Joinville também é quilombola: comunidades reforçam história da população negra na cidade

01/04/2023 às 04h50

Comunidades quilombolas do Ribeirão do Cubatão e do Beco do Caminho Curto resgatam e exaltam a participação das pessoas negras na história da cidade mais populosa de Santa Catarina

Juliane Guerreiro Joinville

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Quando se resgata a história de Joinville, no Norte de Santa Catarina, é comum que se exalte a colonização germânica. É o que acontece no hino, em equipamentos públicos e na homenagem aos imigrantes a cada aniversário, por exemplo. Porém, os europeus não foram os únicos, tampouco os primeiros, a participarem da construção da cidade, e uma prova disso é a presença das comunidades quilombolas em Joinville.

Olívio exibe com orgulho o documento de certificação da comunidade quilombola e a foto dos pais – Foto: Carlos Jr/NDOlívio exibe com orgulho o documento de certificação da comunidade quilombola e a foto dos pais – Foto: Carlos Jr/ND

Uma descoberta que trouxe orgulho

Aos 73 anos, o aposentado Olívio Cristino segura com orgulho o documento de certificação expedido pela Fundação Palmares em 2019 e que reconhece a Comunidade do Ribeirão do Cubatão, localizada na região rural da zona Norte de Joinville, como remanescente de quilombos. Anos antes, porém, ele pouco sabia sobre o assunto.

“Eu aprendi na escola que havia escravos e que eram maltratados. Hoje eu estou olhando uma coisa diferente do que foi ensinado: que a raça negra era a mão de obra do país. A nossa raça negra tem uma história muito bonita”, fala.

A mudança de percepção começou com uma ação da CRE (Coordenadoria Regional de Educação), que trabalhava no reconhecimento das comunidades.

“Eu nem sabia o que era quilombola. Essa descoberta veio em 2013, quando eu recebi um convite da Secretaria de Estado da Educação para uma convenção de indígenas e quilombolas em Laguna. Aí que eu fui entender o que era quilombola, que eram os negros escravizados refugiados no mato e que formavam quilombos”, conta.

A assistente técnica pedagógica da CRE, Alessandra Bernardino, havia comentado que na região em que Olívio mora havia pessoas negras escravizadas no passado, contudo, ele não se via como remanescente até que descobriu registros que ligavam a sua família à escravidão.

Olívio fala das descobertas sobre a comunidade – Vídeo: Carlos Jr/ND

Foi em uma visita ao Museu Nacional de Imigração e Colonização de Joinville, logo após o Seminário Estadual das Políticas para Educação das Relações Étnico-Raciais em Laguna, que ele conheceu o historiador Dilney Cunha.

“Ele disse que na minha região tinha escravos, buscou um livro e na página 153 mostrou que meu avô Antônio Naro era escravizado e foi alforriado em 1879”, conta Olívio.

O registro do jornal Kolonie-Zeitung, então publicado no livro “Joinville – Os Pioneiros”, de Raquel S. Thiago e Maria Thereza Böbel, mostra que Antônio Naro teria sido alforriado após ajudar no tratamento de doentes com febre amarela. “Foi a euforia”, se emociona Olívio ao relembrar o momento da descoberta.

Aquela foi a virada de chave para que ele quisesse saber ainda mais sobre a sua história e a da sua família.

“Fui buscando mais coisas e acabei descobrindo que no Arquivo Histórico tinha o depoimento da família Cercal, que é a que teria trazido meus avós como escravos deles”. A pesquisa de Olívio continua, mas a falta de registros sobre a presença negra em Joinville dificulta a busca.

Olívio exibe a imagem de Santa Bakhita, considerada a padroeira dos escravizados – Foto: Carlos Jr/NDOlívio exibe a imagem de Santa Bakhita, considerada a padroeira dos escravizados – Foto: Carlos Jr/ND

Busca por reconhecimento e respeito

A poucos quilômetros de onde mora Olívio está a casa de Gorete Aparecida de Oliveira. A mulher de 47 anos é uma das líderes da Comunidade Beco do Caminho Curto, que reúne cerca de 200 pessoas, a grande maioria delas ligadas por laços familiares.

“Eu nasci aqui na comunidade, nasci na mão de uma parteira, em casa. Era a minha madrinha, ela que fazia os partos”, conta.

