Projeto gigante: pesquisadora de Blumenau auxilia escavações em prédio onde ocorreram torturas

Técnica de laboratório de Física da UFSC, a pesquisadora Maryah Elisa Morastoni Haertel participou da escavação no prédio utilizado na época da ditadura militar

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Redação ND Blumenau

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Uma pesquisadora da UFSC Blumenau participou das escavações do prédio onde funcionava o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo. No local, várias pessoas foram vítimas de tortura durante a ditadura militar.

Pesquisadora de Blumenau participa de projeto em São PauloMaryah Elisa Morastoni Haertel participou da escavação no prédio em que ocorreram torturas na época da ditadura militar – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução ND

Maryah Elisa Morastoni Haertel, de 37 anos, é técnica de laboratório de Física da universidade catarinense. Ela faz parte da equipe composta por profissionais de várias universidades brasileiras que atuam no projeto.

Mestre em metrologia científica e industrial e doutora em Engenharia Mecânica, a blumenauense atua na área de pesquisa da óptica aplicada, desenvolvendo tecnologia para ciências forenses.

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Projeto envolve pesquisadores de várias universidades

O projeto é coordenado pela Unifesp, UFMG e Unicamp, mas pesquisadores de outras instituições também foram convidados a participar.

Em entrevista ao Portal ND+, Maryah explicou que o projeto, dividido em três frentes (arqueologia forense, arqueologia histórica e arqueologia pública), contou com o envolvimento de mais de 30 pessoas, entre pesquisadores e auxiliares, todos voluntários.

A pesquisa ocorre até 2024, tempo para a análise dos resultados obtidos nas escavações e outras frentes.

A pesquisadora catarinense faz parte do núcleo de arqueologia forense, coordenado pela professora Claudia Plens, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e participou da escavação que ocorreu na primeira quinzena de agosto, na sede do antigo DOI-Codi de São Paulo, onde atualmente fica a 36º Delegacia de Polícia.

Maryah Elisa Morastoni Haertel participou da escavação no prédio em que ocorreram torturas na época da ditadura militar – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução NDMaryah Elisa Morastoni Haertel participou da escavação no prédio em que ocorreram torturas na época da ditadura militar – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução ND

Embora não seja arqueóloga, ela foi convidada devido à experiência com as tecnologias utilizadas para rastreamento de vestígios biológicos.

Maryah utilizou diferentes técnicas em alguns locais do prédio para tentar rastrear vestígios de cunho biológico (saliva, sangue, urina, entre outros) que podem ter sido produzidos em centros de tortura e que, ainda, possam estar presentes no prédio.

Além disso, serão pesquisados documentos, colhidas e analisadas entrevistas de pessoas que vivenciaram experiências nesse ambiente durante o período estudado.

“A partir desta pesquisa, será possível produzir conhecimento e entendimento dos mecanismos adotados pelo órgão e suas conexões com outros espaços de tortura, tanto no Brasil como na América Latina, assim como compreender o impacto social destas atividades na sociedade brasileira, para que a sociedade possa compreender o papel do DOI-Codi durante a ditadura militar e o impacto das ações operadas nesse ambiente sobre as vítimas e familiares”, enfatizou.

Maryah Elisa Morastoni Haertel participou da escavação no prédio em que ocorreram torturas na época da ditadura militar – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução NDMaryah Elisa Morastoni Haertel participou da escavação no prédio em que ocorreram torturas na época da ditadura militar – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução ND

Vestígios foram encontrados durante escavação

A pesquisadora informou que diversos objetos na área de arqueologia foram encontrados durante a escavação, sendo também localizadas inscrições no banheiro do terceiro andar, que aparenta ser um calendário.

“O meu trabalho, especificamente, era de rastreamento de vestígios biológicos e também obtivemos alguns resultados positivos nos testes realizados em campo. Colhemos amostras que serão passadas por uma análise laboratorial, por isso trouxe amostras junto comigo para serem processadas na UFSC”.

Maryah comenta que a análise do material coletado será a próxima etapa da pesquisa, e as melhores técnicas a serem aplicadas ainda estão sendo estabelecidas.

“Além disso, essa coleta inicial foi realizada em espaços de sondagem, ou seja, aberturas pequenas no piso para entender o que havia por baixo. Com os resultados obtidos, estamos estudando a possibilidade de ampliar essas áreas e realizar novas coletas”, revela a pesquisadora.

Sobre participar do projeto, ela destaca que foi uma oportunidade única, pois havia uma probabilidade mínima de encontrar algo no local, já que o prédio foi modificado e utilizado por outro instituto após seu período como DOI-Codi, além de ter ficado um tempo abandonado após seu tombamento histórico.

“Eu acredito que é um trabalho que necessitava ser realizado. Se você fosse parente de algum dos presos, você não gostaria que uma pesquisa séria fosse ao local ajudar a materializar todos os relatos das barbáries ocorridas naquele lugar?  Estima-se que mais de sete mil presos passaram pelo local. É um respeito à memória de cada um que passou (e sofreu) por lá”, destacou.

Primeira vez que a Arqueologia Forense é aplicada no Brasil

Maryah ainda relatou que essa é a primeira vez que a Arqueologia Forense é aplicada no Brasil.

“Isso, por si só, já é um grande feito. Além disso, foram desenvolvidos métodos para que este estudo fosse viabilizado, para que fosse possível de ocorrer. Então há uma importância histórica considerando os achados e sua importância para contar a história da ditadura no Brasil, mas também na criação de métodos para a aplicação desses mesmo processos em outros locais de repressão”.

No Brasil, haviam DOI-Codi em quase todos os estados, o de São Paulo foi o primeiro e serviu como um modelo a ser replicado na época. Todo o trabalho foi filmado e, segundo a pesquisadora, irá virar um documentário.

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