Palhoça investe e passa de cidade-dormitório a centro de tecnologia

Município investe na área e conta parcerias para criação de parque tecnológico

José Carlos Sá, Especial para o ND Florianópolis

Receba as principais notícias no WhatsApp

Os anos 2000 trouxeram para Palhoça um dinamismo maior na economia, com empresas se instalando para aproveitar a posição estratégica da cidade, servida por duas rodovias federais, as BRs 101 e 282.

Galpão Due Laser, em Palhoça, na Grande Florianópolis – Foto: Divulgação/NDGalpão Due Laser, em Palhoça, na Grande Florianópolis – Foto: Divulgação/ND

Isso foi refletido na implantação de um shopping center e grandes redes de supermercados, mas mesmo assim havia o problema da oferta de mão de obra sem qualificação e da fabricação de produtos com pouco valor agregado.

Em 2010 foi criado o Inaitec (Instituto de Apoio à Inovação, Ciência e Tecnologia), de uma parceria entre a Prefeitura de Palhoça, o Parque Tecnológico Pedra Branca, a Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina) e a Associação Comercial.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

O objetivo era organizar um parque tecnológico e, para isso, precisava ter uma legislação que atraísse empresas deste segmento, manter ações empresariais e educacionais para estimular o aparecimento de ideias inovadoras e dar oportunidade para que elas se realizassem.

De lá para cá houve uma evolução do número de empresas de tecnologia existentes na cidade, de próximo a zero para mais de dois mil negócios neste segmento.

“Nós começamos no parque Pedra Branca trabalhando com 10 a 50 CNPJs e alcançamos o número de 2.106 CNPJs atuais, alcançando a cifra acumulada de R$ 2,2 bilhões em capital social e já gerou cerca de R$ 14 bilhões em impostos”, afirma o diretor-executivo do Inaitec, Diego Chierighini. Mais de 350 empresas já foram atendidas pelo instituto.

Impulso para negócios

Um dos cases de sucesso da Inaitec é a Due Laser, empresa que fabrica máquinas de bancada para corte e marcação a laser, destinadas ao consumidor final. É para quem tem um pequeno negócio ou para quem quer começar a empreender no ramo de personalizados.

Um dos sócios da empresa, Luiz Carlos Pinage conta que sempre trabalhou com o desenvolvimento de máquinas e pretendia desenvolver algo com tecnologia totalmente nacional.

Quando estavam fazendo o mestrado em engenharia, ele e o sócio tiveram a ideia de construir a máquina.

“Eu tinha experiência com a fabricação de equipamentos, de máquinas, e na época, máquina laser que existia era tudo máquina industrial, máquina grande, cara, difícil de manter, de operar. Então era um equipamento impossível de ter por uma pessoa que quisesse abrir um negócio, um pequeno comércio. Aí surgiu a ideia, em 2014”, lembra Pinage.

Após ter o protótipo da máquina, em 2015 eles procuraram o Inaitec para formalizar a empresa.

“Como somos engenheiros, não temos experiência em vendas, em comercialização, em gestão de pessoas, contabilidade… então nessa parte a incubadora foi muito importante naquele início.”

Depois que passou a fase inicial, a empresa lançou o primeiro produto em 2016, uma máquina que vendeu oito unidades, segundo Luiz, o faturamento foi de R$ 70 mil no primeiro ano, em 2017.

“Depois em 2018 a gente já cresceu bastante, lançou um produto novo que é a Due NXT e faturamos R$ 300 mil. Aí já tinha estrutura, e então em 2019 nós lançamos um novo produto, que é a Due Flow, que a gente vende até hoje. Naquele ano a gente faturou na casa de um milhão, então foi um crescimento bem legal”.

Com a chegada da pandemia, a empresa continuou a crescer e a faturar, pois as pessoas ficaram em casa e tiveram tempo para se dedicar a hobbies ou a abrir um negócio próprio. A empresa, que hoje tem 35 funcionários, triplicou o faturamento.

