Imparável Aretha: a história da mulher negra e de periferia que subiu o Everest

Mulher preta e de periferia, Aretha Duarte Freitas vendeu sucata, fez bazares e empreendeu, até conseguir patrocínio para realizar o sonho

Amanda Santos Florianópolis

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Aretha Duarte Freitas, 38 anos, preta e de periferia acredita que o fato de seus olhos brilharem pelo sonho de escalar o Monte Everest foi o que fez a mãe, dona Euleide Antonio Duarte de Freitas, de 68 anos, apoiá-la desde o início. Não houve resistência.

Na ocasião, a jovem contou que iria buscar o recurso altíssimo catando sucata, ofício a que recorria sempre que precisava complementar a renda. O sonho era literalmente alto. O custo da aventura para subir os 8.848 metros é de 70 mil dólares. E a situação econômica da família Freitas, pernambucana do gueto, totalmente fora de contexto.

Aretha Duarte Freitas, 38 anos, mulher preta e de favela que sonhava alto – Foto: Endriu Lima/NDAretha Duarte Freitas, 38 anos, mulher preta e de favela que sonhava alto – Foto: Endriu Lima/ND

Mas não é só isso. O Monte Everest, a montanha mais alta do mundo, localizado na Cordilheira do Himalaia, entre o Tibete e o Nepal, é para poucos em todos os sentidos. Por isso mesmo é considerado uma atividade elitista.

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No entanto, impossível e para poucos, não são palavras que existiam no vocabulário de Aretha. Ela é a primeira da família a passar no vestibular e a concluir o ensino superior. Escolheu o curso de Educação Física porque sempre gostou de esportes e sempre teve o incentivo dos irmãos superprotetores, já que é a caçula.

Quando queria jogar futebol e recebia críticas, por exemplo, Stênio e Ailton eram enfáticos: – Ela pode fazer o que ela quiser.

Talvez por isso ela tenha alcançado topos que nenhuma mulher negra periférica tenha alcançado ainda. E os apoios vieram ao longo de toda a história até aqui.

Dizem que os anjos falam pela boca dos outros. A então estudante, pelo jeito, sempre teve os olhos brilhantes atentos a isso. Ainda na faculdade, ela descobriu o montanhismo e aí iniciou um projeto de vida.

Apenas três anos depois, lá estava Aretha trabalhando em uma empresa de montanhismo onde exerceu as funções de vendedora, assistente guia e guia de Alta Montanha, cargo que exerce até hoje.

Em busca de um ideal

Para conseguir realizar o sonho, a jovem precisava de um dia com mais de 24 horas. Mas essa não é a realidade, certo? O dia começava às 6h da manhã, com a rotina de arrecadação de verba.

“Acordo, tomo café e saio de casa para recolher as doações de lixo, sucata, já separados pra mim. Estoco em casa o material e, entre 8h e 9h, vou para o escritório trabalhar. Ao sair do escritório, volto para a rua e cumpro outra rodada de retirada de lixo”, contou, em algumas entrevistas.

Ainda assim, não foi o suficiente. Vendeu camisetas, lançou mão de bazares de móveis, roupas usadas e eletrodomésticos e empreendeu, montando na comunidade uma biblioteca comunitária. Feita a sua parte com afinco, ela teve apoio coletivo e, então, um patrocínio.

A motivação para concretizar algo que parecia inalcançável para muitos veio como impulso para algo além do Everest. Uma transformação social e a mensagem de que a educação, o esporte, o apoio e os coletivos podem mudar gerações e oportunizar a juventude “da quebrada” a ter escolhas.

Aretha com o livro que conta sua história de perseverança – Foto: Endriu Lima/NDAretha com o livro que conta sua história de perseverança – Foto: Endriu Lima/ND

Os desafios

Até a chegada do livro “Da Sucata ao Everest – a saga de Aretha Duarte” – por Débora Rubin e Rodrigo Grilo – lançado recentemente, a mulher preta de favela que quando criança jamais imaginou chegar tão longe e tão alto, teve percurso de extrema resiliência.

Preparação física, emocional, técnica. Mente sã, corpo são. Coragem e determinação. No meio do caminho, queima de córnea, edema pulmonar. Ao longo do percurso, adaptação para a higiene básica e necessidades fisiológicas, além das dificuldades óbvias de todo o trajeto.

Dia após dia. Tudo para ter 15 minutos que mudaram a sua vida e de milhões de pessoas. Aretha nunca esteve sozinha. Ela era a representação da conquista possível, do acesso para todos, da inclusão e equidade, do esporte dentro dos bairros carentes. Das mulheres negras. Do ativismo. De centenas de crianças que querem ver nas pequenas oportunidades e no esporte, luz para seguir em frente. Das meninas que foram julgadas pelo volume dos seus crespos e que se libertaram ao verem a força do cabelo de Aretha.

A quebra de paradigmas, de rótulos e estatísticas que estão impregnadas dentro das comunidades por muitos anos. Ali, com ela, também estavam mães que desde o tempo de escravidão já serviam seus senhores para garantir boa educação aos filhos. Não muito diferente, estão mães que se dedicam de forma árdua para darem o melhor para os seus.

Olhos visionários, dedicação extrema e um propósito. Mas como ser a mulher que ama, que sente saudade? Saudade da própria cama, do namorado, da vida. Organização e foco.

Aliás, fiquei curiosa para conhecer o homem que chamou a atenção da mulher gigante e inspiradora, aquecendo o coração cansado e escalando a agenda corrida e a distância. A edição de hoje foi desafiadora. Como falar dessa guerreira que acredita que empecilhos são apenas uma pedra? Pedra que só existe para ela querer ver o que tem atrás. Intensa, perseverante e imparável.

Consigo ver exatamente a sensação da mãe, dos irmãos, das pessoas que motivaram e das vidas que foram transformadas depois dessa aventura que virou marco e que virou exemplo.

Nós podemos alcançar o nosso Everest e nos sentirmos invencíveis. Basta descobrir pelo que os nossos olhos brilham. Experimente tentar. Vale a pena ler o livro!