O Movimento Negro Maria Laura, de Joinville, no Norte de Santa Catarina, denunciou um caso de racismo durante eleição do Conselho Municipal de Política Cultural, que aconteceu por meio de um encontro online, na noite de quarta-feira (13).
Movimento Negro Maria Laura denunciou caso de racismo em eleição para conselho em Joinville – Foto: Reprodução/InternetTrechos da gravação da reunião divulgados pela entidade mostram o momento em que uma das participantes falava sobre a rapper Amazona MC, candidata ao cargo de suplente da área de patrimônio imaterial, quando outra mulher, aparentemente sem saber que estava com o microfone ligado, faz comentários.
Enquanto a participante tece elogios à rapper, a mulher, que é servidora municipal, diz: “mulherão que ela é… Só porque é negra”. Em seguida, quando um participante fala “salve, salve”, como modo de cumprimento aos demais, é possível ouvir a mesma pessoa dizendo “isso é coisa de bandidinho”.
SeguirBoletim de ocorrência foi aberto
Amazona MC abriu um boletim de ocorrência na quinta-feira (14) e disse esperar uma nota de retratação por parte da servidora.
“Me sinto péssima em passar por momentos como esse, momento que seria de comemoração por uma conquista que foi me tornar conselheira suplente do conselho, e ser distinta pela minha cor ou idade, sem nem ao menos saber do trabalho que faço em meio a sociedade”, desabafa.
O Movimento Negro Maria Laura reclama que o vídeo foi excluído do canal, impossibilitando a revisão das imagens e áudios “para conferir se houve mais falas racistas”.
“A Amazona MC é uma mulher negra, rapper e trabalhadora de respeito e nós temos muito orgulho de viver na mesma época que ela. E criminosa é quem fez essa fala, pois racismo neste país é crime”, diz a publicação. Veja os trechos do vídeo e o posicionamento na íntegra:
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A vereadora Ana Lúcia Martins (PT), primeira vereadora negra eleita em Joinville, também publicou nota de repúdio sobre o caso. A eleição “ficou marcada pelo racismo e preconceito na fala do que parece ser uma das organizadoras e que integra o CMPC”, disse. Confira:
O Conselho Municipal de Política Cultural se manifestou a respeito do caso, repudiando as manifestações “notadamente de tom racista” e falas que colocam um “comportamento isolado” como posição de toda a entidade. Veja:
“O Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC) de Joinville vem, por meio desta, manifestar o seu repúdio e a sua incredulidade com relação às manifestações, notadamente de tom racista, ocorridas durante a realização do Fórum Setorial de Patrimônio Imaterial, realizado na noite de quarta-feira, dia 13 de abril, de forma virtual, com objetivo de eleger a posição vaga de conselheiro suplente deste setorial.
O CMPC, colegiado normativo, consultivo, fiscalizador e deliberativo, formado por representantes do executivo e sociedade civil, considera extremamente ofensivas as palavras proferidas durante esse encontro e assevera que cobrará dos setores competentes a averiguação e apuração de responsabilidades bem como a aplicação das devidas sanções e/ou punições, sejam elas quais forem, para o(s) autor(es) deste ato vil e indesculpável.
O CMPC coloca-se em posição diametralmente oposta e, novamente, repudia este tipo de comportamento deplorável que, infelizmente, ainda lamentavelmente permeia parte da sociedade brasileira. O CMPC reitera, ainda, seus princípios de democracia, acolhimento e participação popular em encontros como esse em que se propõe a atuar, onde o objetivo é a organização em política cultural da sociedade civil, e a principal premissa é a de respeito aos pares, independente de gênero, etnia, credo ou qualquer outra condição.
Complementando a presente Nota, o CMPC igualmente repudia falas ou manifestações infames que colocam um comportamento isolado, cuja autoria ainda está sendo averiguada, como sendo a posição da totalidade desse Conselho, ainda antes de qualquer apuração e apontamento da responsabilidade do ato ocorrido – sem que pudesse haver previsão deste tipo de comportamento – e a ciência de que setor partiu a fala de tom racista em uma reunião que no momento contava com 48 pessoas, sendo o Conselho formado, paritariamente entre Sociedade Civil e Poder Público, por 24 Conselheiros titulares e 24 suplentes (48 no total), dos quais apenas três estavam presentes, por se tratar de um Fórum extraordinário, com pauta única de eleição de suplente do setorial de Patrimônio Imaterial.
O CMPC afirma que aqueles que imputam a este Colegiado e seus representantes a condição de conivência com comportamentos criminosos apontados acima, comete um ato irresponsável ao considerar “todo” o Conselho e seus representantes como racistas, inclusive a recém eleita Conselheira, vítima desse ato vil, maculando a idoneidade pessoal dos seus membros com acusações igualmente falsas e preconceituosas.
O CMPC acredita que o racismo se combate com a Verdade, Cultura, Educação, Inclusão e com a Lei e não com informações generalistas falsas e discriminatórias. O CMPC informa, ainda, que ambos os casos serão avaliados por uma Comissão de Ética e tomadas as devidas providências em casos que tenham a participação de Conselheiro eleito”.
Como os comentários partiram de uma servidora municipal, a prefeitura de Joinville informou que a Secult (Secretaria de Cultura e Turismo) encaminhou uma Comunicação de Infração Disciplinar à Controladoria-Geral do Município para que seja aberta uma sindicância.
A Secult também retirou a indicação da servidora das atividades no conselho e indicou novo representante para a função. “A Prefeitura de Joinville e a Secretaria de Cultura e Turismo repudiam qualquer tipo de conduta discriminatória e reforçam o compromisso com o respeito e com a igualdade entre as pessoas”, diz a nota do município.