Pai solo de SC realiza sonhos com adoção tardia, apesar do preconceito

Fábio adotou dois meninos, um com 13 anos e outro já com 18; catarinense é pai solo e enfrenta os preconceitos e as dificuldades da paternidade

Kassia Salles Itajaí

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Ser pai solo não é fácil. Fábio Anklam, catarinense de 43 anos, que o diga. “É um trabalho diário”, conta. Ele é pai de dois jovens, Leandro, de 19, e Robson, 20.

Os dois rapazes foram adotados por Fábio já mais velhos. Leandro foi o primeiro. Ele tinha 13 anos e morava em um abrigo. De início, a ideia era apadrinhar o garoto, mas ele foi ficando, os laços se estreitando e a possibilidade dele voltar, sem pai, ao abrigo, foi ficando cada vez mais remota.

Família completa – Foto: Arquivo pessoal/NDFamília completa – Foto: Arquivo pessoal/ND

Fábio sempre quis ser pai de irmãos. Filho único até os 11 anos, por muito tempo viu a possibilidade de ganhar um irmão através da adoção, já que a mãe passou por um momento de dificuldade para engravidar. Mas a conversa acabou não evoluindo, e logo a irmã de Fábio nasceu.

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Quando se entendeu como um homem gay, a adoção se tornou uma possibilidade. “Na época não existiam leis, era até proibido um casal homossexual adotar”, relembra. Mas o tempo passou, as leis mudaram, mas não a vontade.

A adoção parecia sempre presente na vida de Fábio, como um lembrete do universo. Uma ex-cunhada, irmã do primeiro companheiro dele, tinha dois filhos adotados. “Mas ele nunca quis filhos, e depois a gente acabou se separando”, conta.

Mais tarde, já mais velho e em outro relacionamento, passou a cuidar os sobrinhos do companheiro durante as férias escolares. “Eu amava, pegava as crianças, leva ‘pra cima e pra baixo'”, conta.

Neste relacionamento, Fábio entrou de vez no processo de adoção. O perfil procurado por ele diferia do da maioria dos adotantes: queria irmãos, de preferência meninos, e não queria bebês ou crianças muito novas. Fez o curso de adoção, entrou na fila, mas imprevistos sempre acontecem, e o relacionamento esfriou, e teve um fim.

O que não teve fim foi o sonho de ser pai.

Foi ainda naquele ano que Leandro chegou em sua vida. Como não ficaria mais com os sobrinhos do, agora, ex-companheiro durante as férias escolares, uma amiga, assistente social, sugeriu que Fábio apadrinhasse uma criança.

Leandro tinha 13 anos. “Ele era bem ‘miudinho, magrelinho’, quase não tinha roupas”, relembra. 

No final daquele ano, Fábio e a assistente social foram conhecer o menino e pegá-lo para passar o final de ano.

“Eu fui para a sala da juíza. Ficava numa ladeira, e de lá eu conseguia ver o abrigo, as crianças brincando no pátio”, relembra. Quando resolveram as burocracias do apadrinhamento e foram, de fato, conhecer o menino, foram indicados até um garoto, sentado de costas para eles, no chão do pátio.

“Eu estava bem inseguro, nervoso. Na hora, eu senti uma coisa muito ruim, do tipo ‘não vai dar certo’. Eu fui até ele, e chamei pelo nome, Leandro. Na hora ele virou e disse, ‘eu não sou o Leandro'”, ri. Era como se Fábio soubesse, antes mesmo de conhecer o rosto do filho, que aquele menino, sentado no chão, não era o seu Leandro. 

O que era para ser só alguns dias se tornou uma vida inteira. Da guarda provisória, Fábio passou a ter a tutela do menino, o matriculou na escola, e depois, enfim, o adotou.

Leandro foi adotado já com 13 anos – Foto: Arquivo pessoal/NDLeandro foi adotado já com 13 anos – Foto: Arquivo pessoal/ND

A adaptação não foi fácil, para nenhum dos dois. Fábio teve que matricular o filho em um colégio integral enquanto se adaptava à rotina de ter um filho. Quem antes se dedicava quase unicamente ao trabalho, agora, teve que fazer concessões e escolhas para dar ao menino o que ele tanto precisava: carinho. 

Fábio também teve que se adaptar ao mundo da paternidade solo. Nas reuniões de pais e professores do colégio, não tinha pais, só mães. Teve que lidar com questionamentos externos, em relação à sua sexualidade, ou à sua capacidade de criar um filho. 

O irmão

A vontade de ter mais um filho nunca se foi. Do contrário, foi ficando cada vez mais forte. Tentou adotar outros meninos, mas sem sucesso. Mas não se deixou levar pelos imprevistos.

Foi quando, no grupo de busca ativa, Fábio conheceu a história de Robson. Abrigado desde os 3 anos, o rapaz estava prestes a completar 18 anos. Havia sido adotado previamente e devolvido, e agora estava num abrigo em Belo Horizonte, em Minas Gerais. Justo naquela época, a família planejava se mudar para outra casa. 

“Na minha cabeça eu pensava, ‘tu não vais fazer isso, vai desestruturar tudo’. A minha relação com o Leo já estava muito tranquila, vai chegar, vai bagunçar tudo. Mas quando li a história dele, eu já me senti responsável e não consegui mais tirar aquilo da cabeça”, relembra. 

Começou, então, uma aproximação por telefone. Depois, sem contar para ninguém, comprou uma passagem para Belo Horizonte. Conseguiu passar um final de semana com Robson, em preparo para uma audiência com a juíza de adoção, na segunda-feira, às 14h. O vôo de volta para Santa Catarina estava marcado para as 16h.

Com a voz embargada, Fábio relembra. “Ele disse, ‘pai, se a juíza não deixar, eu vou embora com você de qualquer jeito’. Não pensei duas vezes, comprei a passagem dele e fomos de malas prontas para a audiência. E ele já saiu de lá com meu nome”.

Hoje, Robson está com 20 anos. 

Os dois rapazes foram adotados por Fábio já mais velhos – Foto: Arquivo pessoal/NDOs dois rapazes foram adotados por Fábio já mais velhos – Foto: Arquivo pessoal/ND

Adaptação

Com dois filhos, mesmo que já adultos, a vida não é nada fácil. Quem vivia para trabalhar, agora vive para os filhos. Os três fazem tudo juntos: viajam, passeiam, celebram cada momento.

“Eles se tornaram pessoas boas, creio que eles serão pessoas boas para o mundo”, conta Fábio. “Eu tento dar para eles todo o carinho que eles não tiveram”. 

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