‘Já pensei em desistir’: mulheres falam sobre a realidade e desafios da monoparentalidade em SC

Monoparentalidade feminina atinge 12 milhões de mulheres no Brasil, diz o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)

Foto de Ada Bahl

Ada Bahl Florianópolis

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A maternidade solo no Brasil representa uma série de desafios. Seja por motivo de divórcio, viuvez, adoção, escolha ou abandono, as mães solo são as figuras femininas, sendo as principais ou únicas, responsáveis por seus filhos. Elas se desdobram para conciliar trabalho, educação, responsabilidades, finanças e cuidados com as crianças até a fase adulta.

Maternidade solo atinge mais de 12 milhões de mulheres no Brasil – Foto: Scóz Fotografia/Arquivo Pessoal/Cedido/NDMaternidade solo atinge mais de 12 milhões de mulheres no Brasil – Foto: Scóz Fotografia/Arquivo Pessoal/Cedido/ND

Conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a monoparentalidade feminina atinge 12 milhões de mulheres no país, sendo mais de 64% as que vivem abaixo da linha da pobreza.

Um desses casos é a diarista Paula*, de 46 anos, que precisou assumir o papel de mãe e pai após ser ameaçada e agredida por seu ex-marido. Ela conta que é natural do Rio de Grande do Sul, mas que veio ao Estado para fugir das agressões.

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“Precisei vir. Ele batia em mim e nos meus filhos. Atualmente tenho cinco, mas dois são mais velhos. Vim para Santa Catarina com meus três pequenos, escondida, torcendo para que ele não me achasse”, conta Paula.

Ela diz que aguentou por muito tempo o abuso do ex, mas assim que sua filha mais velha se mudou, ela arquitetou um plano para ir também. “Não contei para ninguém, literalmente só fugi. Esperei a minha mais velha sair de casa, para ele não ameaçar ela de alguma forma e vim”, lembra.

“Vivia com medo, mas isso não me impediu de querer uma vida melhor e mais segura para mim e meus filhos”. Em Santa Catarina, Paula criou os três, um de 6 anos, outro de 11 anos e uma filha de 12.

Sujeição e decisão

No caso de Paula, ela foi quase que submetida a se tornar a uma mãe solo, já com a empresária Andreza Leal Vieira, de 40 anos, foi feita a escolha em divorciar do primeiro e único marido, com quem mantinha uma relação de 19 anos.

Andreza agora cuida de seus dois filhos sozinha, Israel e Samuel – Foto: Arquivo pessoal/NDAndreza agora cuida de seus dois filhos sozinha, Israel e Samuel – Foto: Arquivo pessoal/ND

Andreza conta que faziam cinco anos em que tentava uma reconciliação com o ex-marido, mas que não chegavam a nenhuma conclusão. “Foi quando engravidei do meu segundo filho, o Samuel, que vi que não dava mais. Então, quando meu caçula tinha só três meses eu pedi o divórcio”, conta.

Ela lembra ainda que casou muito nova e praticamente não conhecia a vida sozinha, até que se viu mãe solteira e ainda criando dois filhos, um de meses e outro de 12 anos. “Para mim, a pior situação foi não ter outro adulto na ajuda das tarefas diárias, principalmente tendo um bebê. Não ter com quem contar”.

Andreza ainda complementa dizendo que houve vezes em que ela precisou escolher entre jantar ou tomar banho, porque simplesmente não daria para fazer as duas coisas. “Acho que precisei mais de apoio como mãe solteira, do que propriamente como divorciada”.

“Apoio” foi um ponto bastante comentado pela mãe, que conta não ter tido amparo nessa questão. “Questão de apoio da sociedade, foi muito difícil encontrar vídeos em buscas sobre isso. Pessoas falando sobre nas redes sociais, mães solteiras falando sobre serem mães solteiras”.

Andreza comenta sobre a romantização da mãe solo: “você é guerreira” – Foto: Scóz Fotografia/Arquivo Pessoal/Cedido/NDAndreza comenta sobre a romantização da mãe solo: “você é guerreira” – Foto: Scóz Fotografia/Arquivo Pessoal/Cedido/ND

Com a nova responsabilidade de cuidar do dia a dia dos filhos, da casa e do trabalho sozinha, fez com que Andreza se questionasse se ela teria sucesso.

“Já pensei várias vezes em desistir, e não foram uma nem duas. Às vezes só não quero acordar. É difícil porque as pessoas do lado de fora falam: ‘ah, você vai vencer, tu é forte e guerreira’, mas é desesperador ter uma criança mamando no teu peito de madrugada, enquanto estás cansada e ainda sabendo que tem que acordar cedo para o trabalho no outro dia”.

Trabalho e maternidade

De acordo com o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) “Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça”, as mulheres trabalham cerca de 7,5 horas a mais do que os homens em uma semana, considerando sua jornada dupla de trabalho, entre emprego e atividades em seu próprio lar.

