Em um imóvel branco de portas verdes no bairro Carvoeira, em Florianópolis, nascia um reduto universitário de amizade, pão com almôndega e risada frouxa. É assim que muitos ex-alunos da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) lembram do Bar dos Servidores, liderado por Silvinho, um manezinho da Ilha que se tornou uma “unanimidade” entre a comunidade acadêmica.
Silvio César Bonifácio, de 50 anos, trabalhou por 14 anos no Bar dos Servidores – Foto: Leo Munhoz/ND“Ele é bem quisto por todas as pessoas porque é simples, do bem, ajuda todo mundo. Ele une o pessoal de direita e esquerda, ainda mais em um curso com muitas ideologias como o Direito. Todos sentavam no Bar do Silvinho e conversavam. Ele conseguiu unir o curso durante todos esses anos”, destaca o ex-aluno e advogado Roberto Bornhausen, de 28 anos.
“Silvinho é a única unanimidade do CCJ [Centro de Ciências Jurídicas], não há quem não goste dele.”
SeguirA ligação com o universo do Direito aconteceu antes mesmo de Silvio César Bonifácio, de 50 anos, começar a cozinhar profissionalmente. Em 1992, ele ingressou em uma livraria jurídica como office boy e, pouco tempo depois, tornou-se vendedor de livros durante sete anos.
Silvinho abriu sua nova lanchonete no Morro do Céu, no Centro de Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/NDA oportunidade de trabalhar na lanchonete próxima ao CCJ surgiu por meio de seu sogro, que é servidor da universidade e membro da Associação Atlética dos Servidores, antiga Associação dos Volantes, fundada por motoristas da UFSC.
“Meu sogro insistiu, mesmo eu não querendo. Sempre fiz comida em casa quando pequeno, quando tinha 12, 13 anos, mas fazer um arroz e fritar um ovo, só me virando como todo mundo. Um pouquinho de prática com a cozinha eu tinha, mas, quando comecei no Servidores, foi uma paixão, me identifiquei muito com o pessoal”, lembra Silvinho.
Mas não foram só os alunos do Direito que frequentaram a lanchonete e criaram laços com o manezinho. Estudantes de Jornalismo, Administração, Ciências Econômicas, Serviço Social e até da Odontologia marcavam presença na rua Desembargador Vítor Lima. “Mesmo pessoas de cursos distantes, que poderiam ir a outros bares e lanchonetes, escolhiam ir ali, comigo.”
O bar abria às 18h, mas a fila para comer o pão com almôndega se formava ainda às 17h30. “Tinha umas 20 pessoas esperando para comer e eu me apavorava com aquilo porque a almôndega não estava pronta e todo mundo tinha horário para entrar na sala.” O cuidado com os alunos que se tornaram amigos era diário.
O carro-chefe da lanchonete é o pão com almôndega – Foto: Leo Munhoz/NDEle recorda de trabalhar até as 3h da madrugada e precisar correr para receber as bebidas no dia seguinte. “Pessoal do caminhão ligava às 9h: ‘Se não receber agora não vamos entregar’. Eu colocava uma camiseta, um shorts e ia de táxi. E ficava até as 3h da manhã de novo”, conta Silvinho. “E era o maior prazer fazer isso porque eu ia ter essa receptividade, esse calor humano, essa coisa gostosa.”
Em dezembro de 2019, o fechamento da associação culminou no fim da lanchonete do Silvinho após 14 anos de funcionamento. Um procedimento administrativo está em curso para definir a destinação do espaço de restaurante e bar, que segue sob análise da Procuradoria Federal junto à UFSC. Procurada pela reportagem, a universidade afirmou que não irá se pronunciar no momento.
“Melhor momento da minha vida”
Entre o intervalo de uma aula e outra, alunos se refugiavam na lanchonete para passar o tempo e “trocar uma ideia” com o Silvinho. Nos dias de jogos do Avaí, seu time do coração, ele fritava pastel e atendia pedidos “com um sorriso do tamanho do Morro do Cambirela”, como lembra o advogado Braulio Cavalcanti, de 33 anos.
