Ilha pelo olhar feminino: conheça a primeira mulher a fazer cinema em SC

Edla von Wangenheim (1905-1998) estava à frente de seu tempo e entre as décadas de 1920 e 1940 registrou encontros familiares, passeios, eventos oficiais e cenários da Ilha de SC

Foto de Paulo Clóvis Schmitz

Paulo Clóvis Schmitz Florianópolis

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Viveu e marcou época em Florianópolis aquela que, acredita-se, foi a primeira mulher a fazer cinema em Santa Catarina. Sem o propósito de ser cineasta, como foram José Julianelli e Alfredo Baumgarten no Vale do Itajaí, Edla von Wangenheim (1905-1998) estava à frente de seu tempo e entre as décadas de 1920 e 1940 registrou encontros familiares, passeios, eventos oficiais e cenários da Ilha de Santa Catarina e do continente que ficaram mais de 60 anos trancados numa caixa na casa da família.

Dia na praia – Foto: Divulgação/ acervo família von WangenheimDia na praia – Foto: Divulgação/ acervo família von Wangenheim

Recuperado, esse material já foi tema de pesquisas, rendeu documentários e está parcialmente disponível em via eletrônica para consulta dos interessados.

Quer pelo ineditismo de seu trabalho, quer pela beleza exótica das paisagens, esse acervo – em filmes e fotografias – é um precioso registro de como era a Florianópolis de quase um século atrás.

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Veem-se ali cenas de pesca, canoas singrando as baías, rios e cachoeiras, praias e costões, almoços e festas reservadas, pessoas trabalhando, uma visita do presidente Getúlio Vargas à região e o desmantelamento de uma baleia morta numa armação do Sul da Ilha.

Era um tempo em que ir do centro da cidade até Canasvieiras demandava horas de sacrifício e solavancos, só a pé pelas dunas se chegava à praia da Joaquina e o banho de mar era apenas tolerado à noite, às escondidas.

Barão Dietrich von Wangenheim no Morro das Pedras em 1930 – Foto: Divulgação/acervo família von WangenheimBarão Dietrich von Wangenheim no Morro das Pedras em 1930 – Foto: Divulgação/acervo família von Wangenheim

Foi Edla, aliás, uma das pessoas que ajudaram a romper com esse distanciamento com o mar. No documentário “Volta à Ilha em 16mm”,  feito por Luiz Tasso Neto com apoio do curso de Jornalismo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), no ano de 2002, ela é mostrada como uma mulher ousada e inteligente que aprendeu a fotografar na Alemanha, onde fora estudar, e que colocou sua sensibilidade a serviço do registro de aspectos de Florianópolis como ninguém havia feito até então.

Em outro documentário, “Bocaiúva 42” (ambos são exibidos regularmente pela TV UFSC), ela é citada pela empresária Annita Hoepcke da Silva (falecida este ano) como alguém que falava com desenvoltura de fotografia, viagens, culinária e literatura.

Quem vem divulgando o acervo de imagens deixadas por Edla é seu neto, o professor universitário Aldo von Wangenheim. Nas redes sociais, ele compartilha fotos antigas e os documentários do acervo da TV UFSC. Nascida como Edla Scheele, sua avó casou com o barão Dietrich von Wangenheim, um dos diretores da extinta Cia. Hoepcke.

A residência onde moraram, na rua Bocaiúva, ficou conhecida como a Casa do Barão e hoje batiza um edifício na esquina dessa via com a avenida Othon Gama d’Eça.

Dietrich, Edla e o filho Udo – Foto: Divulgação/acervo família von WangenheimDietrich, Edla e o filho Udo – Foto: Divulgação/acervo família von Wangenheim

A baronesa documentou com requintes de artista acontecimentos e lugares de Florianópolis que encantam pelo bucolismo e registrou o hábito dos descendentes de alemães de fazer piqueniques nos fins de semana em praias e pontos isolados da Ilha.

Na Europa em plena guerra mundial

Fotógrafos e cineastas que deram depoimentos nos dois documentários citados são unânimes em destacar a elevada qualidade técnica do material deixado por Edla von Wangenheim.

Ela tinha boas noções de enquadramento e trabalhava os planos e profundidades como um profissional experimentado. Aprendeu a arte de fotografar na Alemanha, durante um curso oferecido em plena primeira guerra mundial (1914-1918).

Foto de praia – Foto: Divulgação/acervo família von WangenheimFoto de praia – Foto: Divulgação/acervo família von Wangenheim

A catarinense estava na Europa para estudar, e com a eclosão da guerra não conseguiu voltar ao Brasil. No retorno, aos 17 anos, trouxe equipamentos modernos para a época e um domínio da câmera que até hoje impressiona quem vê o material que deixou.

Assistir aos documentários permite ver, por exemplo, aspectos da arquitetura das residências dos alemães que se fixaram em Florianópolis já a partir do século 19.

Eles tinham poder aquisitivo superior ao da média da população local, possuíam casas em terrenos amplos e ajardinados e formavam uma comunidade forte e coesa nas regiões onde estão hoje a rua Bocaiúva e a avenida Trompowski.

