Nós últimos 40 anos o padre Vilson Groh, presidente do Instituto IVG, vem construindo pontes com poder público e iniciativa privada com o objetivo de criar oportunidades para quem vive nas comunidades vulneráveis de Florianópolis e região.
Nesta entrevista, ele fala sobre o impacto da pandemia da Covid-19 entre os mais pobres, insegurança alimentar e o papel das políticas públicas no combate à fome.
“Qual a mãe consegue dormir em paz com seus filhos famintos? Quem consegue permanecer com a mente sã diante de tamanha pressão?”, afirma Vilson Groh. Ele fala também sobre a expectativa sobre a campanha “Amigos do IVG”.
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O Pe. Vilson Groh, presidente do Instituto IVG – Foto: Leo Munhoz/NDQual o impacto da pandemia nas comunidades mais vulneráveis e como está o cenário atual em Florianópolis?A população das comunidades empobrecidas foi a primeira a sofrer os impactos negativos da pandemia da Covid-19, muito além da doença. Como a Rede IVG está nas principais comunidades, o cenário de desemprego, endividamento e fome despertou em nós a urgência por um trabalho estruturado e em rede para que centenas de famílias pudessem receber auxílio imediato: cestas básicas, kits de higiene e proteção pessoal, progredindo para a Moeda Social (uma moeda alternativa).
Estávamos correndo contra o tempo e, sem dúvida, o número de parceiros, voluntários e doadores que conseguimos reunir nos fez investir quase R$ 2 milhões em ações de combate à fome nos últimos dois anos, beneficiando 6.722 famílias. Isso foi possível porque pessoas, desejosas por fazerem o bem, reconheceram o IVG como uma instituição capaz de socorrer quem realmente precisava.
De abril de 2020 para cá, a percepção que se tem, no dia a dia da periferia, é que o custo de vida aumentou substancialmente. Estamos falando do essencial: água, energia, gás de cozinha e alimentos básicos. Quando olhamos para o aumento no índice de extrema pobreza em Florianópolis (30,39%, segundo o CadÚnico de agosto de 2021), a certeza que temos é que essa população, a mais vulnerável, será a última a se recuperar dessa crise multidimensional.
Cabe ao poder público, com políticas públicas sociais efetivas, priorizar, no orçamento anual e quadrienal, os empobrecidos a partir das suas prioridades. Não é uma questão só de sobrevivência, mas de garantir os direitos de acesso ao lazer, ao esporte, à cultura, educação, saúde e transporte público.
Quanto à iniciativa privada, é importante se atentar a esse cenário pela perspectiva da responsabilidade social, entendendo que existem organizações da sociedade civil capazes e cidadãos comuns bem-dispostos para se juntarem e construírem os elos de uma corrente fortalecida por uma cultura de solidariedade estrutural.
Nos últimos 40 anos o senhor tem construído pontes e estimulado a empatia e a solidariedade no combate à exclusão. Temos avançado nesse aspecto como sociedade?
Não podemos falar de 40 anos de trabalho sem considerar a presença dos nossos doadores, parceiros e voluntários, pessoas que decidiram em seus corações por serem mais conscientes, comprometidas e solidárias. Elas são fundamentais para a sustentabilidade dos nossos programas.
O resultado disso é o número de pessoas impactadas pela Rede IVG, que aumenta a cada ano. Só em 2021, foram 20 mil pessoas. Acredito, inclusive, que esse avanço se deve a forma como a pandemia despertou na sociedade um desejo de sair da indiferença, da apatia e partir para uma ação concreta, movida pela compaixão e até mesmo indignação.
Porém, é importante ressaltar que a decisão de fazer o bem não serve para aplacar uma consciência afligida por tantas perdas e retrocessos vividos no país. Essa decisão precisa ser diária, genuína e enraizada do entendimento de que ninguém tem e sabe tão pouco que não possa compartilhar, estender da sua casa para o sem teto, da sua mesa para o faminto, do seu dinheiro para o pobre e do seu guarda-roupa para aquele que está nu.
Como vê o papel das políticas públicas no combate à fome, um dos principais problemas hoje do Brasil?
Para opinar sobre as políticas públicas atuais, é preciso analisar profundamente a estrutura política, social, econômica e cultural da nação. Na lida com as famílias de periferias, é nítido que a maioria dos lares possuem a mulher como única provedora.
