O hotel de Blumenau, no Vale do Itajaí, acusado de transfobia após se recusar a hospedar a cantora MC Trans na última quinta-feira (13), divulgou uma nota contando a sua versão da história. No dia do fato, a cantora gravou uma série de vídeos afirmando que não teria sido aceita no hotel porque ela era trans e o dono do hotel era um senhor de idade conservador.
Hotel se manifestou sobre acusações de transfobia contra cantora MC Trans – Foto: Reprodução/Internet/NDA nota foi divulgada neste sábado (15) pelo Instagram do estabelecimento e destaca que há grande divergência entre “a narrativa da ofendida e o que aparenta ser a verdade”.
De acordo com o hotel, a recusa na hospedagem aconteceu porque a reserva teria sido feita para um casal, porém, quando chegaram ao local, três pessoas pretendiam ficar no quarto.
Seguir“A verdade é que a hotelaria recebeu uma ligação 30 minutos antes da presença dos hóspedes na recepção, oportunidade em que foi questionado sobre a disponibilidade de um quarto que comportasse um casal. […] Assim que adentrou ao recinto, o assessor informou que as três pessoas da reserva pelo telefone chegaram, e perguntou o valor para três pernoites. O funcionário – que até então só tinha visto o assessor, sendo impossível a ele àquela altura praticar qualquer ato racista à ofendida – informou que a casa não comportaria aquela nova condição informada – por questões de responsabilidade pelo conforto, segurança e estrutura (café da manhã, por exemplo)”, relata a nota.
Segundo a explicação do hotel, a recusa à reserva “se deu sem o conhecimento prévio das características de gênero individuais das pessoas recém-chegadas, porque somente o assessor teria se apresentado até aquele momento”. A nota ainda diz que as imagens das câmeras internas do estabelecimento podem comprovar a informação.
Leia a nota na íntegra:
“O Hotel Salto do Norte vem, através deste expediente, esclarecer, para todos os fins de direito e a quem possa interessar, que lamenta profundamente os episódios noticiados em plataformas sociais sobre fatos supostamente ocorridos em seu estabelecimento comercial e que tiveram repercussão a nível nacional. O Hotel Salto do Norte esclarece ainda, que não coaduna nem tolera qualquer tipo de discriminação, e repudia toda e qualquer violação aos princípios fundamentais constitucionais, principalmente o da isonomia [tratamento igualitário).
A administração informa ainda, que, ao menos até o fechamento desta nota, sequer pode contar com 24 horas para apurar com profundidade os fatos noticiados, e que segue [e seguirá] à disposição das autoridades e da justiça [se for o caso), para contribuir com o esclarecimento pormenorizado de todo o episódio, inclusive disponibilizando acesso integral e irrestrito às imagens do circuito interno de segurança e de outros elementos de prova – como o relatório do software de apoio que registra as reservas, os check-in e check-out.
Registra, entretanto, que a apuração preliminar dos fatos aponta para grande divergência entre a narrativa da ofendida e o que aparenta ser a verdade.
Quanto à “reserva” supostamente realizada pela ofendida, a verdade é que a hotelaria recebeu uma ligação 30 minutos antes da presença dos hóspedes na recepção, oportunidade em que foi questionado sobre a disponibilidade de um quarto que comportasse um casal. Em resposta foi informado que haveria disponibilidade de um quarto, com acomodação para duas pessoas, com check-out obrigatório às 12:00 horas do dia seguinte – lotação decorrente da Oktoberfest. Após a ligação, estacionou um carro no pátio externo, e então somente o assessor da ofendida desembarcou do automóvel e se dirigiu à porta do hotel para fazer o “check-in”.
Assim que adentrou ao recinto, o assessor informou que as três pessoas da reserva pelo telefone chegaram, e perguntou o valor para três pernoites. O funcionário – que até então só tinha visto o assessor, sendo impossível a ele àquela altura praticar qualquer ato racista à ofendida – informou que a casa não comportaria aquela nova condição informada – por questões de responsabilidade pelo conforto, segurança e estrutura (café da manhã, por exemplo).
A negativa se deu sem o conhecimento prévio das características de gênero individuais das pessoas recém-chegadas, porque somente o assessor teria se apresentado até aquele momento. Há imagens de câmeras do circuito interno de segurança neste sentido
Com a negativa, o assessor se dirigiu para fora do hotel e informou às demais pessoas que permaneciam no carro que a hotelaria não teria como abrigá-las por três noites. Neste momento a ofendida desembarcou do automóvel e entrou no hotel, irresignada, buscando “esclarecimentos” pela negativa do acolhimento do hotel. Sem gravar, agiu de forma ríspida com o atendente, e o informou repetidas vezes de que ela se trata de pessoa “famosa”, trans, sugerindo a ele fosse revisto o posicionamento sobre a lotação. A ofendida parecia ciente de que não havia leitos disponíveis na cidade.