“Ele olhava para o cliente entrando na lanchonete e já falava: ‘fala jogador!’, com um paninho nas costas e servindo as mesas.”
Por isso, Silvinho lembra dos anos de UFSC com muito carinho. “Foi um grande divisor de águas, foi o melhor momento da minha vida, porque aprendi muito com os jovens.”
Silvinho trabalha com sorriso no rosto e simpatia todos os dias – Foto: Leo Munhoz/NDA UFSC fez de Florianópolis uma cidade universitária, que acolhe estudantes vindos de todos os cantos do Brasil e do mundo. Por tamanha diversidade, ele considera essa troca com os estudantes ainda mais importante.
“O Servidores se tornou uma família. Se você fosse na lanchonete todos os dias, eu ia te chamar pelo nome, você ia me chamar pelo nome, chamar a tia Regina pelo nome, o Alexandre pelo nome, o Jean pelo nome [os colaboradores], se criou este laço, este vínculo”, destaca.
Clima de casa com tia Regina
Muito mais do que a famosa receita autoral de pão com almôndega — ou pão com bolinho, como muitos gostam de chamar — o carinho, o respeito e o afeto eram fatores que atraíam o público.
Também formado em Direito na UFSC, Lucas Witt, de 28 anos, lembra que se sentia “como se tivesse chegando em casa, seja porque eles sempre foram muito atenciosos ou porque viveram muito do que era a Universidade Federal, então conheciam todas as gerações que foram se formando ali”.
Silvinho e Lucas Witt em um dos campeonatos do CCJ – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/NDO clima amistoso se formava também pelas pessoas que trabalhavam ao lado de Silvinho, como a tia Regina, de 65 anos, que “foi tapar um buraco e acabou ficando”. A risada e bom humor dela fazem parte da história do bar.
Silvinho lembra que “a tia tinha muito desse laço, dessa atenção, de ela conversar com as pessoas, brincar. Como tinha essa distância da família, chegar em Florianópolis e ter pessoas que abraçam, dão conforto, carinho, é o que o cara mais precisa em qualquer situação, e acontecia bastante ali”.
Nos anos de faculdade, o jornalista André Picolotto, de 30 anos, lembra que ia ao bar pelo menos uma vez por semana. “Jogávamos futebol no campo dos Servidores, ali do lado, todas as quartas-feiras, e depois íamos para o bar tomar cerveja e comer pão com almôndega. Com essa convivência, o Silvinho, a dona Regina e o Alex (que era o garçom) viraram pessoas muito especiais”.
Pandemia e ajuda dos amigos
Ainda antes de sair do espaço do Servidores, o Silvinho comprou uma lanchonete nos arredores da universidade. Com a pandemia em 2020, o movimento de todo o comércio na região universitária foi drasticamente afetado, já que as aulas presenciais foram suspensas.
“Todo mundo estava em suas cidades, ficou sem previsão de retorno às aulas. A ficha só caiu quando o professor Áureo falou que as aulas da UFSC iriam retomar quando houvesse vacina e, naquela época, a gente nem tinha previsão. Realmente assustou todo mundo que tinha comércio ao redor.”
Neste momento, a ajuda dos amigos pegou Silvinho de surpresa. O advogado Tobias Klen, de 25 anos, conta que tiveram a ideia de fazer uma campanha de arrecadação para o cozinheiro, sem ele saber.
Silvio César Bonifácio é considerado “a única unanimidade” do curso de Direito da UFSC – Foto: Leo Munhoz/NDCamisetas foram vendidas em homenagem ao Silvinho e todo o dinheiro arrecadado foi enviado para abater as despesas com a lanchonete recém aberta. Mais de cem pessoas contribuíram, com a venda de 116 camisetas com a estampa “Chamadinha, pão com bolinho, maionese verde, cerveja gelada, partiu Silvinho”. O total arrecadado foi de R$ 4.827.