Essa mulher é a mesma que sofreu abandono e violência, e vem lidando por anos a fio com o machismo e o empobrecimento, de forma que a força a aceitar subempregos. Diante desse contexto, podemos então dar uma opinião justa sobre as políticas públicas, principalmente quando se fala na fome que míngua o prato de metade da nação brasileira e no desemprego estrutural.
Dados do Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça apontam que mais de 125 milhões de brasileiros (59,3% da população nacional) estão sofrendo insegurança alimentar. Qual a mãe consegue dormir em paz com seus filhos famintos? Quem consegue permanecer com a mente sã diante de tamanha pressão? Não há paz na fome, porque a paz é consequência da justiça social. A fome é a causa e o efeito de muitos problemas no país, principalmente o desmonte das políticas públicas atuais. Retrocedemos 30 anos no tempo.
Então, a visão que temos tido, enquanto Rede IVG, estudando e acompanhando as políticas públicas, é que elas de fato existem, porém não dialogam com as reais prioridades do povo. Elas agem pontualmente, mas não desencadeiam processos a partir de orçamentos participativos e planejamentos práticos. Se esquecem da solução em longo prazo, que são as políticas de aumento do salário mínimo, transferência da seguridade social, combate à pobreza e reforma da carga tributária, que tem reforçado e institucionalizado a concentração de riqueza no país.
Por isso, as políticas públicas não podem ser apenas programas de governos, mas políticas de Estado, onde o empobrecido é contemplado no orçamento da União.
Qual sua expectativa para a Campanha “Amigos do IVG”?
A campanha “Amigos do IVG” pode ser a construção de um sonho coletivo, em que conseguimos enxergar nossas comunidades empobrecidas e, principalmente, suas crianças, adolescentes e jovens como sementes poderosas que são. E, igualmente, tomar consciência das sementes poderosas que nós somos. Isto é, essa campanha vem como um convite para que as pessoas percebam as sementes transformadoras que elas são, ao se tornarem doadoras do IVG. Sementes que, somadas, misturadas e regadas, conseguirão desabrochar coletivamente e anunciar uma colheita de verdadeiras mudanças na Grande Florianópolis.
De forma prática, é um convite para que mais pessoas vivam uma alegria que enche o peito e dá sentido à vida. “Amigos do IVG” é uma oportunidade de transformar essa consciência coletiva de solidariedade na marca da sociedade ao passo que o IVG consegue dar continuidade e expandir seus projetos que têm beneficiado atualmente 5.957 crianças e jovens.
Quanto mais crianças e jovens nós oportunizamos um caminho de oportunidades, mais necessário se faz a presença de pessoas doadoras, parceiras e voluntárias.
Quais projetos fazem seus olhos brilharem mais no dia a dia?
Costumo dizer que a minha maior dor é quando preciso fazer o funeral de um adolescente, um jovem, que tinha um futuro brilhante pela frente e foi perdido para o mundo do tráfico, do crime. Esse jovem poderia ter sido um advogado, um artista, um cientista, um político. Por que não? Essa ideia de que o jovem da periferia é incapaz, preguiçoso e desinteressado não é verdade.
Temos um grande capital social nas mãos. Meus olhos brilham ao ver as organizações da Rede IVG desenvolvendo seus projetos que pensam na criança e no jovem de forma integral, ajudando-os a serem protagonistas de suas histórias de vida, além dos quatro principais projetos do IVG (o Fundo IVG de Combate à Fome, o Pré-vestibular e as bolsas de Ensino Técnico e Superior, o Programa Comunidades em Movimento e o Programa Pode Crer, que quer construir cinco Centros de Inovação Social e erguer pontes entre a juventude da periferia e os grandes polos de tecnologia e inovação).
Estamos há 40 anos persistindo com ousadia e teimosia nessa missão de que famílias tenham alimento sobre a mesa, estruturando um negócio próprio, de que jovens possam entrar nas universidades, serem doutores, fazer residência em hospitais renomados no Brasil, entrar na mídia, na saúde… profissionais com uma forte consciência humana e cidadã.
Meus olhos também brilham quando vejo pessoas do “Centro” acolhendo essa missão da Rede IVG, rompendo com a indiferença e ajudando a construir uma cidade mais equânime e democrática, no foco da justiça social, tecendo uma cultura do encontro através da amizade social e da fraternidade