O professor do departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC, Francisco Ferreira, e a arquiteta, urbanista e especialista em mobilidade urbana portuguesa Rita Castel’Branco, falam à coluna sobre o projeto Coqueiros-Luz, que pretende ligar o Parque de Coqueiros ao Parque da Luz, liberando as margens das baías e estimulando passeios a pé e pelas ciclovias. Inspirada pela reabertura da ponte Hercílio Luz, em dezembro de 2019, a ideia será tema de um seminário virtual, nesta terça-feira, às 18h30.
Francisco Ferreira, professor do departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC – Foto: Divulgação/NDQual é a proposta do Coqueiros-Luz?
Francisco Ferreira – É um projeto de extensão do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFSC que contempla, basicamente, a necessidade de ampliação do parque de Coqueiros. Esse foi um dos pontos de partida. O parque ficou muito pequeno, tem afluência enorme de pessoas da região.
Também fomos inspirados pela reinauguração da ponte Hercílio Luz, que ativou uma memória da cidade, principalmente das áreas adjacentes, como Coqueiros, que foi o marco zero da balneabilidade da cidade. Na década de 1960, as pessoas saíam do Centro e atravessavam a ponte para tomar banho em Coqueiros. As famílias mais abastadas tinham casa de praia no bairro.
SeguirForam essas duas questões que nos levaram a repensar essa relação da cidade com a natureza. Precisamos encontrar um caminho para equilibrar mais a relação entre espaço construído e espaços públicos.
Rita Castel’Branco trabalhou durante15 anos na Prefeitura de Lisboa, vínculo que suspendeu para se dedicar ao doutorado – Foto: Divulgação/NDA experiência de Lisboa pode contribuir para o projeto em Florianópolis?Rita Castel’Branco – Sim, parte da inspiração vem de Lisboa, cidade que tinha e tem alguns desafios semelhantes. Nos últimos anos houve um esforço para recuperar áreas ribeirinhas e potencializar seu uso público, com espaços verdes e recuperação paisagística.
Em função disso, Lisboa é hoje uma referência e parte de sua atratividade turística tem a ver com isso. Uma cidade boa para as pessoas morarem é uma cidade bom mais potencial turístico. Lisboa foi a capital verde da Europa em 2020 porque tem um trabalho muito consistente nessa direção.
Na prática, qual é a ideia?
Francisco Ferreira – É criar um passeio, aproveitando o potencial cênico, integrando a paisagem que existe na borda e a relação com o mar pela mobilidade ativa – pedestres e ciclistas. É sair do Parque de Coqueiros, seguir pela ponte Hercílio Luz e chegar ao Parque da Luz, na cabeceira insular. C
om isso, a gente resgata essas áreas adjacentes que estão abandonadas, especialmente porque têm uma beleza paisagística extraordinária. Esse é o DNA do nosso trabalho. Além disso, temos que ‘atacar” dois problemas estruturais importantes, se não vai ser só maquiagem: busca de uma melhor balneabilidade e do transporte marítimo.
Como vem sendo as transformações urbanas com o Move Lisboa?
Rita Castel’Branco – Lisboa não era considerada ‘ciclável’ por suas colinas e não estava na nossa cultura. E isso, de fato, mudou. Esses processos são difíceis, mas essas mudanças são possíveis. O primeiro passo foi criar pequenos espaços para começar a ligar as áreas verdes, implantando uma primeira estrutura para fazer com as pessoas começassem a usar as bicicletas no fim de semana.
A partir daí isso foi crescendo e hoje em dia a cidade está mudando e criando novos hábitos. Cidades são complexas, com ‘n’ interesses diferentes. É preciso que o Poder Executivo tenha coragem e dialogue com a população, mas também é preciso que a população ajude. Cito o exemplo de transformação de um estacionamento em espaço verde: os moradores diziam que não queriam o espaço verde, e sim, estacionar. Hoje em dia está lá o espaço verde e todos gostam.
Acho que o Executivo deve ter uma visão de cidade, ter um caminho a seguir, e perceber que não há soluções fáceis e que não existem mudanças urbanas sem contestação.