Mulheres pretas recebem 30% a menos em SC: por que precisamos falar sobre as conquistas delas?

No dia da Consciência Negra, dados mostram que a igualdade ainda está longe de ser alcançada, mas há atitudes que podem mudar esse cenário

Redação ND Florianópolis

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Em Santa Catarina, mulheres pretas recebem 30% a menos do que mulheres brancas. Enquanto o rendimento médio mensal domiciliar de uma mulher preta é de R$ 1.207, o de uma mulher branca é de R$ 1.719, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) referentes a 2021.

Diante desse cenário de desigualdade, destacar as conquistas das mulheres pretas torna-se ainda mais necessário para a mudança e traz uma reflexão para o Dia da Consciência Negra, celebrado neste domingo (20). O tema foi debatido no podcast aDiversa que foi ao ar na última sexta-feira (18).

Destacar as conquistas das mulheres pretas torna-se necessário e traz uma reflexão para o Dia da Consciência Negra – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil/NDDestacar as conquistas das mulheres pretas torna-se necessário e traz uma reflexão para o Dia da Consciência Negra – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil/ND

Participaram do episódio Fernanda Quadros, psicóloga e diretora de sustentabilidade e diversidade na Associação Brasileira de Recursos Humanos de Santa Catarina e Cauane Maia, doutoranda em Antropologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e vocalista e compositora do grupo Cores de Aidê.

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Fabio Garcia, doutorando em Educação pela UFSC e editor da editora Cruz e Souza, com foco na preservação e promoção da temática étnico-racial no Sul do Brasil, traz a perspectiva masculina ao tema. Ouça abaixo:

Valorização da história e desconstrução de rótulos

Cauane Maia diz que a celebração do Dia da Consciência Negra não deve ficar restrita à valorização da história atual do povo negro.

“A história da população negra antecede o período da escravidão. Essa população dominava a ciência, a tecnologia e a nobreza. Essa história anterior à diáspora africana precisa estar nas bases, nas escolas, organizações e espaços de produção de saber. Comemoramos hoje algumas conquistas importantes que tivemos, sobretudo, capitaneadas por movimentos de mulheres negras”.

Há uma correlação direta entre a escravidão e os desafios que as pessoas pretas enfrentam até hoje. Uma realidade que é ainda mais difícil para a mulher, ainda atrelada à posição de subserviência e a subempregos.

“Nossos corpos são vistos em lugares de subemprego, em situação de vulnerabilidade ou como mulatas do carnaval. O corpo preto pode assumir esses três papéis, mas nunca é visto em sua integridade e complexidade. São rótulos que funcionam como instrumento de dominação e são extremamente danosos para nossa própria mobilidade social. Temos um movimento engajado para romper com essa lógica”, apontou Cauane.

Mudança nas empresas

Um levantamento feito por uma empresa de consultoria especializada em diversidade apontou que as mulheres pretas ocupam apenas 3% dos cargos de liderança em organizações no Brasil. O número é extremamente baixo, considerando que elas representam 27,8% da população.

Fernanda ressalta como é importante que as empresas criem cargos ligados à promoção da diversidade e inclusão.

“Existem nas empresas cargos de diretoria de diversidade. Hoje, temos esses cargos para que um dia não seja mais necessário e a inclusão vire cotidiano. As empresas precisam trazer para o dia a dia a diversidade e a inclusão. Além disso há nas empresas os chamados grupos de afinidade, em que pessoas de determinados grupos se reúnem para trocas e reflexões. As empresas precisam estar atentas a isso”, diz.

No entanto, a psicóloga revela que em Santa Catarina ainda não se fala muito em representatividade de pessoas pretas e é preciso evoluir nesse quesito. Ela acredita que o primeiro passo para praticar a inclusão nas empresas e ampliar a diversidade é investir em um setor de recursos humanos representativo.

Fernanda destaca que campanhas de marketing, por exemplo, já trazem essa diversidade. Contudo, é preciso ir além.

“Se você olhar dentro do quadro funcional da empresa, a base da pirâmide é preta, mas o topo, não. Quantas mulheres pretas há em um conselho ou diretoria? [Mulheres pretas] que tomam decisões ou estão em cargos de liderança? É importante que as empresas comecem a fazer um censo e pensem na carreira da mulher preta”, aponta.

Educação mais diversa

Para Fabio, o cenário só vai mudar a partir do momento em que a educação for mais diversa, ensinando a história da população preta e exaltando suas conquistas. Dessa maneira é possível mudar a mentalidade de quem ocupa as posições de poder.

“A desigualdade salarial entre brancos e negros, por exemplo, é um fato. Mas qual é a minha ação como empresário? Eu tenho escolhas, vou reproduzir práticas abusivas ou mais igualitárias?”, questionou.

Segundo o historiador, o Brasil precisa respeitar os momentos históricos, sobretudo a contribuição da população de origem africana na construção do país. “Quando dizemos que ‘um negro carrega um navio negreiro nas costas’ não quer dizer somente um legado de dor, mas de luta. Faz toda a diferença hoje um grupo de mulheres pretas conscientes de seu papel na sociedade”, diz.

Elas atravessaram a barreira do preconceito

Edenice Fraga, tenente-coronel da reserva da PMSC (Polícia Militar de Santa Catarina) e poeta, coleciona homenagens ao longo de uma carreira de currículo extenso. Contudo, ela não passou ilesa pelo racismo.

“Quando se está em um cargo de chefia, ainda existem pessoas que não admitem uma chefia de pessoa negra”, revela.

Já em outra área, Elisa Freitas tem hoje o rosto estampado em várias campanhas publicitárias por todo o Estado. Já foi rainha, miss e hoje divide a apertada agenda com os compromissos de empreendedora, já que tem uma marca social com a irmã Ro Freitas. Como modelo profissional, ela se reinventou na pandemia e passou a ser uma das mais procuradas no segmento.

“Fui contratada por uma empresa aqui em Florianópolis e eu tive uma experiência bem bacana de estar eu mesma fazendo produções com marcas dessa empresa”, conta a produtora de moda.

A modelo Elisa Freitas – Foto: Natália Vieira/Divulgação/NDA modelo Elisa Freitas – Foto: Natália Vieira/Divulgação/ND

Histórias de ascensão mesmo diante das dificuldades como a da coronel Edenice e da Elisa ainda são casos isolados. São alguns exemplos de mulheres pretas que atravessaram a barreira do preconceito e venceram dificuldades.

No país, as portas vêm se abrindo ao longo dos últimos anos no mercado de trabalho, mas os dados mostram que ainda há um longo caminho para chegar à igualdade.

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