Joinville completa 172 anos neste 9 de março e, para marcar a data, o Portal ND+ publicou uma série de reportagens sobre as regiões da cidade, entre elas a zona Norte, que traz um contraste entre a industrialização e a agricultura nos bairros Bom Retiro, Costa e Silva, Dona Francisca, Jardim Paraíso, Jardim Sofia, Pirabeiraba, Rio Bonito e Zona Industrial.
Região Central de Pirabeiraba – Foto: Carlos Jr/NDA agricultura continua viva em Pirabeiraba
Com registro de moradores desde o século 19, na época, Pirabeiraba era conhecida como Pedreira, explica o professor Fernando Sossai. “Era habitada por agricultores e famílias bastante numerosas, que tinham uma importância no século 19 para a construção da cidade”, lembra o pesquisador.
E foi em meio à agricultura pirabeirabense que os irmãos Marcos e Menegildo Pabst, de 68 e 62 anos, respectivamente, nasceram e foram criados. Moradores de Pirabeiraba desde sempre, eles viram o bairro crescer.
Marcos e Menegildo Pabst, irmãos moradores de Pirabeiraba – Foto: Carlos Jr/NDO pai da dupla mudou-se para Joinville aos 16 anos e por aqui ficou, dedicando a vida ao plantio da cana de açúcar. A família vendia o material para a usina de açúcar e cachaça da região, mas também fazia a própria produção. “O papai saía de madrugada para levar a cachaça na carroça”, recorda Marcos.
Por conta da distância, uma vez por mês a família saía para fazer as compras grandes, conhecidas popularmente como “pedido” ou “rancho”. Menegildo lembra que percorriam mais de um quilômetro até chegar na cooperativa na qual eram vendidos alimentos e outros produtos.
Eram poucos os mercados ou mercearias na região. No dia do “pedido”, a família também passava na indústria de açúcar e trazia sacos de dezenas de quilos para casa. “Produzia para eles e comprava deles”, lembra Menegildo. Apesar das idas ao comércio, a família garante: “grande parte da nossa alimentação era produzida aqui [em casa]”.

Eram poucos os mercados ou mercearias na região. No dia do “pedido”, a família também passava na indústria de açúcar e trazia sacos de dezenas de quilos para casa. “Produzia para eles e comprava deles”, lembra Menegildo. Apesar das idas ao comércio, a família garante: “grande parte da nossa alimentação era produzida aqui [em casa]”.
Além da cachaça, o local unia alguns açougues, que com a vinda dos grandes mercados ao longo dos anos foram reduzidos. “Antigamente não tinha carne nos mercados, então quando chegaram os grandes, os pequenos diminuíram”, afirma Marcos. O mesmo teria ocorrido com agricultores, que também reduziram a produção com a chegada de grandes comércios. Menegildo, porém, continua atuando na produção de leite.
No século 20, o bairro não dispunha de muitos serviços, contam os irmãos. “Não tinha posto de saúde, nada, é coisa de hoje em dia”, diz Marcos. Inclusive, o comerciante aposentado explica que os moradores recebiam grande auxílio do sindicato dos agricultores, que encaminhava para consultas médicas e colocava um dentista à disposição para atender os trabalhadores.
O bairro começou a crescer com a chegada de mais migrantes, segundo os irmãos. Isso porque, vindos de fora e sem emprego garantido, as famílias começaram a abrir negócios próprios. Além disso, poucas famílias tinham propriedades e, com a venda de lotes, mais pessoas chegaram ao bairro.
Os irmãos lembram que a região era escolhida principalmente por moradores das regiões Oeste e Sul do Estado, após a enchente que marcou a cidade de Tubarão em 1974 e matou quase 200 pessoas.
Mas nem só de trabalho os moradores de Pirabeiraba viviam nas décadas passadas. Os bailes eram muito presentes. “As pessoas faziam casas com quartos pequenos, cozinhas pequenas e salas grandes para dançar”, lembra Menegildo.
As sociedades como a Rio da Prata, Dona Francisca e Guarani eram e ainda são muito fortes na região. Os irmãos lembram que, na época do pai, os moradores iam nos bailes a pé. “No nosso tempo já era mais chique, a gente ia de bicicleta”, ri Marcos.

As lembranças são contadas pelos irmãos entre risadas. A dupla lembra das festas e casamentos realizados e da ajuda dos vizinhos para a realização dos eventos. Porém, os irmãos acreditam que as pessoas que vivem nas regiões centrais ainda veem Pirabeiraba como se o bairro vivesse no século passado. “Todo mundo acha que Pirabeiraba é longe. Parece que a gente vive em outro mundo. Se você vem do Centro é perto. Agora, se vem do Itinga, é claro que é longe”, explica Marcos.
Zona Industrial Norte foi criada para receber grandes empreendimentos
Fazendo divisa com os agricultores de Pirabeiraba está a Zona Industrial Norte, que se destaca pela presença das indústrias. Há mais de 20 anos trabalhando na região, Ana Lucia Alves, diretora de relacionamento com clientes do Perini Business Park, conta que o bairro, hoje cheio de empresas, nem sempre foi assim.
Ana Lúcia trabalha há mais de 20 anos no bairro – Vídeo: Carlos Jr/ND
Quando o parque industrial começou a funcionar no local, no fim da década de 1990, as casas que eram dos antigos proprietários ainda estavam de pé e Ana chegou a trabalhar nelas. A partir de 1998, o empreendimento começou a ser erguido e, posteriormente, inaugurado em 2001.

