Joinville 172 anos: construções sobre o mangue e trabalho na indústria marcam a zona Leste

09/03/2023 às 04h50

A zona Leste de Joinville é dividida em oito bairros que tiveram seu crescimento populacional impulsionado pelos trabalhos nas fábricas

Foto de Fernanda Silva

Fernanda Silva Joinville

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Para comemorar os 172 anos de Joinville neste 9 de março, o Portal ND+ preparou uma série de reportagens para contar a história das regiões da cidade, uma delas, a zona Leste. Hoje, os bairros que hoje compõem a região são Aventureiro, Boa Vista, Comasa, Espinheiros, Iririú, Jardim Iririú, Vila Cubatão e Zona Industrial Tupy.

Cada um deles tem suas histórias e particularidades, porém, a maioria traz algo em comum: reuniram moradores para trabalhar nas indústrias, principalmente na gigante da metalurgia Tupy. Um dos bairros, inclusive, leva o nome da empresa.

Construído sobre o mangue, bairro Comasa é marcado pela solidariedade

Vindos do Sul de Santa Catarina, o casal Manoel e Nazarita Costa da Rosa, 62 e 56 anos, chegou a Joinville em abril de 1984 para trabalhar na Tupy. Primeiro, os dois fizeram endereço no bairro Boa Vista, mas logo depois se mudaram para o Comasa, onde vivem até hoje.

Manoel e Nazarita, moradores do bairro Comasa – Vídeo: Carlos Jr/ND

No bairro constituído por muitos migrantes e marcado pelos mangues, muitas pessoas precisaram construir suas casas em meio à lama e à maré. “Palafitas, o pessoal vinha do Paraná [para trabalhar]. Construía no alto para não entrar a maré”, recorda Manoel. Muitos desses migrantes vinham, principalmente, do estado vizinho. Inclusive, uma localidade dentro do bairro passou a ser chamada de Vila Paraná.

A professora e historiadora Ilanil Coelho lembra que, com o crescimento da indústria, as empresas incentivavam a migração. Conforme a especialista, muitas delas chegavam a enviar carros com alto falantes para outras cidades, convidando os moradores a se mudarem. Para incentivar esse deslocamento, auxiliavam de alguma maneira os novos moradores.

Trabalhador da Tupy na década de 1980, Manoel conta que inúmeras vezes usou o caminhão da empresa para trazer madeira doada pela fábrica para construir as casas. “Eles tinham bastante essa parte social, ajudavam seus trabalhadores”, comenta Manoel.

Muitas destas casas eram construídas em cima do mangue. A pesquisadora lembra que, apesar de hoje a legislação ambiental proibir a construção nessas áreas, naquela época, muitas daquelas pessoas não tinham outras condições de moradia e precisavam fazer endereço onde era possível.

Inclusive, Ilanil aponta que Joinville não deu condições ou estrutura para que as pessoas viessem morar na cidade. “Não ofereceu serviços básicos, o principal era o habitacional. Por isso, surgem esses novos bairros”, afirma a historiadora. “Arquitetura própria em áreas impróprias, sem saneamento. Mas as pessoas precisavam morar.”

Sem o município oferecer condições, eram os moradores que já estavam por aqui que preparavam o “terreno” para os demais. Juntas, as pessoas construíam as casas e, depois, suas vidas. Manoel e Nazarita, por exemplo, ajudaram inúmeros vizinhos. “Começamos uma amizade, começamos a visitar e onde [momento] que a gente viu que era mangue começamos a ajudar essas famílias. Era muita dificuldade, um povo muito sofrido, um povo trabalhador”, lembra Nazarita.

Manoel e Nazarita, moradores do bairro Comasa – Foto: Carlos Jr/NDManoel e Nazarita, moradores do bairro Comasa – Foto: Carlos Jr/ND

Segundo Ilanil, essas redes de solidariedade foram responsáveis por ajudar o povo a se estabelecer nos novos locais de moradia, trazendo apoio, assistencialismo, lazer e festividades. Por isso, a professora defende que não era somente a economia e o trabalho nas indústrias joinvilenses que fizeram com que as pessoas viessem morar na cidade, mas também as redes de solidariedade.

