Mãe reencontra filha 41 anos depois em SC; assista esse momento

Após desencontros, Leonilda pôde finalmente abraçar a filha que deixou ainda bebê no Paraná para tentar uma vida melhor no Nordeste

Luana Amorim Joinville

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Imagina você olhar durante toda sua vida para um espelho com a esperança de encontrar alguma pista que possa dizer quem você é. Foi assim a rotina de Patrícia dos Santos Domanski Dumin, moradora de Guarapuava, no Paraná, durante 41 anos.

Há 289 km dali, outra mulher também vivia um drama parecido. Sempre com muita fé e esperança, Leonilda Gonçalves, de 61 anos, percorreu cidades e bateu na casa de dezenas de pessoas com o intuito de encontrar a filha que teve que deixar para trás ao tentar uma vida melhor no Nordeste.

Mãe e filha se reencontraram em fevereiro Mãe e filha se reencontraram em fevereiro deste ano após 41 anos separadas – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Duas histórias que cresceram distantes, mas que, anos depois, se uniram: Leonilda finalmente conseguiu abraçar a filha, Patrícia, em fevereiro deste ano após décadas de sofrimento.

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Mas, antes de contar como foi esse reencontro, vamos viajar no tempo até os anos de 1970 para entender como toda essa história começou.

A busca por uma vida melhor separa uma família

Leonilda morava com os pais na cidade de Mallet, no Paraná, quando conheceu o marido aos 16 anos. Logo, os dois engataram um namoro e, depois de um ano, se casaram e foram morar em São Mateus do Sul, onde engravidou e teve Patrícia.

Um mês depois do nascimento da criança, o marido de Leonilda foi transferido para trabalhar em uma empresa de petróleo em Guarapuava.

“Lá nos alugamos uma casa de dois cômodos, só para poder ficar com ela enquanto ele trabalhava. Na época eu já tinha 18 anos”, relembra.

O casal permaneceu no local durante três meses até que uma notícia apareceu para mudar a vida da família: “os donos da empresa ofereceram a oportunidade para que meu marido fosse trabalhar em outro lugar no Sergipe. Mas eles disseram que não poderia levar a criança junto”, conta Leonilda.

A partir daí começou o drama que acompanharia a mulher durante toda a vida. Como os pais dela também não podiam ficar com a criança e por medo de não conseguir garantir uma boa condição de vida à filha, Leonilda entregou a pequena Patrícia aos cuidados dos donos da casa em que moravam.

“Meu marido disse que ia ser muito sofrido, mas era melhor que ela ficasse com o casal porque eles iam cuidar bem dela. Além disso, eles me disseram que, quando eu voltasse, eu poderia visitar minha filha. No momento, eu chorei muito e fiquei com o coração partido”, conta.

O casal foi levado até o cartório da cidade onde assinou os papéis e oficializaram a adoção. Leonilda e o marido, então, partiram para o Sergipe, onde passaram cerca de dois anos. Lá, ela engravidou de outra menina, motivo pelo qual o homem acabou perdendo o emprego.

Para sobreviver, ambos passaram a procurar empregos em outros Estado, como Rio de Janeiro e São Paulo. Foram anos de procura, enquanto juntavam dinheiro para retornar à Guarapuava. Afinal, apesar da distância, Leonilda nunca deixou de pensar na filha por um segundo.

Anos se passaram, até que ela finalmente foi até a cidade paranaense para encontrar a menina. Porém, a notícia que esperava não chegou da forma que ela queria.

“Fomos até o endereço antigo, porém, ao chegar na casa, eles não estavam mais lá. Procuramos em outros lugares, outras casas, mas não conseguimos encontrar ela. Nós sofremos muito na vida”, relembra.

Depois disso, Leonilda se mudou com a família para Canoinhas, no Planalto Norte catarinense. Mesmo assim, ela não desistiu do sonho de um dia reencontrar a filha.

Foto de Patrícia quando ela era criança – Foto: Arquivo PessoalFoto de Patrícia quando ela era criança – Foto: Arquivo Pessoal

Enquanto isso, no outro lado da cidade…

Enquanto a mãe percorria quilômetros atrás dela, do outro lado de Guarapuava, Patrícia crescia com a família adotiva. Ela  conta que só soube que era adotada quando tinha 14 anos, após uma conversa com a mãe.

“Quando eu era a criança, os meus amigos diziam que eu era adotiva ao brincar com eles na rua. Eu entrava dentro de casa chorando e perguntava para minha mãe sobre isso, mas ela dizia que eles estavam sendo bobões. Porém, aos 14 anos, ela resolveu me contar a verdade”, conta.

