Maternidade adotiva, franca e transparente

Maria Beatriz Wildi Vinhaes Mendes fala sobre o sentimento de ser mãe e por que nunca escondeu a adoção das filhas

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Dois anos após casar com o primeiro marido, ela soube que não teria filhos biológicos. Logo, eles se entusiasmaram com a ideia de adotar.

Primeiro, veio a Roberta, que, em 11 dias, “virou anjinho”. Em seguida, a Maria Fernanda, com 36 horas de nascida, e, um ano e 11 meses depois, a Maria Eduarda, com quatro dias de vida.

Era década de 1970, e adoção um tabu a ser quebrado. Ao contrário do comum na época, Maria Beatriz Wildi Vinhaes Mendes nunca escondeu a verdade das filhas, desde que elas eram bebês.

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Quando as meninas já estavam na adolescência (Maria Fernanda, com 16, e Maria Eduarda, com 14), ela se uniu a Nelson Fernando Mendes (falecido em 2019), também vindo de um casamento desfeito. Foi mais uma feliz experiência de acolhimento, um nova família.

Hoje, Maria Fernanda, 45 anos, é analista de sistema, mãe de Luís Guilherme, de 10 anos, e mora em Florianópolis. Maria Eduarda, 43 anos, é administradora, casada com Carlos Alexandre Rossi de Oliveira, mãe de Carlos Eduardo, de três anos, e vive em Niterói (RJ).

Maria Beatriz e Nelson entre Maria Fernanda (à esq.), com o filho, Luís Guilherme, e Maria Eduarda, com o filho, Carlos Eduardo, e o marido, Carlos Alexandre Rossi de Oliveira, no Natal de 2018 – Foto: Divulgação/NDMaria Beatriz e Nelson entre Maria Fernanda (à esq.), com o filho, Luís Guilherme, e Maria Eduarda, com o filho, Carlos Eduardo, e o marido, Carlos Alexandre Rossi de Oliveira, no Natal de 2018 – Foto: Divulgação/ND

A decisão de adotar foi rápida?

Desde que procurei engravidar e não consegui, eu e meu então marido, Mario, sempre tivemos a clara e tranquila ideia da adoção. Conversando com os amigos e compadres Edy e Manoel Barros, ficávamos cada vez mais entusiasmados em sermos pais. A demora deveu-se à insistência do meu médico, doutor Milton Nakamura, de que eu logo engravidaria.

Tiveste convivência ou proximidade com pais e/ou filhos adotivos antes de adotares as meninas? Passavam dúvidas pela tua cabeça?

Não tive convivência estreita com pais adotivos. Na década de 1970, este assunto ainda era meio tabu, coisa que sempre achei incompreensível. Quem adota é porque quer muito ser pai e mãe. Isto deve ser louvado, e não escondido.

O trâmite para adoção costuma demorar. As tuas esperas foram grandes?

A demora, num país com tantas crianças necessitadas de um lar, é inaceitável, o que, infelizmente, atrapalha e desestimula a adoção. Nos anos de 1970, quando adotei as meninas, o mais comum era a “adoção à brasileira”, isto é, registrar a criança como filho biológico.

Quando viste cada uma delas pela primeira vez, o que te deu a certeza de serem tuas filhas?

Adotamos uma linda bebezinha, a quem demos o nome de Roberta, que era como se chamava meu pai, falecido quando eu tinha apenas um mês de idade. Quando me trouxeram a Roberta, e eu a tive no colo, tive certeza de que ela tinha nascido de mim, da minha vontade, do meu amor, do meu desejo de ser mãe. O mesmo aconteceu quando tive Maria Fernanda e Maria Eduarda pela primeira vez nos meus braços.

