O setor cultural ainda é um campo de batalha quando o assunto é equidade de gênero. A diferença salarial entre homens e mulheres, por exemplo, é maior do que em outros campos profissionais. A estimativa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é que elas ganhem em média 35% a menos que eles, para exercer a mesma função no Brasil. Pensando nisso, artistas catarinenses criaram uma ferramenta para dar visibilidade ao trabalho e ao talento das mulheres em Santa Catarina.
A habilidade como instrumentista já levou Renata Oliveira para uma infinidade de palcos. Professora, mestre, com experiências dentro e fora do Brasil, a paixão dela pela música ultrapassou as fronteiras do passatempo ainda na infância.
“ Sou professora de música, de violão e violoncelo. Sou instrumentista, trabalho como intérprete. Na área da composição, compus um espetáculo de sombras, onde eu compus a história e a música. Já trabalhei com diversos grupos, com orquestras, com grupos de diferentes formações, com trilhas também. Para mim, a música são essas linguagens interagindo”, disse Renata.
Renata Oliveira é professora e mestre, com experiências dentro e fora do Brasil – Foto: Reprodução/NDTV RecordTVApesar do profissionalismo, a musicista não é excluída de uma realidade imposta no meio musical. “ Existem já mulheres fazendo há muito tempo as mesmas coisas que os homens na área da música em específico, sendo maestrinas, sendo compositoras, instrumentistas, cantoras, só que realmente na hora da contratação, na hora de chamar essas mulheres para fazer esses trabalhos, infelizmente tem essa diferenciação. Não somos chamadas da mesma forma que os homens”, revelou.
Historicamente, é como se a desigualdade, pouco a pouco, silenciasse talentos. Mundo afora, os cargos mais importantes como de ministro da cultura, são majoritariamente ocupados por homens. Na Europa, apenas um a cada 5 filmes é dirigido por mulheres. E nos palcos, conquistar um lugar de destaque, é uma jornada que depende de muitas variáveis, além do talento. Mesmo quando ele é verdadeiramente inquestionável.
Iva Giracca, que é spalla da Camerata Florianópolis, contou que só percebeu essa diferença de tratamento entre homens e mulheres quando entrou no mercado de trabalho: “Na criação que eu tive nunca teve essa essa diferenciação. Eu não via isso como uma coisa sexista, até o momento que eu entrei no mercado de trabalho e vi que existia isso. Para mim aquilo era muito estranho, porque para tocar violino a gente precisa ter os braços funcionando bem e eu tinha os dois funcionando bem. Então, por quê? Qual era essa diferença? ”
Iva não ficou no questionamento. Levou a sério o talento que descobriu aos 4 anos. Aos 12 anos, ela já dava aulas de violino. Estudou. Se preparou. E ocupou todos os espaços que pôde. Da banda de rock, ao palco de um dos maiores festivais de música do mundo, o Rock in Rio. Hoje, não há nada que a ofusque. Na Camerata de Florianópolis, a violinista é a primeira mulher no cargo de spalla, o mais importante entre os músicos.
Na Camerata de Florianópolis, a violinista Iva Giracca é a primeira mulher no cargo de spalla – Foto: Reproduçã/NDTV RecordTV“O meu papel é mostrar para as pessoas o quanto elas ainda podem, o quanto mais elas podem se doar, fazer o que elas têm de melhor, identificar qual é o seu melhor ponto e fazer disso o trampolim para a vida”, disse Iva.
O incentivo não fica no discurso. Enquanto a pandemia limita os encontros, eventos e apresentações, vem da internet uma ferramenta para fortalecer as artistas catarinenses. Uma iniciativa de mulheres para mulheres, o portal Elas Por Elas é um grande acervo virtual, que busca tirar da invisibilidade trabalhos e talentos de todo o Estado.
Segundo a idealizadora do projeto, Tatiana Cobbett, “a ideia é que a mulher possa, de próprio punho, se inscrever no portal e ali contar o seu histórico, dizer de onde é, o que está fazendo, o seu nome, colocar os seus links. E a gente, então, começar a recolher esses dados e, a partir disso, construir esse mapeamento e juntas quebrar essa inivisibilidade”.
Iniciativa é inédita no Brasil e já começa a promover descobertas – Foto: Reprodução/NDTV RecordTVUm território que cataloga, reúne, apresenta e aproxima, o portal quer levantar dados cartográficos de artistas a partir de três categorias: cultura popular, música contemporânea e música erudita. O cadastro é de graça, para mulheres, nascidas ou não no Estado, mas que atuem na cena catarinense. A iniciativa já tem mais de 200 artistas inscritas, e no ano passado, foi premiada pela Fundação Catarinense de Cultura.
“Qualificando também essa mulher profissional da música catarinense, dando a ela esse lugar que ela tem de importância e de força fazedora de arte e cultura dentro do nosso Estado”, disse Tatiana.
A iniciativa é inédita no Brasil e já começa a promover descobertas e aproximar talentos, para um coro afinado pela mesma causa: não deixar mulher alguma, sem a oportunidade de brilhar.
Para a cantora Elô Gonzaga, portal aproxima as artistas – Foto: Reprodução/NDTV RecordTV“ Principalmente essas mulheres que estão buscando esse lugar de poder mostrar o seu trabalho. Acho que é muito importante a gente poder ter esse conhecimento de uma colega que está produzindo algo ou compondo alguma canção que eu possa interpretar em algum momento. Com certeza é nesse conhecimento, nessa cartografia dessas mulheres no estado de Santa Catarina ”, explicou a cantora Elô Gonzaga.
No poder da representatividade, nasce um palco do tamanho do Estado inteiro, com lugar pra todas e uma mensagem para quem quiser ouvir.
Saiba mais sobre essa iniciativa na reportagem do Balanço Geral Florianópolis!