Outra mãe precisou conciliar o trabalho com a maternidade foi a empresária, Rosângela Schmitt, de 64 anos, que já separada engravidou da primeira e única filha aos 41 anos, em uma gravidez delicada. “Era seguir em frente ou seguir em frente. Teria que enfrentar o que viesse”, diz.

Apesar das dificuldades, hoje Rosângela se sente orgulhosa da filha que criou – Foto: Arquivo pessoal/NDApesar das dificuldades, hoje Rosângela se sente orgulhosa da filha que criou – Foto: Arquivo pessoal/ND

“Meu maior desafio foi, com certeza, me descobrir mãe diante da profissão que me tomava todo o tempo. Foi ter que deixar minha filha em razão do trabalho. Não presenciar momentos únicos e me cobrar mais ainda por isso”.

Rosângela conta que o pai da criança chegou a pedir para reatarem o relacionamento quando soube da gravidez. “Mas ele já tinha outra família e eu não queria voltar com ele. Então assumi essa responsabilidade sozinha, mesmo não planejando isso”.

Ela pontua também que a decisão foi motivo de julgamento por parte da família. “Apesar de eu ser estável financeiramente, não tinha tempo para cuidar de mim, quem dirá de um bebê. Além do olhar de julgamento, pena e dúvida de caráter, sempre que me declarava mãe solteira”.

Paternidade (Ir)responsável

A empresária, mãe solo e também psicóloga, Déborah Heinzen, classifica as dificuldades em dois grandes grupos: “Na minha opinião, eles podem ser classificados como: ‘óbvios e concretos’, como a pensão que na maioria das vezes não supre as necessidades, a (falta de) divisão de responsabilidades, a educação de maneira geral; e os ‘subjetivos’, que perseguem qualquer mãe solo durante todo o percurso, como a culpa e a falta de tempo”.

Maria Vitória (esquerda) e Débora (direita) na formatura da Sophia (centro) – Foto: Arquivo pessoal/NDMaria Vitória (esquerda) e Débora (direita) na formatura da Sophia (centro) – Foto: Arquivo pessoal/ND

Mãe de duas meninas, uma de 16 anos e outra de 19 anos, ela agora acompanha a vontade da filha, Maria Vitória, em retirar o sobrenome do pai. “É uma escolha dela, só que não existe uma lei, é decisão do juiz, como falou o advogado”.

Déborah conta que a decisão da filha partiu de um sentimento de indiferença e rejeição. “É um sobrenome que não diz nada para ela, além do fato de não ter sido quista, de não ser prioridade. Então é um nome que a lembra de coisas ruins”.

Caso consiga, Maria Vitória faria parte das muitas pessoas que procuram a Justiça para retirar o sobrenome do pai biológico dos documentos e que se sentem em uma relação de abandono afetivo.

Em contrapartida, somente nos últimos seis anos, quase 1 milhão de pessoas foram registradas sem o sobrenome paterno. Apenas nos sete primeiros meses de 2022, mais de 100 mil recém-nascidos possuem pais ausentes na certidão, mostram os cartórios de Registro Civil do Brasil.

Realizações de uma maternidade solo

“Minha maior alegria é saber que fui forte”, comenta Andreza sobre trajetória – Foto: Pixabay/Pexels/Reprodução/ND“Minha maior alegria é saber que fui forte”, comenta Andreza sobre trajetória – Foto: Pixabay/Pexels/Reprodução/ND

Para Paula, viver e conseguir guiar seus filhos no caminho do estudo e trabalho tem sido gratificante. “Apesar de vivermos numa situação bem simples, só de eu estar viva e com eles, podendo ter o que comer e conseguindo sustentar e educá-los da maneira correta, é o meu maior orgulho”.

Andreza também menciona o orgulho de estar conseguindo enfrentar as situações. “Eu poderia ter escolhido o caminho mais fácil, de não me separar e continuar como era, um casal de aparências. Mas a minha maior alegria é poder saber que fui forte o suficiente em não desistir e conseguir ver meus filhos crescendo, sabendo que eles estarão seguros, cuidados e educados por mim. Lá na frente, vai valer a pena”, finaliza.

Rosângela frisa o orgulho de ver sua filha crescida e saber que conseguiu superar as dificuldades. “A alegria é imensa! Crescida e com caráter. É saber que, apesar dos erros e dos acertos, consegui mesmo a revelia da sociedade preconceituosa”.

Ter conseguido criar filhas empáticas e generosas é um dos pontos de alegria citados por Déborah e que a fazem “ser uma mãe mais orgulhosa e feliz”.

“Pode ser clichê, mas é verdade: a maior alegria de uma mãe solo (e de toda mãe, imagino eu), sempre vai ser a de saber que conseguiu criar um filho(a) descente, formar um cidadão ético, dentro de uma conduta moral condizente com o que é correto”, acrescenta.

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