveis. Neste sentido, Joinville caminha ao encontro dessa tendência. Recentemente, a cidade investiu R$ 56,6 milhões no Programa Somos Digitais em equipamentos para rede municipal. Essa regra já representa um dos principais pilares. O programa reúne as atuais necessidade das crianças que nasceram nesse milênio e que vivem nesse universo como o da robótica”, exemplifica Sartori.

Para especialista, Joinville está no caminho certo na educação – Foto: Carlos Jr/NDPara especialista, Joinville está no caminho certo na educação – Foto: Carlos Jr/ND

Outro pilar é a formação de professores. Existe um programa de valorização por resultados na aprendizagem na rede municipal de ensino. É um projeto que busca valorizar os professores por meta alcançada. Isso tudo vem destacando Joinville no cenário nacional.

Sartori cita mais um eixo importantíssimo, que é trabalhar as competências socioemocionais. Hoje, pesquisas mostram que empresas demitem muito mais por comportamento do que por conhecimento técnico. Então, diagnosticar e agir positivamente para trabalhar essas competências é fundamental, ensina.

O diretor citou o exemplo de Sobral, no Ceará, que tem uma educação excelente e é um case de sucesso nacional, mesmo estando em um dos Estados mais pobres do país. Quatro são os pilares que lá ancoram a educação: escola com autonomia administrativa e financeira, concentração de alunos em unidades maiores, investimento e capacitação de professor e avaliação de aprendizagem.

Para finalizar, o educador faz questão de frisar que Joinville está conectada ao empreendedorismo e à inovação, tem emprego e indicadores socioeconômicos de excelência. Isso tudo ajuda nos índices educacionais.

O professor Nilton Santo Tirotti complementa frisando a importância de investimentos públicos e privados na capacitação dos docentes e gestores. Cita como exemplo o sistema S, realizado pelo Sesi/Senai, que traz vários programas em conjunto com a prefeitura.

O que pode melhorar no esporte?

“De modo geral, Joinville, ainda que não seja uma cidade plenamente esportiva e invista pesado na área, tem projetos interessantes”, avalia Matheus Simões Mello, doutor, professor e pesquisador em jornalismo esportivo.

Ele dividiu as necessidades do esporte em duas áreas. Sobre o amador, diz que “Joinville seria uma cidade dos sonhos se sempre tivesse em mente, independentemente da corrente política, que gasto com esporte é investimento e não dinheiro. Existem várias modalidades esportivas e o esporte traz vários benefícios à saúde. Uma cidade em que a população pratica esporte e desempenha um modo de vida saudável acaba gerando retorno para economia, entre outros setores, como o da saúde.”

Professor e jornalista defende o investimento no esporte amador – Foto: Carlos Jr/NDProfessor e jornalista defende o investimento no esporte amador – Foto: Carlos Jr/ND

No esporte profissional, Matheus Simões entende que é preciso profissionalizar o esporte, cada um fazendo o seu papel dentro de suas qualificações. Ou seja, empresário pode patrocinar e apoiar o time de várias maneiras, mas não deve comandar.

“O JEC, por exemplo, historicamente, tanto em suas fases boas quanto ruins, foi presidido por empresários. Na verdade, um time de futebol profissional precisa de um aporte financeiro dos empresários, mas esporte precisa ser tocado por pessoas que tenham know-how da área”, fala”

“Do ponto de vista do JEC, tem de ter gente capacitada especificamente no esporte na gestão do clube e os empresários por perto podendo contribuir com aportes financeiros e outros tipos de ajuda para que o time consiga voltar a ter um desempenho satisfatório nas competições e voltar para as competições nacionais”, finaliza.

Aos 172 anos, Joinville se destaca no cenário nacional pelos bons indicadores. Mas como sugerem os especialistas, pode se tornar ainda melhor em diversos segmentos, com investimento do poder público na esfera municipal, estadual e federal, além do apoio da comunidade.

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