Por mais que se queira tentar, é inimaginável saber como se sente uma mãe que acaba de perder um filho. É algo que foge à ordem natural das coisas. E foi para acolher a dor de mães enlutadas que uma delas criou um projeto especial em Joinville, no Norte de Santa Catarina.
Alícia tinha cinco anos e viajava para comemorar o aniversário da avó – Foto: InternetHá cerca de um mês, a jornalista Michelle Bindemann sente algo que nunca imaginou viver. No dia 19 de dezembro, ela e a família viajavam pela BR-280, em Rio Negrinho, quando um motorista embriagado invadiu a pista contrária e causou um grave acidente.
A pequena Alicia Bindemann Carini, filha de Michelle, chegou a ser encaminhada ao hospital, mas não resistiu aos graves ferimentos e morreu na Fundação Hospitalar de Rio Negrinho, onde foi levada pelos bombeiros em estado grave após a colisão. A mãe esteve com ela o tempo todo.
SeguirA inimaginável dor de perder um filho
“Nos primeiros dias eu só queria ir embora com a Alicia. Tanto que, quando voltei do enterro, pensei que precisava falar com mães que sobreviveram a essa dor, que perderam filhos e estão vivas para ver que eu também posso”, relembra Michelle.
O encontro com outras mães que viveram um luto como esse tem mantido a jornalista em pé. “Através de muitas mães maravilhosas que eu encontrei e que têm me ajudado eu fui me mantendo em pé e percebendo que o caminho está no amor, em ajudar outras mães”, destaca.
E este caminho do amor foi colocado em prática com a criação do projeto “Por você, Alícia”, uma homenagem à filha, que pretende ajudar mães enlutadas e trabalhar na conscientização em relação ao ato de beber e dirigir, prática que causou o acidente.
Michelle tem transformado a dor de perder a filha em amor – Foto: Jonathan Rocha/NDTVPara Michelle, um dos momentos mais difíceis do acidente foi a liberação dos veículos envolvidos. No dela, havia pão de queijo e suco de tangerina, o preferido da filha, preparados especialmente para a viagem. No outro carro, havia uma térmica cheia de bebidas alcóolicas.
“Se eu puder evitar que uma pessoa dirija alcoolizada, eu já estou fazendo a diferença. Eu não encontrava motivos para estar viva, então, se eu puder melhorar alguma coisinha nesse mundo em nome da minha filha, está valendo a pena estar aqui”, destaca.
O motorista que causou o acidente segue preso e virou réu na Justiça. Além de Alícia, o veterinário Fernando Martins de Albuquerque, de 34 anos, que era passageiro do veículo com o condutor embriagado, morreu após oito dias internado.
“Ele precisa continuar preso porque as leis precisam ser cumpridas em relação à direção e álcool. Depois que isso aconteceu comigo, eu tenho visto o quanto isso acontece, quantas pessoas são arrancadas de suas famílias”, lamenta Michelle.
Transformando dor em amor
Além de auxiliar mães enlutadas, o projeto “Por você, Alícia” também abrange outras ações. Uma delas, aliás, tem tido grande repercussão e envolve uma das coisas pelas quais Alícia estava ansiosa: a compra do material escolar.
A menina estava alegre, pois ganharia uma mochila neste ano. Até por isso, Michelle não conseguia nem pensar em lidar com algo que envolvia uma emoção tão grande. Isso mudou, no entanto, quando uma amiga fez uma proposta.
“Ela falou que tinha pensado em arrecadar mochilas e material escolar para as crianças, já que o filhinho dela ia estudar com a minha filha e, para ela, também estava sendo difícil”, conta Michelle. Foi quando nasceu a primeira ação prática do projeto.
Michelle e as amigas estão arrecadando mochilas e materiais para ajudar crianças que não teriam condições de comprá-los. “São do jeito que elas gostam, com personagem, para que elas possam ter prazer nisso, o prazer que a Alícia tinha com o material dela também”, destaca.
Projeto arrecada mochilas e materiais escolares que serão doados a crianças – Foto: Jonathan Rocha/NDTVA ideia era arrecadar apenas cinco kits, mas a ação está fazendo sucesso. “Assim como eu tenho a ideia de fazer uma ou duas pessoas não dirigirem alcoolizadas, eu tinha a ideia de cinco crianças, mas está tomando uma proporção muito grande”, comemora Michelle.
E o sucesso do projeto também acalenta o coração: “era até estranho estar feliz um mês depois do acidente porque a minha vida tinha acabado. E eu percebi que era esse o caminho, que fazer o bem é o que me mantinha em pé”, ressalta.
Quem quiser doar mochilas e materiais escolares, pode procurar o projeto por meio da página no Instagram, onde há todos os dados sobre como ajudar. Além dessa campanha, Michelle pretende colocar outras em prática e seguir transformando a dor em amor.
*Com informações de Tábata Porti, repórter da NDTV Joinville.