O casal Manoel e Nazarita conta que as pessoas tinham bastante dificuldade, principalmente as mulheres, que normalmente eram donas de casa. Por meio da comunidade religiosa, elas faziam cursos de fabricação de pães, que depois eram vendidos e garantiam a renda. Além disso, após a popularização das cozinhas comunitárias do padre Luiz Facchini na zona Sul da cidade, esses espaços começaram a ser criados em outros bairros, inclusive no Comasa.

Apesar do crescimento populacional do bairro, os avanços no atendimento  à população ocorreram a passos lentos. Quando chegaram no Comasa, não havia ruas asfaltadas, lembra Manoel. “Essa região aqui era só estrada de chão”, fala. “Muita pedra, nada de asfalto. As ruas eram bem precárias para transitar”, completa Nazarita.

Bairro Comasa. Em evidência na foto, o famoso Casqueiro – Foto: Carlos Jr/NDBairro Comasa. Em evidência na foto, o famoso Casqueiro – Foto: Carlos Jr/ND

Entre as décadas de 1980 e 1990, o bairro tinha ainda poucos comércios e serviços. O que existia naquele momento era uma peixaria e um comércio de material de construção, lembra o casal, o que mudou a partir da chegada do asfalto. Ainda assim, para conseguir acessar serviços, a família precisava se deslocar para outros bairros ou áreas mais distantes.

Foi a partir da necessidade que a família Costa da Rosa resolveu abrir um negócio próprio, em 1992. Na loja de ferramentas, até materiais de papelaria foram comercializados. “Porque não tinha na região”, lembra Nazarita.

Hoje, as famílias ainda sentem que precisam ser melhor atendidas no bairro. Manoel cita, por exemplo, a falta de opções de lazer. Envolvido com a comunidade, ele afirma que a associação e seus membros estão lutando por um parque na região do Casqueiro. Com força na reivindicação, a família acredita que pode conquistar mais qualidade de vida para os moradores do Comasa.

O bairro mais populoso de Joinville, o Aventureiro

O corretor de imóveis Célio D’Ávila, 52 anos, foi morar no bairro Aventureiro em 1979, quando tinha 9 anos. A mãe, que era professora, decidiu sair de Barra Velha para Joinville para dar aos filhos mais oportunidades de estudo e trabalho.

Fernando Sossai sobre o Aventureiro – Vídeo: Carlos Jr/ND

Célio lembra que, na época, a paisagem do bairro era basicamente feita de pastos e roças. O corretor conta que o local onde hoje é construído o Supermercado Rodrigues, por exemplo, era uma destas áreas de mata. Já a vida no bairro era precária: havia poucas mercearias e mercados pequenos. “Tinha que ir para o Centro para comprar coisas de varejo. A rua Tuiuti era estrada de chão, intrafegável”, conta.

Célio D’Ávila é um morador antigo do bairro Aventureiro – Foto: Carlos Jr/NDCélio D’Ávila é um morador antigo do bairro Aventureiro – Foto: Carlos Jr/ND

Assim como no Comasa, grande parte da população vivia do trabalho na indústria. Por não ser um bairro industrial, nas décadas entre 1970 e 1990, muitas pessoas precisavam sair do bairro para trabalhar.

“Alguns estudos apontam o bairro Aventureiro como uma espécie de bairro ‘dormitório’, o que de certo modo é uma leitura possível, muito embora não seja um termo tão preciso em relação à história do bairro. Ele não é só um bairro ‘dormitório’, ele é um bairro onde a vida pulsa e de uma maneira muito intensa”, defende o professor Fernando Sossai.

