Greve dos professores de SP: entenda a disputa entre sindicato e governo

Pauta vai de questões salariais às bandeiras de Tarcísio, como escolas cívico-militares; greve dos professores de SP está marcada para sexta-feira (9)

Foto de Adriano Assis

Adriano Assis São Paulo

Receba as principais notícias no WhatsApp
Greve dos professores de SP. Foto mostra palanque ao fundoGreve dos professores de SP tem nova assembleia marcada – Foto: Divulgação/Roberto Parizotti/Apeoesp

O governo de São Paulo e o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) estão em disputas, que incluiu paralisação dos profissionais e judicialização por parte do estado, enquanto negociam pontos como reajuste salarial. A próxima greve dos professores de SP está marcada para sexta-feira (9), com assembleia na capital paulista para definir os próximos passos da mobilização.

Um dos últimos capítulos da disputa ocorreu nesta segunda-feira (5), em audiência conciliatória virtual do Tribunal de Justiça (TJ-SP), que suspendeu por 20 dias o processo judicial movido pelo estado contra a greve dos professores de SP para ocorrerem novas rodadas de negociação.

Essa ação judicial, inclusive, alterou o cronograma do sindicato, que na assembleia do dia 23 de abril, aprovou o retorno das atividades, com atos regionalizados nesta segunda-feira e greve com assembleia na sexta-feira.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

Antes da liminar, uma das propostas, derrotada na assembleia, era de paralisação por tempo indeterminado. A liminar, conquistada pelo governo, colocava restrições na paralisação, como a obrigação de que, ao menos, 70% dos profissionais estariam em salas de aula.

“O governo optou pelo caminho do confronto [ao judicializar a questão]”, acusa Roberto Guido, secretário de Finanças do sindicato. A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP), por sua vez, afirma que “mantém diálogo permanente com a categoria.”

Greve dos professores de SP

Na assembleia de sexta-feira, que ocorre em dia de greve dos professores de SP, a categoria vai discutir as últimas propostas do governo do estado, como o reajuste de 5% dos salários e a criação de uma comissão técnica entre Apeoesp e Seduc para analisar mudanças no processo de atribuição de aulas. Os profissionais também definirão os próximos passos do movimento. Entenda melhor as bandeiras:

Reajuste salarial

O governo de São Paulo encaminhou em caráter de urgência à Assembleia Legislativa (Alesp) um projeto de lei que prevê reajuste salarial de 5% para o funcionalismo estadual, se estendendo a aposentados e pensionistas. De acordo com estado, a medida atinge 925 mil pessoas e impacta o orçamento de 2025 em R$ 2,4 bilhões.

Governador Tarcísio de Freitas (centro), ao lado do secretário de Educação Renato Feder (direita), encaminhou projeto de reajuste de 5% – Foto: Fernando Nascimento/Governo SPGovernador Tarcísio de Freitas (centro), ao lado do secretário de Educação Renato Feder (direita), encaminhou projeto de reajuste de 5% – Foto: Fernando Nascimento/Governo SP

A categoria considerou o índice insuficiente e pede aumento imediato de 6,27%, reajuste definido pelo governo federal para o piso nacional dos professores. O sindicato ainda pede 8,5%, de inflação acumulada desde o último reajuste, mais 41,3%, de equiparação do rendimento médio do magistério com profissionais de formação equivalente.

Recomposição do quadro de profissionais

O sindicato exige a contratação imediata de 44 mil profissionais que passaram em concurso público. A recomposição do quadro de efetivo, gerou uma ação civil pública por parte do Ministério Público.

Ao portal ND Mais, a Seduc defendeu que “após dez anos sem concursos no estado, a atual gestão realizou um certame para a contratação de professores do Ensino Fundamental e Médio, e aprovou 15 mil novos profissionais”, com os primeiro selecionados já em atuação.

“Todos os docentes da rede estadual que ingressaram na nova carreira contam com salário inicial de R$ 5,3 mil para uma jornada de 40 horas semanais, valor superior ao piso nacional da categoria”, alega a pasta, em nota à reportagem.