Maria Beatriz Wildi Vinhaes Mendes entre as filhas, Maria Fernanda (à esq.) e Maria Eduarda – Foto: Divulgação/NDMaria Beatriz Wildi Vinhaes Mendes entre as filhas, Maria Fernanda (à esq.) e Maria Eduarda – Foto: Divulgação/ND

Tuas filhas souberam bem cedo que foram adotadas. Por que esta transparência numa época em que o comum era esconder?

Eu jamais poderia conviver com uma mentira entre minhas filhas e eu. E, principalmente, para mim, filhos são gerados não só na barriga, mas na mente, no coração, na imensa vontade de ser mãe e pai. Esta é a verdadeira paternidade, tendo a criança sido gerada no útero ou não.

Alguém se posicionou contrariamente a esta postura?

Ninguém.

Como as filhas reagiram ao compreenderem e, depois, cresceram cientes da verdade?

Desde bebês, eu sempre aconchegava minhas filhas e dizia: “A mamãe não pôde ter da barriga, e teve do coração, e isto é o mais importante, porque da barriga a mamãe poderia ter tido vocês sem querer. Do coração, vocês vieram porque a mamãe e o papai queriam muito”. Desta forma, elas se acostumaram a ouvir, e eu a dizer, o que é a absoluta verdade.

A criança sente quando tu dizes para ela o que realmente pensas e vivencias. Só depende dos pais a maneira como as crianças recebem a forma pela qual chegaram na família. Falar e transmitir a verdade molda a criação e a formação dos filhos. As minhas filhas nunca tiveram o menor interesse em saber sobre “sua família, sua história”, pois sua família somos nós, e sua história é a nossa. Elas chegam a achar ridículo quando se fala em filhos adotivos que foram atrás de “suas histórias”.

Da esq. para dir.: Maria Fernanda, Maria Eduarda, Carlos Eduardo, Luís Guilherme e Maria Beatriz, as três gerações – Foto: Divulgação/NDDa esq. para dir.: Maria Fernanda, Maria Eduarda, Carlos Eduardo, Luís Guilherme e Maria Beatriz, as três gerações – Foto: Divulgação/ND

Tu e as meninas acolheram o Nelson como marido e pai, assim como ele as recebeu como mulher e filhas. É uma família em que os membros se adotaram mutuamente por diferentes lados. Isto não é fantástico?

Isto é fantástico mesmo, o que demonstra claramente que amor, afinidade, compartilhamento, respeito, independem dos valorizadíssimos “laços de sangue”.

Elas incentivaram o casamento de vocês?

Elas não só incentivaram como também torceram com todo o entusiasmo, da mesma forma que torceram e incentivaram todos os nossos amigos mais próximos.

Dizem que filhos adotivos também adquirem traços físicos dos pais. Vês semelhanças entre vocês e elas?

Minha filha mais velha, Maria Fernanda, é parecidíssima com minha irmã, Maria Silvia. Maria Eduarda se parece demais com minha avó, Maria Wildi, tanto fisicamente, quanto de temperamento, postura… E o mais interessante é que muitos achavam Luís Guilherme parecido com o Nelson, que não era seu avô “biológico”, mas com quem o menino teve a felicidade de conviver por oito anos. Avô e neto desenvolveram uma relação onde o imenso amor e o carinho eram lindos de compartilhar.

Maria Beatriz e Nelson Fernando Mendes com o primeiro neto, Luís Guilherme – Foto: Divulgação/NDMaria Beatriz e Nelson Fernando Mendes com o primeiro neto, Luís Guilherme – Foto: Divulgação/ND

Hoje existe campanha para a adoção tardia, de crianças maiores e adolescentes. Na época, consideraste a possibilidade de adotar crianças mais crescidas?

Na época, não cogitei. Não havia a campanha, e as crianças em geral eram adotadas bebês.

O que há de melhor em ser mãe?

Difícil, muito difícil fugir do lugar comum, pois tudo já foi dito sobre a beleza da maternidade. Para mim, ser mãe é tão vital, tão profundo e tão natural quanto  respirar. É o que me mantém, o que dá sentido à minha vida.