Orgulho e representatividade: conheça professora que faz bonecas negras em Florianópolis

Maria Conceição Nascimento conta sobre a infância, os problemas que enfrentou para criar os filhos e o episódio de racismo que sofreu em 2016

Júlia Venâncio Florianópolis

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Maria Conceição Nascimento, de 58 anos, é dona de um sorriso invejável. Mais conhecida como Puca, a professora aposentada deixa o dia de quem passa pela feira da Maricota, no Centro de Florianópolis, mais feliz. Não apenas pelo sorriso, mas por encantar todos que passam pelo local com as bonecas negras artesanais que fabrica.

A professora aposentada deixa o dia de quem passa pela feira da Maricota mais feliz – Foto: Cristiano Estrela/Especial para o NDA professora aposentada deixa o dia de quem passa pela feira da Maricota mais feliz – Foto: Cristiano Estrela/Especial para o ND

O amor por bonecas surgiu quando era criança.  Por sua família não ter condições financeiras, pegava brinquedos do lixo próximo a sua casa e com eles se divertia.

“Eu pegava aquelas bonecas de que vinham no lixo.  Boneca sem braço e sem pernas, só que eram aquelas bonecas de cabelo loiro. Como elas vinham quebradas, eu usava umas camisetas velhas e colocava para fazer o braço e as pernas delas”, explicou Conceição.

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Na escola, ela conseguia colocar a sua criatividade em prática durante as aulas de Artes, lugar em que a professora ensinava técnicas de costuras e de tricô. “Só que na época, a gente fazia bonecas brancas, porque era só a boneca branca que existia. A boneca negra era bem difícil de encontrar. Ainda hoje tem muita dificuldade”.

O trabalho apareceu cedo na vida de Conceição. Com a família precisando de dinheiro extra, ela começou a cuidar de crianças quando tinha 11 anos. “Depois, comecei a trabalhar de doméstica. Geralmente, eles dizem que é para cuidar de criança, mas tu já começa a fazer o serviço de casa também”.

Quando ganhou o seu primeiro salário, foi correndo comprar a primeira boneca. “Era aquelas com cabelo loirinho”, lembra a professora aposentada.

Viúva e com a escolaridade até a quarta série, Conceição não queria que faltasse nada para os filhos após a morte do marido e retomou os estudos – Foto: Cristiano Estrela/Especial para o NDViúva e com a escolaridade até a quarta série, Conceição não queria que faltasse nada para os filhos após a morte do marido e retomou os estudos – Foto: Cristiano Estrela/Especial para o ND

Mãe de quatro filhos, a vida não foi fácil para Conceição. Permaneceu 18 anos casada e em 1998 perdeu o marido em um acidente. Aos 36 anos, precisou criar os filhos sozinha. “Trabalhei, sim, mas pouco porque meu marido era daqueles machistas. Aqueles ‘machão’ que mulher tem que trabalhar em casa e criar os filhos”.

Viúva e com a escolaridade até a quarta série, Conceição não queria que faltasse nada para os filhos após a morte do marido e retomou os estudos. Após completar o ensino médio, engatou em um magistério e junto começou a pedagogia. Se tornou professora do ensino infantil de Florianópolis, onde atuou até 2019.

Preconceito

Mulher negra e de periferia, Maria Conceição passou por um episódio de racismo em 2016 enquanto atuava como professora. “Eu não percebia que era racismo. Só percebi quando ela [uma colega de trabalho] me chamou na sala e descascou o abacaxi, como a gente diz. Falou que não entendia como eu estava ali e que pessoas como eu não mereciam aquele diploma. Ela disse que pessoas como eu não teriam que estar no local que eu estava porque os pais [das crianças] me odiavam, queriam uma professora branca e não uma professora negra”.

Após um ano sofrendo com o racismo, a professora colocou um basta na situação. “Até que um dia eu cheguei para ela e falei: ‘chega’. Porque eu sou negra. Sim, sou negra. Sim, sou humilde. Sou da periferia. Sou do morro e não tenho vergonha. O meu diploma ele não foi comprado, ele foi batalhado”.

Maria Conceição entrou em uma depressão profunda após o ocorrido e achou nas bonecas a motivação para continuar. “De uma forma ou outra tive que me reerguer porque eu tinha meus filhos.”

Para a aposentada, fabricar as bonecas negras foi o que trouxe ela de volta para a realidade: “Posso dizer que apesar dos problemas que ainda enfrento com a depressão, eu sou bem realizada com esse artesanato que me ajudou e me ajuda até hoje a superar”.

Representatividade

Conceição fabricou a primeira boneca negra em um dia, quando percebeu que nunca havia feito uma. Pegou um tecido preto e produziu o corpo, cabeça, braços e pernas do brinquedo.  Depois de anos praticando o artesanato, começou a frequentar a feira da Maricota, no Centro de Florianópolis.

Do tamanho grande ao pequeno, Conceição fabrica todos os tipos de bonecas, mas nunca uma igual a outra. “Cada uma tem uma carinha diferente, um sorriso diferente e um olhar diferente. Isso me deixa grata.”

Para Conceição, o processo de identificação de meninas negras com as bonecas negras é importante para que as crianças possam se enxergar no brinquedo e acreditar que podem ser o que quiserem ser. “Já fiz a Emília negra, o pequeno príncipe negro e as princesas também”.

A professora aposentada tem orgulho do seu trabalho e da diversidade que promove. “Apesar de já ter passado por muitas coisas na minha vida, muitas tristezas, as minhas bonecas me levantaram e vão continuar me levantando”.

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