E esse é mais um ponto de discórdia. A nova carreira do magistério paulista foi aprovada em 2022, sancionada pelo governador João Doria (PSDB), e regulamentada pelo governo Tarcísio de Freitas. Quem ingressou a partir de julho de 2022 já está na nova carreira, enquanto os efetivos e estáveis têm até junho de 2026 para optar ou não pela adesão.

O governo defende que a nova carreira valoriza o profissional e tornar mais célere o crescimento, com interstícios de 2 anos para evolução por desempenho, além de melhora nos índices educacionais do estado.

São Paulo ocupa a terceira colocação (nota 6,2) do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) nos anos iniciais do ensino fundamental, empatado com Santa Catarina, e atrás de Paraná e Ceará. Nos anos finais, o estado é o quarto (nota 5,1), atrás de Goiás, Ceará, Paraná. Enquanto no ensino médio (nota 4,5), empata com Piaúí e Pernambuco, ficando atrás de Paraná, Goiás e Espirito Santo.

Já o sindicato, que lutou na época contra o projeto de lei, alega que a evolução por prova, tem carga de subjetividade, e a nova carreira desvaloriza o tempo de casa. Também afirma que o pagamento por subsídio, e não por vencimento, retira direitos. Um profissional da carreira antiga, com 20 anos de casa, tem direito a quatro quinquênios (20%) e mais a sexta parte.

Climatização das escolas

Outro item da pauta da greve dos professores de SP é a celeridade na climatização das unidades. “Hoje tem tecnologias que permitem a instalação com custos menores”, defende o secretário de Finanças do Apeoesp.

Governo de São Paulo prevê climatizar 60% das escolas da rede até o início de 2027 – Foto: Divulgação/Governo SPGoverno de São Paulo prevê climatizar 60% das escolas da rede até o início de 2027 – Foto: Divulgação/Governo SP

A Secretaria de Educação diz que “a atual gestão ampliou em quase 100 vezes o número de escolas climatizadas em todo o estado”, segundo nota. O investimento previsto é de R$ 350 milhões.

No final de março, o governo do estado anunciou ter atingido 769 escolas climatizadas, 15% do total da rede. A meta é chegar a 3 mil escolas (60% das unidades) até o início do ano letivo de 2027. Estão sendo priorizadas unidades nas regiões mais quentes, como o oeste paulista e o litoral.

Disputas políticas

O sindicato também tem travado batalha contra a gestão Tarcísio de Freitas em temas que opõem ideologicamente os dois lados. Entre as pautas da greve dos professores de SP estão o fim das escolas cívico-militares.

O programa tem sido ampliado com Tarcísio. Na última semana, foram anunciadas as 100 novas unidades que iniciam as atividades no segundo semestre.

A “privatização” das escolas é outro ponto de disputa. A Secretaria de Educação lançou projeto de parceria público-privada (PPP) para reforma, manutenção, conservação, gestão e operação de 143 unidades de ensino, com investimentos previstos de R$ 1,7 bilhão em 20 anos.

“A concessionária vencedora será responsável pela reforma, manutenção das edificações e serviços não pedagógicos, enquanto o Estado ficará focado na elaboração do projeto e prestação dos serviços pedagógicos”, defende o governo estadual.

O sindicato, filiado a Central Única dos Trabalhadores (CUT) é contra a medida, e defende que toda a gestão das unidades seja realizada pela Educação. “Dentro da escola todo mundo é educador”, defende Guido Roberto.

Informativo de 16 de abril do sindicato, convoca professores a lutra contra o que foi chamado de “proliferação dos pedágios [nas rodovias estaduais] em todo o estado”, e dá crédito a atuação da sua segunda presidente, a deputada estadual Professora Bebel (PT) no recuo do governo Tarcísio de instalar pedágios na rodovia SP-304, na região de Piracicaba.

Tópicos relacionados