Apesar de morar a vida toda no local, Gorete, assim como Olívio, não sabia sobre os registros de escravidão naquela região e teve o primeiro contato com a palavra quilombola também por meio da CRE e de Alessandra Bernardino.

“Eu não sabia até o dia em que teve uma reunião no galpão e fiquei sabendo que a gente era remanescente quilombola e ela [Alessandra] estava lutando pra gente ganhar o certificado”, lembra.

Depois de um tempo, a luta se transformou em resultado e a comunidade foi certificada pela Fundação Palmares em maio de 2019.

Gorete fala sobre o processo de certificação da comunidade Beco do Caminho Curto – Vídeo: Carlos Jr/ND

Para Gorete, a certificação trouxe vários avanços para a comunidade, como o reforço escolar para as crianças e os adolescentes e o saneamento básico.

“Ganhamos o EJA (Educação de Jovens e Adultos), eu mesma me formei, terminei a escola e isso a gente tem que agradecer”, ressalta. Por outro lado, ela destaca o preconceito contra as pessoas da comunidade.

“Existe muito caçoamento, ficam rindo porque a gente é quilombola, falam que aqui é terra invadida, tem muito falatório e confusão. A gente quer ser mais reconhecido, ter mais respeito pela nossa cultura. Quer mais conhecimento para as crianças aprenderem a não terem vergonha da nossa cultura”, ressalta.

E assim como acontece com Olívio, Gorete esbarra na falta de registros sobre o passado. “Eu soube da história da minha madrinha, que morava no Ribeirão do Cubatão e era descendente de escravos. Mas daqui a gente não tem essa informação, a história completa. A minha vontade era saber de onde vieram meus avós e bisavós, aprofundar mais a nossa história”, salienta.

Falta de registros da presença negra em Joinville é desafio

A dificuldade de Olívio e Gorete em encontrar registros sobre o passado de suas famílias não é algo incomum para a população negra que mora em Joinville.

“Ninguém vinha no século 19 da África para passear, então as próprias comunidades conhecem pouco essa história. As pesquisas são incipientes, mas os indícios comprovam e justificam a Fundação Palmares ter reconhecido as comunidades”.

Quem explica é Sirlei de Souza, doutora em comunicação e cultura e professora coordenadora do projeto Caminho Curto da Univille, que acompanha a comunidade quilombola. Ela conta que a mão de obra escrava foi usada tanto por luso-brasileiros quanto pelos imigrantes germânicos, mesmo que isso não fosse moralmente aceito na época.

“Quando os povos germânicos colonizaram aqui, a Europa já não aceitava mais a escravidão. Era meados do século 19, haviam acontecido revoluções democráticas pautadas na liberdade e igualdade. Então, faziam a colonização com o ideal de não existir trabalho escravo”, diz a professora. Contudo, na prática nem sempre esse ideal era seguido.

“Açorianos que colonizavam São Francisco do Sul utilizavam mão de obra escrava e o que os registros mostram é que as pessoas escravizadas eram alugadas para famílias germânicas. Foi uma estratégia encontrada para continuar tendo pessoas que fizessem o serviço que eles não faziam e não entrasse na contradição idealista trazida da Europa”, explica Sirlei.

Mapa mostra construções ainda antes da chegada dos primeiros imigrantes germânicos onde hoje é Joinville – Foto: Reprodução/AHJMapa mostra construções ainda antes da chegada dos primeiros imigrantes germânicos onde hoje é Joinville – Foto: Reprodução/AHJ

Ela ressalta que, como a abolição da escravidão ocorreu apenas em 1888 no Brasil, a medida não era ilegal no período.

“Mas era imoral diante dos ideais europeus da época”. “O orgulho de Santa Catarina é de que não tivemos escravidão, mas vai pegar Laguna, São Francisco do Sul, as primeiras cidades, e isso explode quando a gente começa a remexer naquele passado”, complementa a professora.

E não é diferente em Joinville. A professora conta que na região das comunidades quilombolas há, pelo menos, duas hipóteses sobre a presença de pessoas escravizadas.

“Um registro bem importante é a lista de trabalhadores que abriu a Serra Dona Francisca. Segundo o historiador Dilney Cunha, nessa lista há a identificação de 13 negros escravizados. Uma possibilidade é que os bisavós dessas comunidades possam ter vindo dessa lista”, diz Sirlei.