“Saímos de R$ 70 mil e chegamos a mais de R$ 6 milhões. Estamos indo muito bem, a gente tem bastante demanda para esse tipo de máquina”, conclui Luiz.

Formação de mão de obra qualificada

Além da atuação junto a startups empresariais, o Inaitec também atua na área social, com programas para capacitar jovens de periferia e conectar candidatos a vagas de empregos, aproximando as pessoas às empresas com a geração de oportunidades, oferecendo melhoria do conhecimento para promover a empregabilidade destas pessoas.

Um dos programas sociais incubados na Inaitec é o PAQ – Prototipando a Quebrada, que foi criado em 2018 por Jefferson Lima, com o objetivo de levar a transformação social dos jovens da periferia por meio da tecnologia. Jefferson nasceu em São Paulo, é mestre em história e desde os 15 anos trabalha com tecnologia.

“Eu era educador, trabalhava com tecnologia numa comunidade, então eu resolvi que eu podia fazer isso em outras comunidades e foi quando eu comecei Prototipando, com um kitzinho de robótica embaixo do braço, um computadorzinho velho e, em dois meses, eu que comecei com cinco, já tinha 40 alunos”.

O PAQ foi estruturado em 2021, quando virou uma ONG e instalou sua primeira unidade no Inaitec em Palhoça.

“A gente quer usar o aprendizado de tecnologia para mudar a realidade das periferias. Atendemos jovens de várias comunidades de Palhoça, do Frei Damião, do Brejaru, do Caminho Novo, São Sebastião, da Comunidade do Moa”.

Hoje são atendidos 40 jovens diretamente. A meta para o fim do ano é chegar a 100 jovens. “Nós queremos chegar em 2022 com 120 educandos na imersão; com 60 acelerados e 200 educandos impactados com a aprovação de replicadores”, diz Jefferson Lima.

De cidade-dormitório a centro de tecnologia

Palhoça teve várias ondas de crescimento nos seus 128 anos de emancipação política, de fornecedor complementar de alimentos para Desterro (antigo nome de Florianópolis), foi entreposto comercial e chegou à cidade que hoje atrai empresas de tecnologia e inovação.

Números de Palhoça

  • 25 mil microempresas;
  • 1,7 mil empresas de pequeno porte;
  • 2,7 mil empresas entre médias e grande;
  • 17 mil MEIs.

Devido à sua proximidade com a Capital, Palhoça deixou de ser um dormitório para as pessoas que trabalhavam em Florianópolis para se destacar com um perfil de cidade moderna.

Para isso, em 2015 adequou sua legislação para fomentar o empreendedorismo e incentivar as atividades de pesquisas e de desenvolvimento de novos produtos.

Com a criação do distrito industrial na década de 1990, Palhoça atraiu inúmeras empresas de pequeno porte, com o predomínio das fábricas do ramo de cerâmicas e olarias, além de confecções, serrarias, esquadrias de alumínio, artefatos de cimento, calçados e produtos odontológicos. Também foram atraídas grandes redes de supermercados, que se aproveitaram da localização que facilita a logística da chegada dos produtos.

A população cresceu rapidamente e houve o investimento de capitais privados no lançamento de novos loteamentos urbanos, beneficiando igualmente a indústria da construção civil. Escolas do ensino superior se instalaram atraídas no município, e o crescimento fez com que, junto a São José, se tornassem cidades conurbadas com Florianópolis.

Prefeito Eduardo Freccia destaca perfil tecnológico da cidade

O prefeito de Palhoça, Eduardo Freccia, afirma que a sua gestão investe em atração de novas empresas para o município. E um dos atrativos da cidade é ser um corredor logístico por estar localizada entre as duas rodovias mais importantes de Santa Catarina, as BRs 101 e 282.

De olho no espírito de inovação do Estado e no setor que não para de crescer, o município tem trabalhado para ser um polo de tecnologia da Grande Florianópolis. Além disso, a prefeitura planeja tornar a cidade um roteiro turístico fora da temporada de verão.

