Florianópolis perde Dona Zica, advogada que se formou aos 55 anos pelo futuro dos filhos

Frequentadora assídua de café em shopping central da cidade, ela morreu nesta quinta-feira (7), aos 96 anos, vítima de Covid-19

Foto de Felipe Bottamedi

Felipe Bottamedi Florianópolis

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Quando a noite caía, Dona Zica descia a Avenida Osmar Cunha, no Centro de Florianópolis, e pegava um ônibus até a UFSC (Universidade Federal de Santa). Era início dos anos 1980 e ela tinha 50 anos. Uma viuvez precoce e três filhos para criar eram a motivação da graduanda noturna de Direito.

Este período é um dos símbolos do espírito batalhador de Maria de Jesus Silveira de Souza Garofallis. É também uma das principais lembranças dos filhos Leonardo e Cynthia Garofallis. Dona Zica morreu aos 96 anos nesta quinta-feira (7), vítima da Covid-19.

Dona Zica morreu em Florianópolis nesta quinta-feiraDona Zica, como Maria era conhecida pelos amigos, foi vítima de Covid-19 – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

“Lutar pelo sustento e perseverança. A vida toda ela buscou ter recursos para os filhos se educarem”, conta Leonardo. “Ela nos deixava em casa para ir estudar e conquistar uma condição melhor de vida. Ela tem uma história de muita garra”, ressalta a irmã.

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Maria de Jesus perdeu o companheiro de vida, Vivaldi, aos 42 anos. Foi quando a dona de casa passou a trabalhar como costureira para garantir a renda da família. O ingresso na faculdade, para além da sobrevivência da família, foi também uma forma de dar um exemplo aos filhos.

“Ela queria estimular a filha [Eliana] a fazer faculdade. No fim acabou que a mãe passou e a filha rodou [no vestibular]”, lembra Leonardo.

Cerca de dez anos após a graduação da mãe, Eliana, a primogênita entre os três, foi vítima de um câncer aos 44 anos. A perda foi “um verdadeiro baque” para Dona Zica.

Maria de Jesus era frequentadora assídua de cafés – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/NDMaria de Jesus era frequentadora assídua de cafés – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

O ingresso no Judiciário

A graduação em Direito foi realizada entre os 50 e 55 anos e Dona Zica sempre foi a mais velha da turma, conta o filho. Dentre os colegas, ela estudou com o desembargador João Henrique Blasi, presidente do TJSC (Tribunal de Justiça de Santa Catarina).

Com o diploma em mãos, fez concurso público e virou servidora do Tribunal – então mais próxima dos 60 do que dos 50. Foi quando a costureira, mãe e agora diplomada em Direito passou a atuar como assessora de desembargador no gabinete da presidência.

“O Tribunal de Justiça de Santa Catarina, com extremo pesar, comunica o falecimento da servidora aposentada Maria de Jesus Silveira de Souza Garofallis”, lamentou a instituição, em nota.

Cafezinhos no shopping

Nos últimos anos de vida, a moradora da Beira-mar Norte poderia ser facilmente encontrada no shopping que leva o nome da avenida.

“Ela já era conhecida no cafezinho do primeiro andar. Três ou quatro vezes na semana pedia um táxi e ia até lá”, conta a filha. Dona Zica foi sepultada na manhã desta quinta-feira (7), no Cemitério Jardim da Paz.

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