No acervo de Edla von Wangenheim, chamam especial atenção cenas de crianças brincando (em especial seus filhos), passeios por lugares de estradas precárias e carros atolados na lama.

Udo Wangenheim, filho de Edla e pai do professor Aldo, conta nos documentários que era comum usar juntas de bois para desatolar os veículos e carregar uma parafernália para trocar pneus no meio do caminho.

No interior do carro havia cheiro forte de gasolina, o que forçava paradas frequentes porque as crianças sentiam mal-estar. “Ainda assim, era tudo muito divertido”, afirmou.

Cenas familiares e crianças se divertindo

O professor universitário Aldo von Wangenheim, 56 anos, foi quem encontrou, no final dos anos 90, uma caixa de papel com cerca de 500 fotografias e rolos de filmes em 16 milímetros com imagens de Florianópolis na primeira metade do século 20.

Eram rolos com três a quatro minutos de gravação que, emendados e recuperados por alunos do professor Fernando Crocomo, do curso de Jornalismo da UFSC, resultaram em filmes com duas horas e meia de duração.

Casamento de Dietrich e Edla – Foto: Divulgação/Créditos: acervo família von WangenheimCasamento de Dietrich e Edla – Foto: Divulgação/Créditos: acervo família von Wangenheim

Muita coisa já tinha se perdido e boa parte foi digitalizada a partir de negativos de vidro (galatino-bromato de prata). A fotógrafa não deixou legendas, e como já se passaram mais de sete décadas há locais de difícil identificação, seja na Ilha, seja em outros municípios do Estado que ela e o marido – afastado das funções na Cia. Hoepcke por pressões derivadas da segunda guerra – visitaram, para conhecer e fazer registros que perduram até hoje.

A família Scheele foi uma das muitas que vieram da Alemanha na segunda metade do século 19 para fazer fortuna no Brasil. Instalada inicialmente em Itajaí, já na Ilha a segunda geração fez questão de mandar Edla, a filha caçula, para fazer o ginásio na região de Mainz, onde aprendeu a fotografar.

Boa parte das imagens que Edla deixou mostram a casa da rua Bocaiúva, que sempre chamou a atenção pela arquitetura singular, fachada com aberturas em arcos góticos, colunas, lambrequins trabalhados e gradis com toques de art nouveau.

Os jardins tinham muito gramado, palmeiras e outras árvores frondosas. Nos documentários exibidos pela TV UFSC é possível ver os dois filhos do barão e da baronesa brincando, correndo ou participando de refeições ao ar livre.

Aldo morava com os pais em Blumenau e uma vez por mês a família vinha visitar o barão e a baronesa von Wangenheim na Capital. Além da distância e das curvas do trajeto (que passava por Camboriú, Canelinha, Tijucas e o interior da atual Grande Florianópolis), ele lembra da casa da praia de Canasvieiras (a primeira do balneário, erguida em 1931 por Anna Hoepcke) que era reservada para eles em parte do verão.

“Recordo dos lampiões, de uma geladeira a querosene e de minha avó trazendo um sorvete muito bom, cujo gosto numa mais esqueci”, diz o professor.

Um clã com oito séculos de história

Tão interessante quanto a trajetória de Edla Scheele é a história da família à qual se uniu em janeiro de 1931. Os Wangenheim pertencem a uma linhagem aristocrática cuja criação oficial, até hoje documentada em cartório na Alemanha, data do ano de 1133. Atualmente, há milhares de famílias que pertencem ao clã nobre que se espalhou por vários países.

“Nossa origem é anterior ao início da era feudal”, conta o professor Aldo, dizendo que há um cronista responsável por toda a genealogia escrita do clã, que abarca 40 gerações.

Barão Dietrich von Wangenheim no Morro das Pedras em 1930 – Foto: Divulgação/acervo família von WangenheimBarão Dietrich von Wangenheim no Morro das Pedras em 1930 – Foto: Divulgação/acervo família von Wangenheim

Oito séculos atrás, o barão era o administrador de uma pequena cidade com castelo e propriedades rurais que ele tinha a obrigação de gerir. Parte de seus filhos era treinada e oferecida ao duque como oficiais das forças armadas para a defesa da respectiva região. “No século oito, nosso clã chegou a ter oito castelos”, diz Aldo.

Uma das figuras conhecidas da família é um tio distante de Aldo que conquistou uma medalha de ouro na Olimpíada de 1936 numa prova de hipismo em que caiu e mesmo assim disputou até o fim, com a clavícula quebrada. Um pouco antes, o ator Gustav von Wangenheim participou dos filmes clássicos como “Nosferatu” (1922), de Friedrich Murnau, e “A mulher na lua” (1929), de Friz Lang.

O barão Dietrich von Wangenheim nasceu em Berlim em 1901 e veio par ao Brasil em 1920. Trabalhou na Cia. Hoepcke, foi empresário e cônsul da Holanda e Alemanha em Santa Catarina e exerceu um grande número de funções públicas e privadas.

Entre elas aparecem três gestões consecutivas como presidente da Acif (Associação Comercial e Industrial de Florianópolis), de 1963 a 1968. Morreu em 19 de março de 1974.

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