‘Se parar de rir, a gente chora’: como a rede de solidariedade ajuda atingidos pela enchente

22/05/2024 às 12h15

Em apenas um centro de distribuição, voluntários distribuem roupas, alimentos, kits de higiene e distribuem 4 mil marmitas diariamente para os afetados pela enchente no Rio Grande do Sul

Foto de Vivian Leal, especial de Porto Alegre

Vivian Leal, especial de Porto Alegre Porto Alegre

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Na casa da dona Solange Villodo, são sete pessoas: o marido, o filho, a nora e os três netos. A única renda da família é a aposentadoria do marido, suficiente para o casal, mas desde que a casa do filho ficou submersa com a enchente, todos estão vivendo juntos, no bairro Sarandi.

O galpão recebe, por dia, cerca de oitocentas pessoas em busca de donativos dos mais variados após a enchente – Foto: Vivian Leal/NDO galpão recebe, por dia, cerca de oitocentas pessoas em busca de donativos dos mais variados após a enchente – Foto: Vivian Leal/ND

“Vim buscar alimento, um colchão de solteiro, produtos de higiene e limpeza basicamente. Aí a gente está no aperto, né?! Ainda bem que a gente para onde correr essa hora. Semana passada vim buscar também, mas já está acabando“, conta à reportagem.

A manicure Mara Cristiana, de 51 anos, também foi até o local para garantir as doações, já que está sem trabalhar desde que as enchentes começaram.

“Quem é que vai fazer um pé, uma mão se não tem nem para comer? Nessa situação não tem como, os armários batendo em casa. Isso é uma humilhação para o povo gaúcho e quem está ajudando o povo, é o povo”, diz indignada.

O local ao qual as mulheres ouvidas pela reportagem sobre a enchente e outras dezenas de pessoas recorrem é o SOS Sarandi – Foto: Vivian Leal/NDO local ao qual as mulheres ouvidas pela reportagem sobre a enchente e outras dezenas de pessoas recorrem é o SOS Sarandi – Foto: Vivian Leal/ND

O local ao qual as mulheres ouvidas pela reportagem e outras dezenas de pessoas recorrem, por conta da enchente, é o SOS Sarandi, que se transformou em um centro de distribuição de donativos e refeições, localizado na Zona Norte de Porto Alegre.

Desde que o bairro foi inundado pelas águas do lago Guaíba e do Rio Gravataí, após o rompimento de um dique, mais de trinta mil pessoas foram afetadas, e parte do bairro está sem luz há quase vinte dias em razão dos alagamentos.

Mais de trinta mil pessoas foram afetadas pela enchente, e parte do bairro está sem luz há quase vinte dias em razão dos alagamentos – Foto: Vivian Leal/NDMais de trinta mil pessoas foram afetadas pela enchente, e parte do bairro está sem luz há quase vinte dias em razão dos alagamentos – Foto: Vivian Leal/ND

A casa de Wagner Scheffer, o qual é um dos organizadores do espaço, está com água até o teto do segundo andar.

“Não consegui chegar lá ainda porque não tem como chegar, só de barco. Temos uma estética também, que entrou água mais ou menos pela cintura. Mas não adianta, onde a água entrou, inchou todos os móveis e é perda total, vai tudo para o lixo”, afirma.

Afetados pela enchente no Rio Grande do Sul passam por triagem para receber ajuda

O galpão recebe, por dia, cerca de oitocentas pessoas em busca de donativos dos mais variados. Cada um que chega vai até o cadastro, feito em recortes de papel ofício, e explica o que precisa, quantidade e quantas pessoas têm na família ou residência.

Se o morador precisar de roupas, por exemplo, deve explicar se são masculinas, femininas, infantil, numeração, se consegue lavar em casa ou se precisará de mais quantidade para revezar.

Cada um que chega vai até o cadastro, feito em recortes de papel ofício, e explica o que precisa – Foto: Vivian Leal/NDCada um que chega vai até o cadastro, feito em recortes de papel ofício, e explica o que precisa – Foto: Vivian Leal/ND

“A gente faz uma triagem logo que as doações chegam antes de distribuir para o pessoal. Depois, as pessoas vêm aqui, dizem o que precisam e as voluntárias separam conforme o pedido. Tem gente que vem todo dia e a gente tenta conscientizar, tanto que pega doação, quanto as pessoas para que não parem de doar”, explica Scheffer.

A equipe conta com um sistema de comunicação para facilitar a ordem dos trabalhos – Foto: Vivian Leal/NDA equipe conta com um sistema de comunicação para facilitar a ordem dos trabalhos – Foto: Vivian Leal/ND

O eletricista Roger Padilha, de 33 anos, e o irmão de Wagner, Natanael, de 24, também estão na linha de frente do trabalho desde o início. Foi de Roger a ideia de colocar todas as doações em um depósito para facilitar a entrega aos afetados pela enchente.

“A gente começou distribuindo café, almoço e janta para o pessoal, logo que os resgates começaram, aí pensei que a gente tinha que começar a ajudar quem já estava do lado de fora. Conseguimos esse espaço emprestado para colocar os kits de higiene, roupas, coisas que vão para doação, né?! E mantemos, na rua debaixo, a distribuição das marmitas, são umas quatro mil todos os dias”, relata o voluntário.

A equipe conta com um sistema de comunicação para facilitar a ordem dos trabalhos. Os radiocomunicadores de longo alcance ajudam quando estão em pontos diferentes do bairro, obtidos também via doações.

“Tem um pessoal que toma conta da gente e vai atrás de tudo que a gente precisa; capa de chuva, bota, remédio, tudo. A gente não colocou a mão no bolso para nada — até porque ninguém mais tem um real né?!”, brinca Wagner Scheffer.

Toda a estrutura existe desde o dia 6 de maio, quando a região foi alagada. Nas redes sociais, o abrigo já possui mais de 12 mil seguidores e publica diariamente os resultados dos trabalhos, direcionamento dos donativos e principais demandas do dia.

“Se a gente parar de rir, a gente vai chorar”

O abrigo se transformou na segunda casa de alguns voluntários. Diariamente, cerca de cinquenta pessoas atuam em conjunto para garantir assistência aos moradores da região.

Roger, Wagner e Natanael, por exemplo, dormem no abrigo porque estão desalojados por conta da enchente.

“A minha família está na praia, meu irmão e eu voltamos para ajudar aqui. Em cima da minha laje tem água até o joelho, minha casa sumiu completamente”, conta Natanael.

Roger, Wagner e Natanael estão desalojados por causa da enchenteRoger, Natanael e Wagner (da esquerda para a direita) estão desalojados por conta da enchente – Foto: Vivian Leal/ND

“Pessoal pergunta como a gente passa o dia inteiro rindo e trabalhando, mas é simples: se a gente parar de rir, a gente vai chorar”, completa o motoboy.

O grupo monitora o nível da água e já se organiza para iniciar um mutirão de limpeza na região após as enchentes, tudo graças ao voluntariado.

“Um grupo já está se mobilizando com lava-jatos para emprestar, estamos vendo produtos de limpeza e contando com a ajuda das pessoas. Se fossemos depender do governo para dar o suporte que estamos dando para o nosso povo, tudo fica mais difícil. A gente buscou ajudar”, finaliza Roger.

A prefeitura de Porto Alegre auxilia na limpeza em regiões que já foram liberadas para circulação.

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