A agricultura é a outra teoria. “Outra hipótese é que eram negros vindos de São Francisco do Sul, remanescentes da escravidão. E para que? Uma das questões seria trabalhar na plantação de mandioca. Há muitos engenhos de farinha, onde está o Caminho Curto era tudo agricultura, região em que também tinha muita palha com a qual se produziam vassouras. E também para trabalhar nos engenhos de açúcar”, fala a professora.

De acordo com Sirlei, até o final dos anos 1980 eram poucas as pesquisas sobre a história da população negra em Joinville. Não à toa as comunidades foram certificadas apenas em 2019 e 2020.

Relato sobre a alforria de Antônio Naro foi publicada no Kolonie-Zeitung – Foto: Reprodução/Carlos Jr/NDRelato sobre a alforria de Antônio Naro foi publicada no Kolonie-Zeitung – Foto: Reprodução/Carlos Jr/ND

Comunidades quilombolas representam a diversidade em Joinville

Diante de uma narrativa que exalta a colonização germânica, a presença das comunidades quilombolas em Joinville não apenas representa a diversidade e ressalta a contribuição das pessoas negras para a construção da cidade, mas também escancara uma história de escravidão.

“Identifica-se uma realidade triste do passado, de que essas populações eram escravizadas e que, diferente do que se pensava, Joinville utilizava a mão de obra escrava. É triste pensar nessa situação, mas ela é real, concreta e precisa ser visível”, ressalta a professora Sirlei.

Para a Joinville de hoje, conhecer essa história contribui para a valorização da diversidade como um todo e para o fortalecimento da identidade negra na cidade. “É um ajuste em como se conta a história da cidade. Trazer isso à tona, dar visibilidade para essas comunidades, é percebermos a diversidade na formação de Joinville”, reforça.

Olívio fala sobre a mudança de percepção a respeito da história da população negra – Vídeo: Carlos Jr/ND

Embora a certificação das duas comunidades seja importante, elas ainda aguardam a demarcação pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), o que oferece maior segurança aos territórios. Os processos foram abertos em 2019 para a comunidade do Beco do Caminho Curto e em 2020 para a comunidade Ribeirão do Cubatão, após solicitação da Defensoria Pública da União.

Segundo o Incra, antes da demarcação são necessárias algumas medidas, como a elaboração de um relatório antropológico que caracterize a comunidade e de um relatório técnico de identificação e delimitação, a publicação de portaria do Incra reconhecendo o território e de um decreto da Presidência autorizando a desapropriação e, por fim, a titulação das terras em nome da associação quilombola.

Alessandra, Olívio e o defensor público Célio Alexandre John celebrando a certificação da comunidade – Foto: Olívio Cristino/Arquivo pessoalAlessandra, Olívio e o defensor público Célio Alexandre John celebrando a certificação da comunidade – Foto: Olívio Cristino/Arquivo pessoal

Para isso, serão feitas reuniões com as comunidades para entender a organização delas e explicar os procedimentos. De acordo com o Incra, as visitas de reconhecimento e as reuniões estão previstas para começar neste ano, dependendo da disponibilidade de recursos e das comunidades. Destaca-se que o título das terras é coletivo, em nome da associação representativa da comunidade.

Enquanto a demarcação não ocorre, Olívio, Gorete e os demais moradores seguem na busca por suas histórias e contam com projetos como o coordenado pela professora Sirlei para desenvolver sua autonomia.

Há dificuldades, a exemplo da carência de transporte público na região, o que dificulta que jovens e adultos alcancem os estudos e a profissionalização, mas também há avanços.

“Em 2018, havia um adulto com ensino médio no Caminho Curto e por meio da parceria entre a Secretaria da Educação, com professores para reforço escolar, e uma escola municipal, cedendo o espaço, fechamos 2022 com 12 jovens e adultos com ensino médio. Isso é revolucionário, transformador”, conta a professora Sirlei.

Gorete é uma das pessoas que conclui o ensino médio na comunidade – Foto: Carlos Jr/NDGorete é uma das pessoas que conclui o ensino médio na comunidade – Foto: Carlos Jr/ND

As comunidades de Joinville, junto a de Areias Pequenas e a de Itapocu, de Araquari, e a da Tapera, em São Francisco do Sul, também já fizeram um encontro para trocar experiências e saberes.

“A gente quer deixar essa história para a geração mais nova, fazer com que cultivem isso e também sintam orgulho”, ressalta Olívio.

Edição de vídeo: Ernesto Zanella.

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