Repórter do ND Mais no RS: ‘Com água na altura do peito tento gargalhadas com a própria dor’

19/05/2024 às 05h30

Jornalista Vivian Leal, do ND Mais, foi resgatada na casa de familiares e vive junto com amigos em Porto Alegre enquanto água não recua para poder retornar para o próprio lar

Foto de Vivian Leal, Especial de Porto Alegre

Vivian Leal, Especial de Porto Alegre Florianópolis

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Correspondente do ND Mais no Rio Grande do Sul, Vivian Leal está entre os mais de 500 mil gaúchos que precisaram deixar suas casas para salvar a própria vida desde que o nível do Guaíba invadiu Porto Alegre. A jornalista relata os desafios de lidar com a angústia e ansiedade para retornar para casa em meio ao desafio de levar informação para quem precisa. Acompanhe abaixo.

Eu cresci no litoral norte do Rio Grande do Sul, o mar foi o meu quintal por mais da metade da minha vida. O mergulho sempre me trouxe uma energia muito forte, como se eu precisasse desse contato para me sentir mais forte e capaz. Eu nunca pensei que entrar na água pudesse ser uma coisa ruim, até precisar atravessar por um metro e meio de inundação para conseguir sair de casa.

Resgate na Orla do Guaíba – Foto: Vivan Leal/NDResgate na Orla do Guaíba – Foto: Vivan Leal/ND

Na quinta-feira, 2 de maio, choveu muito durante à noite e pude ver poças d’água se formando no pátio do prédio onde vivo, no bairro Praia de Belas, em Porto Alegre. Na manhã de sexta-feira, usando galochas até os joelhos, arrumei duas mudas de roupa, peguei meu cachorro, Theodoro Augusto, e fui para a casa da minha madrinha, a um quilômetro de onde moro. Na região dela, alguns metros acima do nível do rio, eu não teria problemas para sair e continuar a minha vida, pensei ingênua. Entreguei Theodoro ao pai dele, com quem tenho guarda compartilhada, e segui minha rotina naquele dia.

Desde às 9 horas do sábado, dia 4 de maio, a primeira coisa que faço ao acordar é olhar o nível do lago Guaíba. Naquele momento, o recorde da enchente de 1941 já tinha sido ultrapassado e estávamos a milímetros dos 5 metros de altura. Quando desci os dois lances de escada do prédio, a água já havia coberto a rua e estava a um palmo de invadir o prédio. Os meus planos de manter a normalidade já eram, não tinha mais o que fazer. Minha preocupação era conseguir galochas novas para poder ir trabalhar no dia seguinte, já que passar um fim de semana inteiro sem poder sair de casa não era uma possibilidade – e de fato, não foi. Às 15h do domingo, minha amiga e competente repórter, Gabriela Dias, me resgatou com a ajuda de uma pantaneira e do namorado, Eduardo Carvalho, que, além de jornalista, também é um grande jogador de FIFA. Atravessamos juntas a Avenida Praia de Belas e a Rua Comendador Rodolfo Gomes, com água na altura do peito e gargalhadas de quem tenta fazer graça com a própria dor.

Vista do prédio de Vivian Leal, do ND Mais, na rua Ismael Chaves Barcelos, 8 de maio – Vídeo: Geovane Santiago/Reprodução/ND

Duas semanas depois, eu continuo vivendo com o casal que me abrigou. Temos água, luz, internet, comida, pude comprar algumas peças de roupa quente – já que a temperatura caiu mais de dez graus de uma semana para a outra – e tenho, como o caro leitor já deve ter notado, amigos bons e muito generosos.

Não teria nada do que reclamar e sei que não tenho, mas não posso ignorar o fato de que moro, atualmente, em um espaço que não é meu, em um lar que, por melhor que seja – e ele é – não é parte de mim. Sinto falta dos meus livros, dos meus travesseiros e da minha cama. Sinto falta do meu sofá e da colcha que uso em cima dele para que o cachorro possa deitar ao meu lado. Sinto falta da claridade que entra pela janela e dos ruídos da rua que me acordam sempre, pontualmente, às 6 horas e 30 da manhã. Também sinto falta de não sentir culpa.

