O TEA (Transtorno do Espectro Autista), ou simplesmente Autismo, é um distúrbio do neurodesenvolvimento caracterizado por manifestações comportamentais, déficits na comunicação e interação social, que podem apresentar um repertório restrito de interesses e atividades, conforme explica Jessica Abreu, fonoaudióloga e especialista em autismo.
O produtor executivo Nelson Félix e a pedagoga Francianne Brigido descobriram que o filho Augusto Brigido Félix, hoje com quase 7 anos, foi diagnosticado com autismo aos 2 anos e 4 meses. Por se tratar de características consideradas, por muitas vezes, silenciosas, atividades cotidianas podem ser desafiadoras.
Nelson Félix e Francianne Brigido descobriram que Augusto tinha autismo com 2 anos e 4 meses — Foto: Rose Sardá/Arquivo Pessoal/NDSituação desagradável no ônibus
O cobrador de ônibus, José Roberto Buratto, fazia a linha 160 do Morro da Cruz sentido bairro-Centro, presenciou uma discussão sobre o assento ocupado por Augusto Félix que estava sentado na frente com Tânia, sua avó.
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Os assentos preferenciais estão indicados com adesivos informativos — Foto: Bruno Benetti/Arquivo Pessoal/NDBuratto diz que a passageira, que era idosa, queria que “a criança sentasse no colo da senhora para ela ter lugar”. Como a passageira tinha carteirinha, tinha a opção de passar para trás, mas não quis.
“Expliquei a situação, mas ela não concordou porque queria sentar na frente”, disse. Foi quando começou um bate-boca entre a senhoras.
Treinamento dos funcionários
Em contato com a reportagem do ND+, a assessoria da Secretaria de Mobilidade da Prefeitura de Florianópolis disse que todos motoristas e cobradores contratados passam por um treinamento onde são explicadas todas as prioridades e que anualmente passam por treinamento quando voltam de férias.
Transporte coletivo de Florianópolis — Foto: Ian Sell/NDDentro de todos os coletivos, a assessoria explica que “assentos preferenciais estão indicados com adesivos informativos”.
A assessoria da Secretaria de Mobilidade afirma ainda que os colaboradores são orientados a informar as pessoas com prioridade que passem a catraca, caso todos os assentos prioritários estejam ocupados.
Caso haja situações de bate-boca entre passageiros, a assessoria afirma que os funcionários são “indicados a orientar os passageiros sobre as prioridades”, assim como fez Buratto.
Carteira de Identificação
Em Santa Catarina, uma das bases de dados que oferece o panorama da doença é a Carteira de Identificação do Autista, expedida pela FCEE (Federação Catarinense de Educação Especial). De fevereiro de 2020, quando foi lançada até junho de 2022, 5.090 pessoas com TEA já foram beneficiadas com o documento.
Em 236 instituições especializadas e credenciadas à FCEE são atendidas 8.857 pessoas com autismo, sendo 2.684 alunos de até 5 anos; 4.627 entre 6 e 7 anos; e 1.546 acima de 18 anos.
Conforme a Lei n. 17.754/2019, instituída pelo governador de Santa Catarina, Carlos Moisés, as pessoas com autismo têm direito à gratuidade no transporte intermunicipal de passageiros.
Outros episódios
Félix relata uma situação que ocorreu com Augusto em um parque de Florianópolis. O pai conta que o filho viu uma criança com um brinquedo e achou que também pudesse pegar o brinquedo como se fosse dele.
O garoto foi onde estava o patinete e a mãe da criança estava do lado. Félix afirma que o filho pegou e saiu correndo pelo parque feliz, pois tinha conseguido pegar o patinete e brincar.
Félix conta que costuma explicar ao filho que precisa pedir permissão para brincar com o que não é seu. No entanto, em algumas situações, o TEA pode deixar o menino nervoso. “É difícil para ele entender que o brinquedo não é dele e que ele tem que pedir”, pontua.
Na hora de repreendê-lo, não deu tempo de falar como sempre fala com o filho. A mãe do outro garoto viu e começou a brigar com Augusto. “Não é assim. você tem que pedir. Que falta de educação é essa?”, disse.
Como estava com uma identificação de autismo por causa do filho, o pai se aproximou da situação e pensou em explicar a situação para a mulher, mas decidiu por pegar a mão de Augusto e explicar que ele não poderia fazer aquilo. O jovem e o pai devolveram o patinete e pediram desculpas pelo ocorrido.
Apesar do gesto, Félix conta que a senhora ficou braba e nervosa. Por conta da situação, ele se retirou do parque com o menino para não ter mais transtornos. “A gente educa da mesma maneira que qualquer criança seria educada, mas a maneira como ele recebe isso é diferente”.