O atendente relata a ela que não teria como abrigá-los naquela formatação proposta. A ofendida insiste em suposto direito à privilégio decorrente da fama. Foi então que o atendente, para a infelicidade de todos, para justificar o respeito da casa pela inviolabilidade das reservas desde o ano de 1996, utilizou pela primeira vez a expressão “conservadores”. O termo “conservadores”, porém, teve um efeito inesperado. O atendente, senhor com mais de 70 anos e que não sabia da politização da expressão, viu a ofendida solicitar a ajuda dos companheiros, a sacarem os celulares e, partindo dela, iniciou a gravação narrando então quer dizer que o senhor não quer me atender porque eu sou trans? É isso? e assim seguiu, sucessivamente, apesar de nada a esse respeito ter sido mencionado até aquele momento. A menção seguinte à palavra “conservador (esta que aparece na gravação], veio através de nova tentativa desesperada do atendente, em estado de extrema ansiedade com toda a confusão, em explicar que desde 1996 a casa funciona sem “privilegiar alguém.
Sendo assim, o hotel lamenta que o contexto inicial dos fatos tenha sido ignorado pela ofendida nas narrativas dela. Note-se, que, no primeiro vídeo gravado e divulgado a questão do gênero – como impedimento ao abrigo pelo hotel – parte da ofendida, atribuindo aquela “justificativa” ao atendente como se tivesse partido dele. A questão do gênero foi presumida pela ofendida que buscava a todo custo a confirmação do atendente. Aliás, há indícios graves de que os vídeos divulgados foram selecionados em pontos específicos, cortados e divulgados fora de ordem para desvirtuar o foco da “lotação máxima excedida e do “excesso de hóspedes por quarto” para “transfobia” – o que, à princípio, não ocorreu.
Quanto à lotação da casa, além das gravações de vídeo do circuito interno de segurança, a hotelaria coloca à disposição das autoridades o relatório do software de apoio que registra as “reservas e check-in /out” dos hóspedes. O relatório do software aponta que, apesar de 23 quartos existentes no hotel, a casa operava com 27 reservas antecipadas. O hotel também coloca à disposição das autoridades os dados pessoais de cada um dos hóspedes que reservaram e fizeram check-in / check-out no período. Por fim, referente ao episódio narrado pelo atendente, sobre supostas desavenças passadas com outras pessoas trans, esclarece o hotel, para toda a população brasileira, que a localização de sua sede comercial fica estabelecida as extremidades da cidade, perto de rodovia federal (BR-470), em notório ponto de prostituição e tráfico de drogas. Esse cenário leva profissionais dos arredores a buscar as dependências do hotel para usá-las como motel. O hotel, que não tem estrutura para servir como motel, vê-se forçado a ser inflexível em relação ao limite de hóspedes que cada quarto comporta.
Registra-se que o hotel foi coagido por suposto advogado, do Rio de Janeiro (DDD 021), ordenando que a hotelaria “desse um jeito de acolher a famosa”. Registra-se que o hotel ofereceu abrigo a todos, ainda que de forma improvisada (ao menos para um dos hóspedes). para evitar que eles ficassem na rua àquela madrugada (o que foi recusado).
O hotel sempre acolheu pessoas trans, e nunca houve em sua história quaisquer incidentes de discriminação. Registra-se, que tanto o atendente quanto o administrador possuem idade acima de 70 anos, sendo que o administrador possui quase 90 anos de idade, e nenhum deles possuem antecedentes criminais ou respondem a processos judiciais.
Também não possuem viés partidário, e estão dispensados da obrigação de votar. O hotel lamenta profundamente o episódio, e se compromete a seguir apurando os fatos em busca da verdade. O hotel também se coloca à disposição de toda e qualquer autoridade para esclarecer ou contribuir com informações complementares. Independente de qualquer desfecho que se dê ao caso, o Hotel Salto do Norte desde já pede desculpas aos hóspedes por todo e qualquer inconveniente decorrente do episódio, e ratifica o seu compromisso com o tratamento igualitário, sem qualquer distinção, independente de cor, origem, religião ou identidade de gênero etc.
Cordialmente, Administração”.
O caso
Um caso de transfobia foi denunciado em Blumenau nesta sexta-feira (14). A MC Trans, cantora com mais de 500 mil seguidores na internet, expôs a situação que passou ao tentar se hospedar em um hotel da cidade. O vídeo, com pouco mais de 1 minuto gerou comoção e viralizou nas redes.
Nas imagens um homem aparece falando que a artista não pode se hospedar no hotel e que a decisão parte do dono do estabelecimento. A influenciadora chega a confrontar o homem, que se mostra irredutível.
“Passei a maior transfobia da minha vida. Estou em Blumenau e precisei de um hotel. O @jucorreaoficial ligou reservou, chegando lá o Leandro entrou estava tudo certo, quando eu cheguei ele disse que não poderia me hospedar”, escreveu.
Pelas redes sociais, ela disse que veio à cidade para continuar seus tratamentos na clínica Transgender Center Brazil. A cantora registrou um boletim de ocorrência e acionou seu advogado.
Na sexta-feira (14), o Portal ND+ entrou em contato com o hotel por telefone, que preferiu não se manifestar na ocasião.