Luto em SC: morre Gelci José Coelho, o Peninha, guardião da memória e cultura do Estado

Museólogo e artista visual, que foi assistente do mestre Franklin Cascaes por 12 anos, morreu na madrugada desta quinta-feira (16)

Maria Fernanda Salinet Florianópolis

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O museólogo, escritor e artista visual Gelci José Coelho, o Peninha, considerado um dos guardiões da história, memória, cultura e arte de Santa Catarina, morreu na madrugada desta quinta-feira (16), aos 73 anos.

Peninha morreu aos 73 anos na madrugada desta quinta-feira (16) – Foto: Divulgação/NDPeninha morreu aos 73 anos na madrugada desta quinta-feira (16) – Foto: Divulgação/ND

Segundo uma amiga do museólogo, Peninha tinha insuficiência respiratória e estava internado há mês no Hospital Unimed, em São José, tratando uma pneumonia.

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O catarinense, natural de São Pedro de Alcântara, foi assistente do mestre Franklin Cascaes por 12 anos. Atuou ao longo de toda a sua vida profissional como pesquisador e palestrante no MArqE/UFSC (Museu de Arqueologia e Etnologia Professor Oswaldo Rodrigues Cabra), onde foi também o diretor por mais de 15 anos.

O velório será realizado em São José, na Grande Florianópolis, na Igreja de Nossa Senhora Jesus dos Passos, das 11h às 15h30, quando sairá o cortejo para o sepultamento às 17h, no Cemitério Municipal de São José.

Grande contator de histórias

O Peninha é visto como um dos mais originais contadores de histórias da cultura local, além de ter sido um multiartista: também era pintor, escultor, dramaturgo, ator e criador de instalações urbanas, como o Presépio Natural e Artesanal da Praça XV de Novembro, no Centro de Florianópolis.

Como escritor, criou diversas lendas. A mais famosa é a do Baile das Bruxas em Itaguaçu: as icônicas pedras da praia no bairro de Coqueiros, na parte continental de Florianópolis, seriam bruxas que foram petrificadas por não terem convidado o diabo para a grande festa que promoveram ali.

A lenda integra o repertório cultural da região e também foi reconhecida pelo poder público. As “Pedras de Itaguaçu” foram tombadas como Patrimônio Natural, Paisagístico e Cultural do Município em 2014.

O livro de Peninha lançado em 2019, “Narrativas absurdas: verdades contadas por um mentiroso”, resgata a cultura local para a valorização da história de Santa Catarina.

Peninha com seu livro lançado em 2019 – Foto: Divulgação/NDPeninha com seu livro lançado em 2019 – Foto: Divulgação/ND

Em entrevista ao repórter do ND+, Diogo Souza, o autor descreveu a obra como “ingênua”, mas que veio para cumprir um papel de disseminação de uma riqueza que caminha para uma espécie de “ostracismo”.

“É um tesouro o que está guardado. É uma coisa que nos irrita, parece que estamos sonegando informações para nossa gente, para nossas escolas e para quem nos visita. O turismo pode ir além das paisagens. A paisagem logo se esquece, mas os aspectos culturais ficam na memória”, afirmou à época.

“Às vezes me angustia, parece que só eu sei isso, eu quero que isso seja compartilhado. Quero que outras pessoas saibam, que acessem esse conhecimento e o livro é modesto, é simples, mas prevê justamente instigar essas pessoas a ir além, pesquisar, conhecer e que seja útil para nossa gente, para nossas escolas”, acrescentou.

Homenagens

Diversos amigos e colegas prestaram homenagens ao Peninha logo no início desta quinta-feira. A presidente da Fundação Cultural de Florianóolis Franklin Cascaes, Roseli Pereira, publicou uma foto com ele e lamentou a perda: “nossa amigo Peninha dos deixa”.

“Hoje o céu está em festa, será presenteado com sua alegria e com nossas histórias. Fica nosso compromisso sem seguir seu legado”, completou Roseli.

A professora e amiga Isabel Orofino diz que a “tristeza é tanta que o cristão fica zonzo… Que perda! Ficamos órfãos”.

A UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) publicou uma nota de pesar, em que ressalta que a data coincidiu com o aniversário da morte de 40 anos do artista Franklin Cascaes, nesta quarta-feira (15).

No texto, a universidade cita a historiadora Elizabeth Neves Pires, que  relembra o pioneirismo do artista ao trabalhar pela capacitação dos trabalhadores de museus.

“O curso de Museologia da UFSC também faz parte dessa história. Muitos dos trabalhadores de museus eram pessoas leigas e lutamos para a criação do curso”, recorda ela, que esteve com Peninha dias antes de sua morte.

“Aprendi muito com ele. A humildade que ele tinha e a vontade de repassar o conhecimento sempre foram exemplo. Na UFSC, a montagem dos presépios na frente do Museu fez parte dessa história”, conta a amiga.

Formado em História pela UFSC e especialista em Museu, Educação e Artes pela Universidade de São Paulo, trabalhava com oficinas para manter viva a cultura do Boi de Mamão, além de promover palestras sobre a cultura açoriana.

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