Isolamento na escola
Nelson Félix conta que buscou o menino e, por três vezes, percebeu o filho isolado da turma que estava com a professora e a auxiliar. Comentou a situação em casa com a esposa e foram à escola para entender o que estava ocorrendo. Segundo Félix, não houve argumentos para a situação e eles o tiraram da escola.
“A gente fica muito em cima disso. Faz os exercícios em casa com ele e fica muito feliz quando as professoras fazem atividades adaptadas. Ele explica que o filho tem dificuldade em pegar a caneta para escrever.
Na nova escola foi diferente, para tentar ajudar o menino, a professora adaptou uma atividade com uma bola de isopor e furou com a caneta. Dessa forma, ele segura a bolinha e escreve. “São atitudes assim que fazem com que tenhamos esperança sempre”.
O pai explica que Augusto faz uma sequência de terapias com uma equipe com psicólogo, terapia ocupacional, fisioterapia, fonoterapia e neuroterapia e tem a própria forma de conversar e pedir as coisas.
Nélson Felix explica que nas terapias que o filho faz, ele aprende fazer coisas simples, mas importantes para sua evolução como mexer em uma cozinha, abrir e fechar uma gaveta e geladeira e atualmente pega a jarra de suco e coloca no copo, algo que não fazia antes.
Exercícios
A fonoaudióloga, Jessica Abreu, explica que geralmente crianças autistas têm dificuldade em brincar, em fazer de conta e diz que há alguns exercícios passados a quem tem autismo porque cada um tem dificuldade.
Ela cita o exercício de imitação de sons para aquelas que não falam, o trabalho visual para a criança ver a pronúncia e a forma como são pronunciadas letras como o “l”, por exemplo, com a língua no céu da boca.
Exercícios de Augusto com a fonoaudióloga Jessica Abreu — Foto: Arquivo pessoal/Jessica Abreu/NDCom Augusto, ela trabalhava o faz de conta, de criar novas palavras para ele aprender a brincar, que para ele ainda é difícil. Ela diz que o menino usa muito a música para se comunicar e procurou criar frases incluindo ele para que ele aprendesse.
Como foi a descoberta?
A mãe do menino, Francianne Brigido, contou que percebeu que havia algo diferente com o filho por volta de 1 ano e meio, quando ele começou a frequentar a creche.
Ela conta que as professoras ajudaram a descobrir e passou pela fase do “luto” antes mesmo de fechar o diagnóstico. “Chorava no banho, me perguntava o que havia feito de errado, se isso de fato teria algo a ver comigo”, disse.
Após a consulta que confirmou o diagnóstico de autismo do menino, o casal saiu do consultório com receita de medicação controlada e um mundo de incertezas pela frente.
Evolução
A mãe explica que a evolução do menino tem sido positiva e sabe da capacidade do filho. “Hoje ele é uma criança que fala, sabe se comunicar, mesmo que ainda não use da fala de forma funcional. Mas não desistimos, pois sabemos que ele é capaz”.
Francianne Brigido, Nelson Félix e Augusto — Foto: Rose Sardá/Arquivo Pessoal/NDFrancianne Brigido destaca o papel das terapias juntamente com o trabalho dos pais e da escola. “Costumo dizer que somos uma tríade — terapeuta, pais e escola — e que os três devem andar juntos”. E cita a intervenção precoce como fundamental para conseguir ver os resultados mais cedo.
Nelson Félix garante que tenta tirar o melhor do que acontece para evoluir. “A gente usa para o nosso aprendizado e para que ele (Augusto) evolua”, completa.
Por um Mundo Inclusivo
Francianne Brigido diz que, devido ao autismo de Augusto, resolveu colocar em prática o projeto @porummundoinclusivo. Nesse projeto, a mãe faz palestras e leva informação e a experiência diária com o autismo.
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Segundo a pedagoga, as pessoas têm bastante curiosidade sobre o assunto. “Nos perguntam como passamos a desconfiar”. Ela diz que tenta “dar o melhor todos os dias” para que o filho perceba que não está sozinho e que sempre estará lá para apoiá-lo.
Já Nelson Félix se disse “orgulhoso” de descobrir a doença do filho precocemente e começar a agir precocemente. “Começamos a intervir e demorei a entender que a música ajudaria muito. Comecei a tocar violão e a cantar com ele. A fala dele evoluiu com a música”, pontua.
“Sempre vai valer a pena”
O produtor executivo gera a expectativa de saber se um dia seu filho vai conversar como ele conversa com outras pessoas. “Tem interação comigo, mas é diferente”.
Emocionado, Nelson Félix diz que enxerga o filho em tudo o que faz por ele: “O Augusto é uma luz no meu caminho e só consigo enxergar essa luz. Qualquer coisa que faço, vejo ele no final e digo: vai valer a pena sempre”, finaliza.