O empresário italiano começou a investir em seus negócios em solo brasileiro na década de 1970. Em Joinville, a empresa teve como os primeiros endereços os bairros Pirabeiraba e Bom Retiro, até que finalmente se instalou na Zona Industrial Norte.
Para Ana Lúcia, a mudança foi importante para os negócios, já que o bairro possui uma localização estratégica, principalmente por conta da proximidade com a BR-101. No local, já havia algumas fábricas, mas o bairro ainda era pouco abastecido. “As pessoas não acreditavam que aqui poderia ser um distrito industrial”, afirma Ana Lúcia.Com o avanço do tempo, mais empresas chegaram até o local, principalmente dentro do Perini Business Park, criado para acomodar empreendimentos que vinham de fora ou de dentro da cidade.
Hoje, somente no Perini, mais de 10 mil pessoas circulam diariamente. Ana afirma que hoje, tanto o empreendimento quanto o bairro em si, recebem pessoas de todos os lados da cidade por conta das oportunidades oferecidas pelas indústrias, assim como pela Universidade Federal de Santa Catarina, que hoje está instalada no local.
Zona Industrial Norte em 2023. No lado direito, a rua Dona Francisca – Foto: Carlos Jr/NDBom Retiro
Segundo o documento Joinville Bairro a Bairro, antigamente, o bairro Bom Retiro era conhecido como Dona Francisca ou “Serrastrasse”, que quer dizer Estrada da Serra, em referência à Estrada Dona Francisca. O nome atual só foi incorporado ao bairro após a passagem de um time de futebol que levava o nome Bom Retiro.
Assim como em outros bairros, os moradores da localidade viviam da agricultura de subsistência e também do comércio.
Em meados da década de 1950, com a reivindicação da construção de uma faculdade, o bairro passou a receber inúmeros estudantes nos anos seguintes. No início, em 1965, vieram para o bairro a FURJ, atualmente Univille, e a Faculdade de Engenharia de Joinville, que 20 anos depois tornou-se a Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina).
Costa e Silva
Assim como em diversos bairros da cidade, os loteamentos foram um dos principais responsáveis pelo crescimento populacional da região. Hoje, o Costa e Silva é um dos bairros mais populosos de Joinville, com estimativa de 32.179 mil moradores em 2021, segundo o IBGE.
Além da grande população, um dos fatores mais marcantes do bairro é o fato de abrigar algumas das nascentes do rio Cachoeira. O nome do bairro foi dado após a visita do presidente da república Marechal Arthur da Costa e Silva. Anteriormente, ele levava o nome de “Vila Comasa” por conta de uma empresa.
Dona Francisca
O bairro é associado à Estrada Serra Dona Francisca, que durante o período colonial foi a principal ligação de Joinville com o Planalto Norte do Estado.
A região é marcada pela paisagem rural e pela agricultura. Além da rodovia que marcou a região, algumas ruas dos bairros levam o nome de antigos moradores, como uma forma de homenagem àqueles que fizeram a história do bairro.
Jardim Paraíso
Fernando Sossai fala sobre a zona Norte de Joinville, principalmente dos bairros Jardim Sofia e Jardim Paraíso – Vídeo: Carlos Jr/ND
O bairro foi conhecido primeiramente como Cubatão. Posteriormente, por conta de nomes dados aos loteamentos, o bairro recebeu finalmente o nome de Jardim Paraíso.
Durante um longo período, a região pertenceu à cidade de São Francisco do Sul. O historiador Fernando Sossai destaca que por uma reivindicação dos moradores, o bairro tornou-se parte de Joinville em 1992, por escolha daqueles que vivem naquele território.
O Jardim Paraíso foi, inicialmente, ocupado por populações lusitanas, cabocla, negra e germânica, que tinham como atividade econômica a produção agrícola. Porém, as famílias enfrentavam dificuldades em relação à falta de infraestrutura.
Jardim Sofia
Criado em 1990, o bairro Jardim Sofia até então fazia parte da Zona Industrial. As terras da região eram bastante férteis, mas sofriam com as enchentes e alagamentos, lembra o professor Fernando Sossai. A região tem em pontos próximos o rio do Braço e afluentes do rio Cubatão Norte.
Apesar dos percalços, a população costumava investir na agricultura de verduras, feijão, aipim e cana-de-açúcar. Com esta última, produziam melado e açúcar. Costumavam produzir para consumo próprio, principalmente, e a produção excedente era repassada aos comércios.

Rio Bonito
A localidade do Rio Bonito é uma das ocupações germânicas mais antigas da Colônia Dona Francisca. Ele foi criado em 1979 e fica localizado à esquerda da BR-101. O nome é bastante sugestivo, sendo baseado no rio que corta a região e em sua paisagem.
Assim como outros bairros, os moradores dedicavam-se à agricultura e à pesca, já que há rios que banham a localidade. No local também foram fundadas olarias, engenhos e alambiques, o que tornou a região uma grande produtora de cachaça.
Segundo o documento Joinville Bairro a Bairro, foi somente na década de 1960 que a energia elétrica chegou ao bairro. A rede de água tratada demorou mais ainda, sendo instalada somente nos anos de 1980.



