Por que mulheres ainda são vistas como objetos de dominação masculina?

Reflexos de uma história pautada no machismo geram uma espécie de "subconsciente social" de que mulheres ainda são patrimônios a serem administrados

Foto de Grazi Guimarães

Grazi Guimarães Itajaí

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Todos os dias, invariavelmente, se você abrir o noticiário na seção de violência ou segurança pública, vai encontrar pelo menos uma notícia recente de violência contra a mulher. Como jornalista eu me deparo com relatos horríveis de agressões contra a mulher todos os dias.

Nem sempre temos acesso ao que desencadeou a agressão, mas quando a gente consegue esses relatos, sempre tem relação com sentimentos de posse, controle e ciúmes.

Ela não pode se separar, não pode encontrar um novo amor ou seguir a vida sozinha, ela não pode simplesmente sair, não sem o seu “dono” deixar.

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Mulheres ainda são vistas como objeto de dominação masculina perante a sociedade – Foto: Getty Images/NDMulheres ainda são vistas como objeto de dominação masculina perante a sociedade – Foto: Getty Images/ND

Eu sei, é revoltante ler isso e escrever é ainda mais. Avançamos tanto! Temos tantas leis de proteção à mulher, informação todos os dias sobre violência e a importância de denunciar as agressões, participação da mulher na economia, na política… Então por que ainda somos vistas como uma “coisa” um “objeto” no qual alguém toma posse e fim?

Daíra Andréa de Jesus é advogada e professora do curso de Direito da Unifebe, em Brusque, no Vale do Itajaí. De forma recorrente ela debate com seus alunos a respeito dos direitos das mulheres e porque ainda parte da sociedade nos vê como objeto.

A história é longa, foram séculos de um sistema escrachadamente machista e autoritário e, para Daíra, ainda hoje, em pleno século XXI, sofremos com os reflexos dessa história.

Daíra Andréa de Jesus é advogada e professora do curso de Direito da Unifebe – Foto: Arquivo pessoal/ReproduçãoDaíra Andréa de Jesus é advogada e professora do curso de Direito da Unifebe – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

“Ranços históricos contribuem para que as mulheres ainda sejam vistas como objetos e, consequentemente, vitimadas por uma violência generalizada. Como sintetizou a jurista Maria Berenice Dias, ‘a presença da mulher é uma história de ausência’. Há um longo e desfavorável passado de assimetria de poder em relação ao homem, que era (e ainda é) considerado um ser superior. Concepções filosóficas clássicas vislumbravam nas mulheres, meros ‘corpos’ e nos homens, ‘as mentes'”, destaca Daíra.

Ela completa evidenciando que “ao longo dos séculos, à feminilidade, era atribuída uma carga negativa, não sendo a mulher um sujeito considerado independente ou autossuficiente. Num primeiro estágio de vida, a mulher era propriedade do pai, já num segundo estágio, era propriedade do marido, o que significa que a sua métrica sempre foi um homem”.

Negras eram meras mercadorias

É importante ainda, neste tema, fazer um recorte de raça que nos faz entender o grande desafio de ser mulher negra no Brasil. Foram 388 anos de escravidão. Por 388 anos mulheres negras foram vistas como meras mercadorias, como explica Daíra.

“No caso da mulher negra escravizada, por exemplo, forçadamente ‘reprodutora’ do máximo de bebês/mercadorias possíveis, o seu valor monetário podia ser calculado a partir da sua capacidade de se multiplicar. Pela condição feminina e racial, a mulher negra, cuja voz, raramente é ouvida, vem sendo duplamente caracterizada como um ser inferior, como um corpo colonial”, salienta.

A partir desse olhar histórico é possível entender porque mulheres negras estão na base da sociedade, sendo as menos remuneradas, as que menos são amadas, as que trabalham mais e são obrigadas a suportar toda sorte de violência.

Esta carga ainda está presente em uma espécie de “subconsciente social”, onde mulheres são vistas como patrimônios ou seres abaixo da sociedade, mas isso não é por acaso. Há um sistema que favorece homens e prejudica mulheres e isso é evidenciado em diversas áreas da sociedade.

“O mundo sempre pertenceu aos machos”

Uma conjuntura histórica pautada no machismo e controle absoluto sobre as mulheres contribuiu para que, inicialmente, leis interpretassem a mulher como um objeto, não tendo autonomia para trabalhar, se divorciar, votar ou se candidatar a cargos políticos, entre outras regras que precisaram de uma pressão enorme para serem transformadas.

“Se no passado, o Direito foi positivado em legislações extremamente discriminatórias, atualmente, a mulher é socialmente responsabilizada pela agressão que sofre. Para além de suportar toda a sorte de opiniões que machucam, como ‘mulher gosta de apanhar’, ‘se apanhou foi porque mereceu’ e por aí vai, a mulher lida com a culpa de todo o mal que lhe ocorre”, explica Daíra.

Leis e concepções sociais foram criadas por homens e pensadas para o benefício masculino em primeiro plano – Foto: Getty Images/iStockphoto/NDLeis e concepções sociais foram criadas por homens e pensadas para o benefício masculino em primeiro plano – Foto: Getty Images/iStockphoto/ND

Essa culpa é justificada pela omissão ou descrédito do Poder Judiciário, lidando com a revitimização. Quando a mulher tem a coragem ou possibilidade de denunciar o seu companheiro.

“Mesmo vítima da empreitada criminosa, a culpa pelo ilícito pode recair sobre si e, socialmente, passa a ser a imagem da mulher vítima, que se tentará desconstruir, em que pese não tenha sido seu o comportamento abusivo e criminoso”, explica a advogada.

Simone de Beauvoir, escritora, intelectual, filósofa existencialista, ativista política, feminista e teórica social francesa já havia categorizado que ‘o mundo sempre pertenceu aos machos”. Regras, leis e conceitos sociais foram criados e pautadas no benefício do homem em primeiro plano – quando não o único- e depois, da mulher.

A sororidade como caminho para a emancipação completa

É claro que já avançamos muito e continuamos firmes na missão de conquistar melhores direitos, equidade salarial e a presença igualitária em inúmeros espaços, no entanto, para mudar esse “subconsciente social” de que mulheres são objetos é preciso nos unirmos ainda mais.

Daíra destaca que a sororidade e a fraternidade entre as mulheres pode culminar em posturas mais questionadoras e na necessidade urgente de incorporar um olhar sistemático sob a perspectiva de gênero na elaboração e implementação de políticas públicas.

Sororidade e fraternidade entre as mulheres é o caminho para uma emancipação completa – Foto: Pixabay/DivulgaçãoSororidade e fraternidade entre as mulheres é o caminho para uma emancipação completa – Foto: Pixabay/Divulgação

“A pauta feminista vem contando com o apoio da ONU (Organização das Nações Unidas), motivo pelo qual já se ouve a expressão: ‘organização do movimento feminista’.

No Brasil ainda são tímidas as teorizações acerca do feminismo, mas é possível observar um movimento de mudança. É importante que as mulheres tenham voz, que tenham a sensibilidade de enxergar a diversidade existente nesse vasto universo que envolve o ‘ser mulher’, finaliza.