Resgate no viaduto da avenida Cairu, em Porto Alegre – Vídeo: Vivan Leal/ND

Eu costumava correr quase todos os dias pela Orla do Gasômetro, mas da última vez que estive ali, só o que vi foram pessoas e animais saindo de barcos após ficarem horas esperando pelo resgate em cima de telhados.

Vi voluntários, militares, atletas profissionais e artistas, gente que, na vida real, não teria como abdicar do seu sustento para ficar doze horas por dia em uma tenda de emergência, cuidando de completos desconhecidos e necessitados. Eu me emocionei com a coragem e grandiosidade dessas pessoas. A trabalho, visitei abrigos, conversei com pessoas que perderam tudo e também com pessoas que preferiram não sair de casa. Ouvi de comerciantes que foi graças aos alertas da defesa civil que puderam doar todo estoque e que, por isso, as perdas foram só materiais. “Agora é limpar e reconstruir”, outros disseram, com a esperança de quem ama o que faz e não quer deixar morrer o sonho de uma vida inteira.

Conheci uma senhora que fez aniversário em um abrigo, 77 anos, tão simpática que, por um momento, até esqueci as condições e o local em que estávamos. Ela falava de um jeito tão feliz, tão vivo, como se estivéssemos tomando um chá na sala de casa e não em um ginásio com mais duzentas pessoas que não fazem ideia de para onde irão quando – e se – tudo isso acabar.

Avenida Praia de Belas, 4 de maio – Vídeo: Vivan Leal/ND

Um dos meus vizinhos decidiu ficar no prédio e é ele quem vem informando aos demais condôminos sobre o nível da água. Na sexta-feira, ele conseguiu sair pela primeira vez, desde o dia 3. Estava sobrevivendo com estoque de água, comida e carregadores portáteis que garantiam o uso limitado de celular.

Espero que, nos próximos dias, eu consiga retornar para a minha casa, mesmo que o temor de não saber o que encontrarei me cause ansiedade.

Sei que a água não chegou no meu andar, mas o alimento que estava na geladeira estragou pela falta de luz, os lixos que não tive tempo de retirar apodreceram, o mau cheiro trazido pela água deve ter tomado conta do edifício, minhas plantas que viviam de sol, hoje, devem ser só terra e folhas secas. Mas tudo isso não é nada, nada, comparado ao que outras pessoas estão passando e, mesmo sabendo que eu preciso acolher meu sentimento, não me permito ou sinto culpa por sentir – talvez por isso eu tenha doado para todas as campanhas solidárias que chegaram até mim e já faço um levantamento mental do que será destinado para novas doações, quando eu puder entrar em casa.

Vivian Leal (à direita) e a amiga, Gabriela Dias, em Porto Alegre – Foto: Vivian Leal/NDVivian Leal (à direita) e a amiga, Gabriela Dias, em Porto Alegre – Foto: Vivian Leal/ND

Quase dez anos de jornalismo me permitiram cobrir tragédias, escândalos, julgamentos emblemáticos, crimes hediondos e inúmeros problemas cotidianos causados pela má administração pública. Nós, jornalistas, aprendemos, com o passar dos anos, a manter distância dos casos para não pessoalizar a história. Desta vez, eu não consegui porque eu, pela primeira vez, fui parte das vítimas – em menor escala e com muitos privilégios – de uma tragédia sem precedentes em todo o país. Não vai ser fácil quando eu entrar em casa pela primeira vez, depois de todo esse tempo, e será ainda mais difícil continuar dando luz para aqueles que não fazem ideia de quando terão a mesma oportunidade, ou se terão para onde retornar.

A enchente que atinge o estado do Rio Grande do Sul não acaba com o fim da chuva ou com o nível da água baixando. Essa tragédia só termina quando todos os mais de dois milhões de afetados, 540 mil desalojados e quase 80 mil gaúchos, que estão vivendo em abrigos, tiverem a possibilidade de voltar a viver com dignidade e não mais, apenas, sobreviver a um dia de cada vez. E eu desejo estar viva para ver isso acontecer.