Santa Catarina perdeu esta semana um de seus empresários mais ousados, cujo legado pode ser medido pela importância que ganharam os polos tecnológicos espalhados pelo Estado.
Max Gonçalves, um dos grandes impulsionadores do setor de tecnologia no país, deixou um legado de empreendedorismo em Santa Catarina – Foto: Divulgação/NDPara Florianópolis, especialmente, a visibilidade dada ao setor de tecnologia por Maximiliano Augusto Gonçalves Filho, mais conhecido como Max Gonçalves, resultou na consolidação de um nicho de excelência formado por empresas de tecnologia que lideram o ranking de geração de tributos e exportam para vários países.
A partir da capital catarinense, ele promoveu a Fenasoft (Feira Nacional de Software, Hardware e Serviços de Informática), evento anual realizado em São Paulo que chegou a atrair mais de um milhão de pessoas por edição. Fenasoft era também o nome da empresa que gerenciava o evento.
SeguirA morte de Max Gonçalves, na última terça-feira (14), aos 79 anos, consternou todos os que reconhecem a sua coragem e forte personalidade, a sua cultura e a capacidade de se adaptar a todos os cenários, a ponto de ter derivado para a produção de livros e documentários nos últimos anos de vida.
“Ele foi uma das pessoas mais brilhantes e criativas que conheci”, diz o jornalista e empresário Acari Amorim, que tem uma editora e produziu a maioria dos catálogos da Fenasoft, a partir da década de 1990. “Max abriu o mercado nacional e internacional de tecnologia para centenas de empresas, e Santa Catarina precisa reconhecer isso”.
A Fenasoft foi muito mais do que uma feira de computadores e periféricos – era um acontecimento de abrangência nacional, aguardado ansiosamente porque surgiu e se consolidou quando a informática se impôs como ferramenta de trabalho cada vez mais comum para todos os profissionais.
Empresas e domicílios passavam a usar hardwares e softwares, a internet ganhava força e as redes sociais entraram na rotina da maioria das pessoas.
Para isso, era preciso ter acesso a equipamentos e programas que não estavam, como ocorre hoje, disponíveis em cada esquina. E a feira era atrativa também porque tinha promoções, financiava computadores a perder de vista e, de quebra, oferecia brindes a uma legião de frequentadores.
Pesquisar sobre as edições da Fenasoft nos anos 90, por exemplo, é se deparar com novidades que hoje soam jurássicas. Falava-se em novos sistemas de armazenamento de dados, CD-ROMs (e seus sucedâneos, os DVDs), memória RAM, sistemas pioneiros de navegação na internet, modems cada vez mais rápidos, as primeiras câmeras que colocavam imagens online, recursos inéditos de multimídia.
A cada edição, as novidades chamavam o público – muita gente não comprava, mas passava de estande em estande para ver aquelas maravilhas que a tecnologia despejava num mercado ávido por soluções para o dia a dia de casas e escritórios.
Fenasoft e as novidades da tecnologia
Graças às antenas sempre ligadas de Max Gonçalves, a cada ano a Fenasoft era encorpada com a presença de especialistas renomados, daqui e de fora do país. Quais eram as expectativas para a área da tecnologia na década seguinte? O que o futuro reservava para a comunicação em rede? Esses e outros temas eram discutidos em palestras e seminários realizados em espaços contíguos à feira de produtos.
Max abre uma das edições da feira no Anhembi na década de 1990 com o ex-governador de Santa Catarina Vilson Kleinübing ao fundo – Foto: Divulgação/NDHoje, isso está a um clique, nas homepages das indústrias e fornecedores, mas três décadas atrás tudo era novo, ou mais, um mistério para quase todas as pessoas. Era o tempo dos disquetes, dos primeiros PCs portáteis, da popularização dos jogos por computador, de micros e impressoras com recursos que fascinavam o público.
Na edição do ano 2000, por exemplo, a feira prometia exibir placas de vídeos mais turbinadas que as até então oferecidas aos usuários, novos periféricos e softwares, produtos tecnológicos que só estariam disponíveis no mercado meses depois, como webcams, kits multimídia e outros “brinquedinhos” digitais.
