Julia* ficou triste, mas aliviada ao receber a mensagem do ex-namorado afirmando que não gostaria de ser registrado como o pai da filha dos dois. A moradora de Florianópolis conta que o sentimento veio da certeza que, mesmo registrado, o homem não participaria da criação.
A ausência da figura paterna em famílias de estudantes de Santa Catarina fez com que escolas estaduais e municipais deixassem de celebrar o Dia dos Pais, que acontece neste domingo (13).
Em SC, cerca de 21,5 mil crianças não tiveram o nome do genitor registrado nos últimos 5 anos – Foto: Pexels/ Reprodução/ NDConforme dados da Arpen-SC (Associação dos Registradores de Pessoas Naturais), apenas nos últimos cinco anos, 21,5 mil crianças nasceram com mães-solo no estado, sem o nome do genitor registrado.
O número teve um pico em 2020, ano da pandemia, quando 6,7 mil nascidos foram registrados apenas com o nome da mãe. Segundo a associação, até julho deste ano, 2,8 mil pequenos têm esse status.
História real
Julia* conta que se separou do namorado com quem estava há um ano e meio quando estava grávida de 4 meses. No período em que estiveram juntos, ela lembra como ele expressava o desejo grande de ser pai. No entanto, depois da separação, o homem passou a não participar dos exames de pré-natal e não foi ao chá de bebê.
Com cinco meses de gravidez, Julia* recebeu uma mensagem do ex alegando dúvidas a respeito de quem seria o genitor da criança, e pediu para que não fosse registrado como pai da bebê quando ela nascesse. A notícia causou um misto de sentimentos.
“Me senti muito mal…Pois ‘amava ele’ e tal dúvida soou como uma ofensa/humilhação. Mas também me trouxe um certo alívio, pois ele me pressionava e falava em alienação parental. Depois de convidá-lo para uma consulta de pré Natal (ao qual ele dizia querer me acompanhar) ele me comunicou via whats que não iria registrá-la em função da sua dúvida”.
Mesmo sem ter o nome do genitor registrado no momento do nascimento do bebê, Julia* afirma que pretende tomar medidas judiciais para que o pai da criança seja reconhecido. A mãe explica que o objetivo é assegurar os direitos da filha, mesmo que o genitor não participe da criação.
“Acho importante no que se refere à identidade, entretanto, este fato não deve sobressair ao bem-estar da criança. De modo que com a recusa do pai, seja por qual motivo for, não deve interferir no direito à mulher de assegurar à criança o registro civil, ou de acordo com a declaração universal dos direitos das crianças, direito a um nome e uma nacionalidade”, explica.
Escolas de SC deixam de celebrar Dia dos Pais
Aurora*, filha de Julia*, completa um mês de nascimento neste domingo (13), data em que se celebra o Dia dos Pais no Brasil. As estatísticas catarinenses são refletidas nas salas de aula de Santa Catarina, onde algumas escolas passaram a celebrar o Dia da Família e deixaram de celebrar a data que homenageia os pais.
Márcia Benetti é diretora da Escola de Educação Básica Edith Gama Ramos, localizada em Florianópolis, que leciona para estudantes do 1º ao 9º ano, entre 6 a 14 anos. A gestora conta que são “muitos” os estudantes sem a presença do pai.
Segundo ela, a ausência é percebida em documentos, conversas e principalmente no desempenho acadêmico dos estudantes.
“Pedagogicamente optamos, em nossa escola, não celebrar esta data separada. Da visão do aluno que não tem seu pai presente. Acreditamos que eles sintam menos aperto no coração. É claro que eles devem sentir a ausência da figura do pai, principalmente nesta data… Mas não seremos nós, escola, que vamos deixá-los ainda mais tristes”, defende.
Márcia explica que os professores são orientados sobre como se posicionar em datas como dia das mães e dos pais, que não são celebrados na instituição.
“Acreditamos que desta forma, não criaremos nenhuma situação de discriminação ou constrangimento social ao aluno que não tem a convivência com seu pai (genitor). Sempre em datas como Dia dos Pais ou Dia das Mães, falamos em família, ou na pessoa que cuida de você”, ressalta.
Além de mãe, Julia* é professora, e concorda que as escolas não comemorem a data. Segundo ela, o dia da família abrange não só as crianças criadas por mães-solo e outros parentes, mas também famílias de configurações homoafetivas, com dois pais ou duas mães.
“Acredito que seja muito positivo tendo em vista o número de mulheres no Brasil que não contam com registro e participação efetiva desses pais. Respeitar as novas constituições familiares também é outro motivo. [Existem] várias outras constituições familiares, e por isso respeitamos as crianças e suas famílias nas mais diversas formas de vínculos”, afirmou.
*Nomes alterados para preservar a identidade dos envolvidos