Em um primeiro momento, ela achou não ser verdade, mas, depois, o assunto passou a martelar na cabeça dela. “Eu ficava imaginando como era ela. Não contava para ninguém, mas ficava na frente do espelho e tentando ver o rosto da minha mãe”, afirma.

Com os anos, a angústia e o desejo de conhecer a mãe verdadeira foram crescendo no coração de Patrícia, que passou a fazer as próprias buscas: ela começou a bater de porta em porta na casa de moradores de cidades próximas, foi a cartórios e tentou de todas as formas saber alguma notícia da mãe.

“Eu nunca tive raiva, nem problema de ser rejeitada, porque eu sabia que alguma coisa tinha acontecido”, conta.

41 anos depois, o primeiro encontro

Meses, anos e décadas foram passando. Mãe e filha continuavam fazenod buscas paralelas, mas sem sucesso.

“Eu procurava ela em todo o lugar e ninguém sabia dela. Mas meu filho dizia para eu ter esperança, que uma hora a gente ia se encontrar. O que eu sempre quis era ter todos os meus filhos por perto.”

“Eu não queria morrer sem encontrar ela”, recorda Leonilda.

Enquanto isso, Patrícia passou a fazer buscas na internet, além de mandar cartas para emissoras de TV pedindo ajuda para localizar a mãe. Ela conta que chegou a ter depressão, tamanha a angústia para conhecer Leonilda.

“Mas eu sempre pensava: na hora certa, vou achar ela”, conta.

E a hora chegou: em janeiro deste ano Patrícia fez um cadastro em um site que ajuda na busca de pessoas desaparecidas. Em poucos dias, um dos integrantes entrou em contato dizendo que tinha encontrado a família dela.

“Nesse momento, eu comecei a conversar com as minhas irmãs, onde elas me contaram toda a história e que ela também estava me procurando. Foi tudo muito emocionante, tanto que fiquei ainda mais nervosa, porque tinha medo de não conseguir encontrá-la”, diz.

Do outro lado, Leonilda estava em êxtase e contando os dias para reencontrar a filha.

Com a ajuda da equipe da Record TV, o encontro entre mãe e filha ocorreu no fim de fevereiro na cidade de Jaraguá do Sul, no Norte de Santa Catarina, onde uma das filhas de Leonilda mora.

Família toda reunida depois do reencontro em Jaraguá do Sul – Foto: Arquivo PessoalFamília toda reunida depois do reencontro em Jaraguá do Sul – Foto: Arquivo Pessoal

“De repente, ela estava lá. Ela é muito linda, a emoção foi muito grande. Ela disse que não tinha o que me perdoar e que tudo que ela queria era conhecer os pais verdadeiros. Naquele momento todo o sofrimento acabou e, agora, eu só sinto muita alegria no meu coração”, conta Leonilda.

A mesma emoção também é compartilhada por Patrícia: “foi emocionante. Eu estava preocupada com a reação da minha mãe, das minhas irmãs, se elas iam gostar de mim. Então, quando eu cheguei lá foi bem muito gratificante. Elas são do jeito que eu imaginava”.

Novo encontro marcado para maio

Depois do encontro, mãe e filha retornaram para suas cidades – Canoinhas e Guarapuava -, mas nem por isso deixaram de manter contato. As duas conversam todos os dias por celular e já deixaram um próximo encontro agendado, que deve ocorrer em maio.

“Em maio eu devo ir para Canoinhas para ficar uns dias com ela. Além disso, também quero ir até lá para conhecer meu pai, que ainda não pude ver pessoalmente”, conta Patrícia que, inclusive, tem planos de se mudar com toda a família para perto da mãe.

Leonilda, inclusive, não esconde a ansiedade para poder apertar a filha mais uma vez: “tudo que eu quero é abraçar ela para sempre. Eu estou muito feliz de, finalmente, ter a minha família toda comigo”.

Depois de anos de angústia, as duas finalmente puderam continuar a vida juntas. Por isso, elas deixam um recado importante para quem também está em busca de algum familiar:

“As pessoas que têm seus filhos e não os encontraram, não percam as esperanças porque, se Deus quiser, ele vai ajudar você assim como me ajudou” – Leonilda.

“Eu gostaria de dizer a todos que estão procurando alguém que nunca desistam. A fé move montanhas, se a pessoa tem fé, ela não desanima e, mesmo que dure anos e anos, uma hora vai chegar” – Patrícia.

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