Célio recorda que foi na década de 1980, com os loteamentos, que o Aventureiro cresceu significativamente, sendo hoje o bairro mais populoso da cidade, com mais de 40 mil moradores. Conforme o professor, a localidade se tornou populosa a partir dos grandes loteamentos, como o Jardim Franciele e o Rio do Ferro. “Isso forma uma grande massa populacional residindo”, destaca Sossai.

Bairro Aventureiro, próximo da rua Tuiuti e do Supermercado Rodrigues – Foto: Carlos Jr/NDBairro Aventureiro, próximo da rua Tuiuti e do Supermercado Rodrigues – Foto: Carlos Jr/ND

Segundo Célio, no início, os próprios moradores costumavam abrir ruas e vender terrenos, principalmente nos arredores do que hoje são as ruas Pica-Pau, Bonito-Lindo e Perdiz. Depois da década de 1980, com os loteamentos, o bairro cresceu de forma mais organizada, opina o corretor de imóveis, pois junto com as moradias, foram se criando áreas de lazer e esporte. Em 1993, por exemplo, ele mesmo abriu uma escola de karatê.

  

Hoje, Célio acredita que o Aventureiro é uma cidade dentro da cidade, pois tem de tudo e as pessoas não precisam mais se deslocar quilômetros para ter acesso a serviços. “É uma conquista para o bairro”, ressalta.

Boa Vista

O documento Joinville Bairro a Bairro, de 2017, traz mais detalhes sobre a história de cada bairro da cidade. O nome Boa Vista, por exemplo, existe desde o século 19 e teve como referência a densa e floresta que tinha em sua paisagem.

Fernando Sossai sobre o Boa Vista e região – Vídeo: Carlos Jr/ND

Enquanto isso, no início da popularização do bairro, os moradores viviam da agricultura para subsistência e da criação de animais. Também existiam engenhos de arroz e cana para produção de açúcar mascavo e melado.

Com a mudança da Fundição Tupy para o bairro, o movimento de migração para o Boa Vista cresceu ainda mais e a região passou a ser marcada pela circulação de trabalhadores industriais.

Com o aumento de moradias, vieram nos anos seguintes a instalação de serviços básicos, como a energia elétrica e de água tratada, no início da década de 1950.

Espinheiros

  

O Espinheiros costumava ser uma ilha na Baía de São Francisco do Sul e só era possível acessá-lo pelo bairro Boa Vista, utilizando canoas. Com o crescimento do bairro, na década de 1970 foi realizada a instalação de energia elétrica e de rede de água tratada.

Iririú

Assim como bairros próximos, a região do Iririú também foi constituída por manguezais, com ruas estreitas e rodeadas por mata. A agricultura foi durante muito tempo a principal atividade econômica do bairro que, a partir do seu crescimento, passou a contar com comércios e indústrias. A construção de moinhos também marcou a história do bairro.

Jardim Iririú

Assim como o Iririú, o Jardim Iririú também foi construído em meio ao mangue e região de mata. O bairro é quase um desmembramento do Iririú e seu nome foi dado por conta de um loteamento chamado Jardim Iririú I, que ficava localizado no bairro vizinho na década de 1970. Esta é uma das regiões mais antigas da cidade, com moradias datadas desde meados do século 19.

Vila Cubatão

O bairro ganhou este nome devido ao rio que passa pela região, o rio Cubatão. A região é antiga, com mais de 200 anos, tendo sido habitada, principalmente, por portugueses e pessoas escravizadas. O nome do bairro, em língua guarani, se refere a uma terra resistente. Além disso, os tupis-guaranis costumavam chamar as árvores de madeira resistente e dura como “cubatan”.

Zona Industrial Tupy

Mais de 40 anos após a instalação da Fundição Tupy no bairro Boa Vista, em 1996 foi criada a Zona Industrial Tupy. O bairro foi criado em referência a transferência de localidade da metalúrgica, que marcou a história da região.

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