Prefeito de Palhoça destaca transformação do município – Foto: Divulgação/NDPrefeito de Palhoça destaca transformação do município – Foto: Divulgação/ND

Quais as principais medidas adotadas pela prefeitura para atrair novas empresas para Palhoça?

O nosso principal foco hoje na cidade é fazer as obras necessárias para que o município cresça. São obras de infra-estrutura, como novas avenidas, pavimentação de corredores de ônibus, melhorar a mobilidade do município, por que isso vai trazer uma atratividade maior do município para as empresas.

Então eu preciso dotar o município de uma infraestrutura adequada, que atraia empresas, que atraia investimentos, e isso vai gerar empregos e vai gerar também novos recursos para investimentos na infra-estrutura, em educação, em saúde, em assistência social.

Atualmente, quais os segmentos de empresas estão procurando mais o município?

Palhoça, tecnicamente, não depende exclusivamente de nenhum dos segmentos econômicos. Ela tem essa diversidade de serviços bem fortes. Pelas questões logísticas – Palhoça hoje é cortada por duas BRs, a BR-101 e a BR-282 –, isso atrai muitas empresas do segmento logístico, muitas empresas que vêm trazer os seus centros de distribuição para cá, mas também por ser uma cidade da região metropolitana, acaba também tendo um setor de prestação de serviços forte.

Então não tem um setor que se destaque no município, mas sim um conjunto das características do município que faz ele atraente e faz ele diversificado e essa economia forte que tem.

A sua administração estipulou alguma meta de crescimento? Se positivo, qual o prazo estabelecido para alcançar essa meta?

Sim, projetamos Palhoça para crescer e se tornar nos próximos anos entre as cinco principais cidades do Estado, do ponto de vista econômico. Como Palhoça está em um ponto estratégico, a cidade tem ainda o que crescer – e crescer com qualidade.

Quais os planos para o desenvolvimento do turismo?

Temos uma característica do nosso turismo que é não termos um clima bom o ano todo, é diferente da região Nordeste que você tem boa parte do ano com o clima favorável para o turismo. Em nossas praias dependem muito daquele período ali de dois, três meses, que é o verão em si.

Então nós precisamos de, além de oferecer empregos qualificados do turismo no verão, também manter empregos fora da temporada. Nós criamos esse melhor zoneamento. Esse foi um ponto. Estamos avançando também com a questão do saneamento.

Finalizamos os projetos do saneamento básico, estamos licitando agora os projetos da estação de tratamento de esgoto lá da região da Guarda do Embaú e a concessão do esgoto do restante das praias e do município, o que vai permitir os índices de balneabilidade perfeitos para o turismo. Então esse é um compromisso muito importante.

No segmento de tecnologia e inovação, Palhoça está na frente. O que foi feito?

Nós criamos em Palhoça uma legislação que visa atrair esses investimentos [de tecnologia e inovação], e torne Palhoça um polo de inovação e atração de empresas de tecnologia. Isso já vem dando bons frutos.

Já temos muitas empresas que iniciaram incubadas aqui na cidade. Iniciaram como startups e hoje ocupam lugares de destaque até mundial e vem atraindo cada vez mais.

A gente sabe que se Palhoça quer combinar a questão da sustentabilidade com o desenvolvimento, nós precisamos potencializar o uso da indústria limpa e a tecnologia permite que a gente possa crescer de forma tecnologicamente sustentável, ambientalmente sustentável, fazendo com que a cidade tenha empregos de qualidade e indústria não poluente.

Então essa é a menina dos olhos do município, para que a gente tenha uma legislação atraente, um ambiente favorável, um ecossistema de negócios voltados para a tecnologia para que tenhamos cada vez mais atração de novas empresas e também de empresas já existentes, consolidadas, que migram para Palhoça, como já vem acontecendo.

Tópicos relacionados