Realizada mais uma vez no Pavilhão de Exposições do Anhembi, em São Paulo, a edição de 1996 gerou negócios estimados em R$ 4 bilhões. Na década seguinte, a Fenasoft passou a ser mais corporativa, com foco nos desenvolvedores de software e vendas diretas para as empresas e distribuidores, perdendo o caráter exclusivo de feira e suas filas intermináveis na entrada do parque, com foco em vendas para consumidores domésticos.
Empresário deu visibilidade à produção catarinense
Ex-reitor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), o professor Diomário Queiroz era diretor do CTC (Centro Tecnológico) da instituição quando Max Gonçalves realizou a 1ª Fenasoft, em 1987, no RioCentro, no Rio de Janeiro.
Max Gonçalves – Foto: Divulgação/ND“Ele sempre abriu espaços para as instituições de pesquisa e estimulou quem batalhava para implantar polos de ciência, tecnologia e inovação aqui e em outros Estados”, diz o professor. “As feiras que realizou deram grande visibilidade ao trabalho da UFSC nessa área, abrindo também portas para a cooperação internacional”.
Na época, o CTC, o governo do Estado e a Fundação Certi, criada em 1984, se empenhavam em viabilizar os primeiros parques tecnológicos em Santa Catarina, instalados em Florianópolis, Joinville e Blumenau.
O que Max Gonçalves e a Fenasoft proporcionaram foi um empuxo para esse movimento embrionário e, posteriormente, a exposição dos produtos desses polos e a ampliação de suas relações com grupos empresariais e com o sistema de pesquisa internacional.
“Nos anos 80 e 90, o conceito de inovação ainda era emergente, e os polos científicos e tecnológicos fizeram essa transição”, diz Diomário Queiroz.
Naquele momento, Santa Catarina saiu na frente e se impôs como sede de parques tecnológicos importantes. “Hoje, graças a esse processo e ao suporte acadêmico das universidades, somos líderes em número de startups e temos o Sapiens Parque, a Acate (Associação Catarinense de Tecnologia) e fundações universitárias que promovem, via extensão, a interação com empresas que financiam a pesquisa”, diz Queiroz.
Nos últimos cinco anos, o número de empresas de tecnologia teve um salto de 63,2% no Estado, o maior crescimento do país, cujo incremento foi de 26,1%, segundo dados do Tech Report 2021. Em Florianópolis, o Tecnópolis é um exemplo bem acabado de sucesso na área tecnológica.
Viajante, poliglota, escritor, documentarista
Nascido no Rio de Janeiro, Max Gonçalves foi um cidadão do mundo, viajou muito e chegou a morar em Las Vegas (EUA), depois de ter se fixado em Florianópolis e aqui criado a maior feira de informática da América Latina, com as principais edições realizadas em São Paulo.
Em entrevista ao jornalista Urbano Salles, do “Imagem da Ilha”, disse sobre Floripa: “É um lugar que me encanta e me atrai pelo povo, a natureza e a simpatia de todos. É uma cidade que cresceu muito e muito depressa e por isso tem problemas de mobilidade e o encarecimento da parte imobiliária. Mas esses problemas serão resolvidos com o tempo”.
Um de seus livros, “Seduções, remissões e submissões”, teve cinco edições em Portugal e foi traduzido para outros idiomas. Ela também escreveu “O barulho dos segredos escondidos”, ficção sobre questões culturais e religiosas no Oriente Médio, e “Garotos de Ipanema”. Para a National Geographic, fez o documentário “Why?”, que aborda a guerra civil na Síria e a questão dos refugiados ali e na Europa.
Viajante, poliglota, pianista nas horas vagas, Max Gonçalves dizia, lá atrás, que as pessoas tinham que perder o medo da tecnologia e que os computadores seriam o novo eletrodoméstico da casa – o que não demorou a acontecer.
“Tenho orgulho de ter convivido com ele, ter sido seu amigo e parceiro de negócios”, diz o jornalista Acari Amorim. “A Fenasoft deu o start para a popularização da tecnologia e da inovação, tanto que hoje o Brasil é um celeiro com mais de 20 mil startups que se impõe no cenário internacional”.