“A gente fez questão de fazer o ponto de entrega ser na lanchonete, porque os alunos podiam dar um abraço nele, compravam um lanche e isso foi mito bacana. Deu pra ver o quanto ele é querido e o quanto esse movimento fez bem para ele também, não só pelo retorno financeiro, mas pelo carinho que recebeu”, completa Tobias .
Copa Silvinho
A vontade de aproximar os graduandos aos formados do curso de Direito fez surgir a Copa Silvinho, um jogo de futebol semestral que homenageia o cozinheiro.
Ao longo das cinco edições, muitas memórias foram criadas, mas uma das mais marcantes foi em 2018, conta o assistente jurídico Paulo Remus Gregório, de 27 anos.
Tobias Klen e Silvinho na arrecadação de fundos – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/NDLogo após a partida, os alunos sugeriam fazer a confraternização no bar do Silvinho, “até para ele fazer um dinheiro extra”. Mas quando o manezinho ouviu a proposta, sua reação pegou todos de surpresa.
“Vamos fazer um churrasco e eu não vou trabalhar. Vou para a confraternização com vocês e vendo a cerveja a preço de custo.”
Naquele momento, Paulo percebeu o quanto “a UFSC é importante para ele e o quanto ele foi importante para gente, ele preferia muito mais estar ali curtindo com a gente do que receber aquele valor extra”. E esses encontros ocorrem até hoje. A sexta edição da Copa Silvinho será realizada nos próximos meses.
O que mudou
O período mais difícil durante os 14 anos de lanchonete eram as férias na universidade. “Chegava a ficar meio paranoico. Escutava barulho de moto e parecia assalto, porque durante as aulas não se ouvia nada. Todo mundo falando junto, todo mundo rindo, todo mundo conversando.”
O lugar reunia tanto a esquerda quanto a direita, em um ambiente “muito democrático”. Com o fluxo alto de pessoas, havia discussões, é claro, mas “muito saudáveis”, como ele mesmo pontua.
Receita autoral conquistou alunos da UFSC ao longo dos anos – Foto: Leo Munhoz/NDMas a agitação universitária deu lugar a um ambiente mais calmo. Silvinho precisou se reinventar e criou a nova lanchonete em cima da casa da mãe, na rua Desembargador Nelson Nunes, no Morro do Céu, na região Central de Florianópolis.
“Por dia atendo cerca de 30 pessoas. Hoje também trabalho com delivery, onde eu também reencontrei o meu público”, conta Silvinho. Além da tia Regina, trabalham a esposa de Silvinho, Rosana Silva, de 49 anos, o filho Juan Silva Bonifácio, de 20, e os motoboys Silvio Goularte e Gleyson Gomes.
“Geralmente o pessoal pergunta: e se pudesse voltar [ao Servidores]? Voltaria agora, fecharia tudo e voltaria. Posso abrir segunda-feira? Se puder eu já entro, limpo tudo e começamos a trabalhar”, brinca o manezinho.
Nova lanchonete do Silvinho no Morro do Céu – Foto: Leo Munhoz/NDMas o que não muda é a boa comida e carinho que ele recebe todo mundo que chega à lanchonete, como destaca André Picolotto, quando conheceu o novo espaço há pouco tempo.
“Fazia anos que eu não via o Silvinho. O carinho com que ele me recebeu foi como se a gente tivesse se encontrado no dia anterior. E isso é com todos os ex-alunos. Muitos nem estão mais em Florianópolis, mas têm saudade, fazem questão de visitar a nova lanchonete e são recebidos da mesma forma.”
André lembra ainda de tia Regina, que o abraçou, o chamou pelo nome, e passou a mão em seu cabelo, mesmo depois de tanto tempo. “É o tipo de relação que é muito rara de a gente encontrar.”