Bem aceita, mas com restrições. É assim que lideranças do segmento LGBTQIA+ de Santa Catarina avaliam a autorização dada recentemente pelo Vaticano a padres que, pela primeira vez, poderão oferecer bênçãos a casais homoafetivos.
Decisão polêmica foi anunciada pelo Vaticano na última segunda-feira (18), mas há críticas sobre a forma de se conceder a bênção – Foto: Reprodução/Arquivo/NDA decisão inédita integra um documento oficial divulgado na segunda-feira (18) pela Igreja Católica Apostólica Romana. A bênção, entretanto, possui algumas regras, como por exemplo a condição que seja feita fora de missas ou cultos, mantendo firme a posição de contrariedade da Igreja Católica ao casamento homossexual.
Bênção possui restrições
“A possibilidade de bênçãos de casais em situações irregulares e de casais do mesmo sexo, cujo formato não deverá encontrar qualquer fixação ritual por parte das autoridades eclesiásticas, para não causar confusão com a bênção do sacramento do matrimônio”, diz o documento do Dicastério para a Doutrina da Fé, aprovado recentemente pelo papa Francisco.
Seguir
Papa Francisco assinou documento que autoriza bênção “discreta” a casais de mesmo sexo, por parte da Igreja Católica – Foto: Reprodução/Wikimedia Commons/ND“Esta bênção nunca acontecerá ao mesmo tempo que os ritos civis de união, nem mesmo em conexão com eles. Nem sequer com as vestimentas, gestos ou as palavras próprias de um casamento”, acrescenta.
Segundo a agência AFP, apesar de não serem reconhecidos pela Santa Sé, alguns religiosos já abençoaram casais do mesmo sexo na Europa, principalmente na Bélgica e na Alemanha.
Como esta decisão do Vaticano foi recebida em Santa Catarina?
Para a presidente do CMDLGBT (Conselho Municipal de Direitos LGBT) de Florianópolis, Ana Paula Mendes, a decisão pode trazer algum conforto aos católicos homoafetivos, em meio a uma vida bastante marginalizada pela igreja.
Entretanto, a entidade critica que a decisão não traz avanços sobre o reconhecimento da união de pessoas do mesmo sexo, relações entre pessoas transgênero, entre outras questões.
“O CMDLGBT de Florianópolis se interessa por e defende o direito ao casamento civil entre pessoas do mesmo gênero num estado laico, pois nos interessa a luta pelos direitos cidadãos das pessoas LGBT+. O documento da Igreja Católica chamado de “Fiducia supplicans” não altera “a doutrina tradicional da Igreja sobre o casamento”.Entendemos que a permissão de benção a casais de mesmo gênero pela Igreja seguem tratando LGBTS como pecadores e deslegitimando moralmente nossas relações afetivas e nossas famílias, visto que essa benção não significa reconhecer ou legitimar essas relações. De acordo com o documento, as bençãos tem o objetivo apenas de “abrir a própria vida a Deus, pedir ajuda pra viver melhor”, sem representar qualquer reconhecimento das relações entre pessoas do mesmo gênero. No entanto, acreditamos que para algumas pessoas LGBT católicas essa autorização possa representar algum conforto ou acolhimento numa vida já bastante marginalizada ou violentada, o que certamente representa algo positivo”, disse Ana Paula Mendes, ao ND Mais.
Posição semelhante é a da advogada Rosane Magaly Martins, presidente do Instituto Mães do Amor, de Blumenau, no Vale do Itajaí.
A integrante do movimento social que defende os direitos de famílias homoafetivas e trans, disse que a decisão vem em boa hora, mas que as ressalvas que existem à concessão de bênçãos ainda incomodam.
Rosane Magaly Martins é advogada em Blumenau e opina sobre a decisão do Vaticano em autorizar bênçãos a casais homoafetivos – Foto: Arquivo Pessoal/Rosane Martins/Divulgação/ND“Nós, como mães de pessoas LGBTQIAPN+, entendemos como um grande avanço. Não é o que se espera ainda, porque ainda se discrimina, mas a decisão do Vaticano aprovada pelo Papa permitindo que padres deem bênçãos aos casais do mesmo sexo é uma evolução”, considera a advogada.
De acordo com a representante do movimento, toda e qualquer família tem o direito de ingressar em um templo religioso. Ela espera que, após essa decisão histórica da Igreja Católica, haja sensibilização de outras denominações religiosas.
“As nossas famílias importam e merecem respeito. (…) É uma sinalização para que as pessoas que são cristãs e são LGBTQIAPN+, possam continuar frequentando esses espaços litúrgicos sem serem vítimas de agressão, e esperamos que em breve as igrejas neopentecostais, as pentecostais mais radicais também tenham essa sensibilidade de acolhimento”, finaliza Rosane Magaly Martins.
*Com informações da AFP