Não é de hoje que existe o debate. Os cabelos afros recebem algumas vezes a conotação de “cabelo ruim”. Com os bebês ainda na barriga, as grávidas negras escutam: “Tomara que venha com cabelo bom” ou “será que vai ter cabelo ‘pixaim’?”.
Definir um cabelo como “ruim ou bom” tem a ver com os cuidados que ele recebe, e não com as suas características. O fato é que, se eu cuido do meu cabelo, hidrato, ele será bom! Independentemente de ser liso ou crespo. Não é mesmo, mulherada?
Mulher negra se empodera quando não se submete aos considerados ‘padrões’ – Foto: Freepik/DivulgaçãoA importância de assumir os crespos
Os cabelos afros (crespo, cacheado) sempre foram símbolos conhecidos na representação do orgulho, resistência, identidade e luta por liberdade dos negros. É uma identidade. Uma afirmação.
SeguirNos últimos anos o Brasil voltou a viver um momento de empoderamento. Digo isso porque é nítido que a “transição capilar” – quando as pessoas com cabelos alisados ou quimicamente tratados retornam ao cabelo natural crespo, black ou cacheado – voltou a ser uma marca de autoafirmação. As prateleiras de lojas agora dispõem de uma vasta variedade de produtos direcionados a esse público, coisa que há 10 anos era bem diferente!
Resgatar a identidade de origem devolveu às mulheres negras o orgulho do próprio cabelo. Incentiva a possibilidade de voltarem a usar os cabelos crespos e cacheados da forma que quiserem, sem restrições. Adotando novos cortes, texturas e penteados, como o black power.
Esse empoderamento é super positivo! Lembramos aqui que em outros contextos históricos os negros tinham seus cabelos raspados como forma de punição. Autores inclusive abordam como a raspagem era parte importante do processo de diminuir e subjugar a população negra, especialmente homens. As sinhás, com ciúmes de mulheres violentadas pelos homens brancos, também usavam a raspagem como prática de tortura.
Essas são apenas algumas referências históricas que nos mostram como a mulher negra se empodera quando não se submete às modificações por imposição da sociedade.
Mas vamos lembrar: isso tudo não significa que uma mulher que gosta de manter o cabelo com química não é empoderada! A regra é se sentir bem e livre para ser quem quiser.
Da transição capilar à coroa
Mas para aquelas que carregam o seu black como uma identidade (assim como eu), o cabelo é uma coroa! O processo de transição capilar á árduo, pede muita força da mulher. Vamos combinar que ter metade dos fios com química e a outra metade natural não é algo que a gente vê com bons olhos, não é mesmo? Ainda ficamos presos ao olhar alheio e à padronização dos cabelos longos.
É por isso que quando eles ganham forma, nos fortalecem. Nos representam! O uso do turbante também, mas ainda existem espaços que recebemos olhares “curiosos”. Sabemos que a intenção muitas vezes não é negativa. É por isso que buscar informação sobre a realidade dos outros nos leva a refletir e naturalizar as diferenças.
Informação é transformação!
A reflexão, aliás, é o primeiro passo da evolução de nós todos enquanto cidadãos! Vamos abrir nossos corações e pensar por um momento: nossas ações têm impacto negativo no próximo? Se percebemos que sim, por que não as evitar?
Quando o assunto é opinião, nada é verdade absoluta, não é mesmo? Mas quando falamos em contextos históricos é diferente! Nosso cabelo é sinônimo de resistência. E isso é história! Qualquer pesquisa sobre o assunto nos mostra que o cabelo crespo transcende a esfera estética e remete para além da beleza. É por isso que ele nos dá uma autoconfiança de rainha, de força.
Mulherada da minha vida que reina com suas coroas, minha eterna admiração. Mulheres que amam ser alisadas, trançadas, carecas, também! É isso aí, a liberdade sob todas as formas. Vamos em frente, todos os dias, arrumem suas coroas e reinem!