Opinar ou omitir? Estar ao lado da conversa, e não da disputa, é o que move Elisa Lucinda

Em tempos de opiniões e cancelamentos na internet, buscar equilíbrio e evitar cooptação do discurso é o grande desafio, segundo a atriz e escritora, que esteve em Itajaí para Festival Literário

Foto de Grazi Guimarães

Grazi Guimarães Itajaí

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A internet deu voz aos brasileiros. Segundo pesquisa promovida pelo Comitê Gestor da Internet do Brasil em 2021, 80% da população acima de 10 anos acessa a web. E este avanço da tecnologia tem gerado uma avalanche de opiniões simultâneas sobre os mais diversos assuntos.

Famosos e anônimos são ovacionados e cancelados todos os dias por opiniões e atitudes disparadas na grande rede e, inclusive, a ausência de opinião diante de assuntos polêmicos também é motivo para “bafafá” e manifestações dos haters.

Se nenhum texto é neutro, Elisa Lucinda reflete sobre o equilíbrio entre opinar e ser omisso – Foto: Secom Itajaí/ReproduçãoSe nenhum texto é neutro, Elisa Lucinda reflete sobre o equilíbrio entre opinar e ser omisso – Foto: Secom Itajaí/Reprodução

Em um ano eleitoral que tem motivado debates calorosos acerca da economia, da saúde e do favoritismo político por parte dos brasileiros, o país enfrenta uma polarização que silencia discussões de fato produtivas e proveitosas. Diante disso, muitas pessoas preferem se abster de opinar.

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Por outro lado, se calar diante de algumas situações pode significar se omitir perante tantas injustiças e preconceitos. Então, qual seria a medida certa entre não ser omisso e não se desgastar em discussões inúteis?

A escritora, jornalista, atriz e cantora Elisa Lucinda esteve em Itajaí,  no Litoral Norte de Santa Catarina, nesta semana para a abertura do 5° FLI (Festival Literário de Itajaí) cujo tema é: “Palavras urgentes: o texto nunca é neutro”.

Destrinchando esse tema, conversei com Elisa a respeito desse equilíbrio entre opinar de forma assertiva, um desafio também para comunicadores que primam pela imparcialidade, mas sem jamais dar palco para preconceito, crimes de ódio e injustiças.

“ser omisso mata”: Elisa Lucinda fala sobre o desafio de opinar com equilíbrio – Foto: André Pinheiro/Divulgação“ser omisso mata”: Elisa Lucinda fala sobre o desafio de opinar com equilíbrio – Foto: André Pinheiro/Divulgação

“A medida é sempre estratégica com o equilíbrio da ética, que traz uma métrica muito simples que aprendi com Antônio Calado. Quando o assunto é se posicionar ou não de forma ética, a pergunta a ser feita é a seguinte: com essa informação eu sirvo a quem? Guardando ou falando ela, quem se beneficia”?

De forma inteligente, Lucinda mostra que é preciso se questionar sobre como a forma da locução poderá ser usado a favor ou contra a ideia que você quer expor.

“Muitas vezes, o que a gente fala é muito mais usado pelas forças contrárias, sendo assim, não é estratégico dizer aquilo naquele momento”, orienta.

Porém, ela destaca que é necessário ter coragem com equilíbrio. “uma coragem responsável, até porque ninguém quer ser herói ou mártir, eu não quero. O que eu não acho bacana é ser omisso, ser omisso mata”, alerta.

Raivosa ou sem opinião?

Esse desafio para as mulheres, principalmente as negras, é ainda maior. Ficar entre omissa ou raivosa, muitas vezes, é uma linha tênue. É preciso equilíbrio e certa dose de paciência para saber o momento de opinar com assertividade ou simplesmente para não gastar energia.

Acredito que o mais interessante e prudente neste quesito é entender se o “oponente” está interessado em conversar, trocar informações e chegar a um consenso, ou simplesmente impor sua opinião e ponto final.

Se não há espaço para o questionamento, a reflexão e a mudança, raramente há espaço para a minha opinião também. O título de “vencedor da discussão” pouco me interessa, é preciso criar um ambiente entre amigos e familiares mais favorável à conversa do que à disputa.