Organizar a casa e as roupas, levar as crianças ao médico, decidir o que jantar, fazer as compras do mês e, ainda, economizar, fazer o roteiro da viagem de férias. Tarefas ligadas ao ambiente doméstico que demandam gerenciamento e energia recaem, majoritariamente, sobre as mulheres. Ao peso imposto pelo trabalho invisível e não remunerado se dá o nome de carga mental.
Carga mental é trabalho invisível direcionado às mulheres – Foto: Reprodução/Pixabay/NDAs diferenças entre homens e mulheres é traduzida em números: mulheres dedicam quase o dobro do tempo aos cuidados ou afazeres domésticos em relação aos homens. São 21,4 horas semanais contra 11 horas, segundo a pesquisa “Estatísticas de Gênero: Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil”, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgada no ano passado.
Ao longo do tempo os homens passaram a dividir as atividades domésticas com as companheiras, mas ainda não é o suficiente e as mulheres ainda seguem cansadas, sobretudo se somarem a carga mental diária à profissional.
SeguirA programadora e head de comunidade, Isabela Castilho, de 31 anos, diz que precisa delegar ao marido as pequenas ações relacionadas ao lazer em família. “Se eu não puxar o tópico, pedir para pesquisar roteiro, se eu não pedir ajuda, nada sai. Tem que ter sempre a dependência de alguém cobrando”, ressalta.
Carga mental afeta a saúde das mulheres
Um estudo liderado pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade da USP, publicado em 2021 e realizado em 26 Estados e o Distrito Federal, demonstra que a saúde das mulheres tem sido muito afetada, sobretudo após a pandemia e a sobrecarga de trabalho.
Entre os três mil entrevistados, 45,5% das mulheres relataram ter sintomas de depressão, 39,4% de ansiedade e 37,3% de estresse.
A contínua necessidade de pensar nos detalhes ligados à casa, aos filhos e à relação e ter a certeza de que tudo está sob controle acaba sobrecarregando as mulheres, aponta a professora do departamento de História da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Glaucia Fraccaro.
“O impacto na vida das mulheres é o de ter que executar muito trabalho sem receber o devido reconhecimento. E reconhecimento não é apenas um buquê de flores ou um cartão de agradecimento”, reflete a professora, que também é autora do livro “Os Direitos das Mulheres – Feminismo e Trabalho no Brasil”.
O reconhecimento, segundo ela, é que o trabalho invisível seja recompensado de alguma forma e que “a sociedade incorpore a necessária e fundamental reprodução da vida no seu funcionamento, ou seja, nas jornadas de trabalho, no funcionamento da cidade e do Estado”.
Falta de iniciativa dos homens
Diante desse cenário, o que os homens devem fazer para colaborar com a diminuição da carga mental das mulheres? A falta de iniciativa do companheiro era algo que sempre incomodou a professora de Sociologia, Ana Cláudia Taú, de 47 anos, que foi casada por 19 anos.
“Uma das coisas que eu mais detestava, mesmo quando o relacionamento estava bem, é que ele não fazia nada dentro de casa”, lembra. O marido contribuía apenas com “ir ao mercado de vez em quando, mas sempre perguntando o que comprar”.
Enquanto isso, ela cuidava da casa “como um todo”. A ele restavam “as coisas que seriam socialmente designadas aos homens, como cortar a grama e arrumar o chuveiro. Não cuidava das roupas, não fazia uma comida”. Esse fator pesou na decisão da separação.
Para o pesquisador da UFSC, Ale Mujica Rodriguez, que estuda as dinâmicas dos relacionamentos heterossexuais, existe uma hierarquia que se estende para os papéis de gênero.
Sobrecarga emocional afeta a saúda das mulheres, diz estudo da USP – Foto: Freepik/Divulgação/NDAssim, é como se existisse um “roteiro” de como essas pessoas deveriam interagir, “praticamente sem questionamentos”, explica. Essa definição pré-estabelecida ajuda a entender a falta de iniciativa dos homens diante das tarefas domésticas.
O reflexo dos papéis de gênero está também no tempo de licença maternidade tão discrepante. Enquanto as mulheres passam de quatro a seis meses em casa, os homens são autorizados a tirar no máximo seis dias.
Sobre relacionamentos, Ana Cláudia diz que se pudesse dar um conselho a uma mulher de 20 anos, diria para ela “não correr atrás de beleza, do cara gente fina”, mas encontrar um companheiro que seja mais sensível e “próximo do universo feminino”.
“Trabalho doméstico não é amor”
O trabalho doméstico historicamente é associado ao cuidado e ao amor na construção social da mulher. Mas é preciso que seja reconhecido como trabalho, reforça a professora Glaucia Fraccaro.
“Os homens não têm iniciativa, no geral, porque chamamos de amor o trabalho gratuito de reprodução da vida”, afirma.
O que vem antes da execução das atividades como limpeza, preparação dos alimentos e cuidados com crianças e idosos, passa por um grande planejamento.
Assim, as compras, por exemplo, requerem também “a economia nos gastos, a buscas por descontos e promoções”, o que forma uma “grande massa de trabalho que fica invisível aos olhos da sociedade”.
“Esse trabalho não se vê e, portanto, não se valoriza. Resolvemos chamar esse tanto de trabalho de amor. E amor não se costuma pagar com valor, pelo contrário”, destaca.
Dessa forma, ela avalia que tanto o trabalho visível quanto o invisível, — a carga mental —, “é passível de ser medido em horas, de ser incorporado na vida de mulheres e homens, na jornada de trabalho e na produção de políticas públicas”.
Para isso, todas as mulheres, de todas as classes sociais, precisam contar com mais equipamentos públicos, pondera Glaucia.
“Mais creches, mais escolas, mais serviços de saúde (não apenas emergência, mas atenção básica e saúde integral). O Estado também precisa reconhecer que esses equipamentos não são gastos públicos a serem economizados, pelo contrário, são investimentos que resultarão em autonomia de todas as mulheres”, completa.