Um resgate da primeira expedição de açorianos para Santa Catarina

Fugindo da fome no arquipélago dos Açores, em Portugal, centenas de açorianos saíram em embarcações em 21 de outubro de 1747 em direção a terras brasileiras

Ildiane Silva e Nícolas Horácio Florianópolis

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Há 274 anos, em 21 de outubro de 1747, as primeiras embarcações com açorianos partiam de Portugal em direção à Ilha de Santa Catarina. A expedição satisfazia tanto os interesses do então governador da Capitania de Santa Catarina, o brigadeiro José da Silva Paes, que pretendia povoar a região, quanto dos açorianos, que sofriam com a fome. Quem explica é a socióloga Lélia Pereira Nunes, professora aposentada e imortal da ACL (Academia Catarinense de Letras).

Lélia Nunes pesquisa a cultura açoriana de FlorianópolisA socióloga Lélia Nunes se dedica a estudar a ligação açoriana com a Capital de Santa Catarina – Foto: Divulgação/ND

“Nessa primeira leva, algo que me chamou muita atenção, quando li o edital régio, é que eles fazem o documento dizendo que olharam a cor dos olhos, dos cabelos, se tinham doença, dentes, se eram gordos, magros, se era um casal com muitos ou poucos filhos”, conta Lélia.

Os primeiros a chegar foram recebidos onde, atualmente, fica a rua dos Ilhéus, no Centro de Florianópolis, em 6 de janeiro de 1748. Após três meses de viagem e 8 mil km enfrentando ansiedade, doenças e até a morte, 461 chegaram com vida e 12 não resistiram.

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Os sobreviventes estavam em situação tão precária de saúde que foram colocados em quarentena e pisaram em solo firme somente em 22 de fevereiro de 1748. Até 1754, quase 6 mil açorianos vieram para Santa Catarina e, conforme Lélia, o inimigo deles no arquipélago era a escassez de recursos.

Praia açorianaOs primeiros açorianos vindos de Portugal saíram em outubro de 1747 e chegaram em janeiro de 1748 – Foto: Divulgação/ND

“Um terço do que se produzia em trigo tinha que ser dado à Coroa portuguesa e havia uma população passando fome. Do lado de cá, uma ilha e um litoral que não tinha gente. Então, o brigadeiro Silva Paes escreveu ao rei de Portugal, em 1746, pedindo o envio de pessoas para as nossas terras, descritas por ele como ‘um corpo sem alma’”, registra a socióloga.

Segundo a pesquisadora, o intuito de Silva Paes era assegurar a posse da área por meio da ocupação, o que explica, também, a criação das fortalezas de Anhatomirim, Ponta Grossa e Ilha de Ratones, para evitar invasões piratas e, sobretudo, dos espanhóis.

Novos tempos e legado histórico

Situando Santa Catarina e o Arquipélago dos Açores, Lélia acredita que este é um novo tempo das relações. “Não podemos pensar no mercado de saudade, até porque são 274 anos. É poético dizer que, no meu sangue, tem sangue açoriano, mas o que temos, hoje, é a visualização de um mercado econômico, cultural, turístico, de sustentabilidade e preservação do meio ambiente”, avalia Lélia.

Saíram do Porto de Angra os primeiros açorianos que vieram para Santa Catarina – Foto: Divulgação/NDSaíram do Porto de Angra os primeiros açorianos que vieram para Santa Catarina – Foto: Divulgação/ND

Ela lembra que universitários, políticos, professores e investigadores têm atravessado o Atlântico com bastante frequência, mas, em termos econômicos, o primeiro passo foi o encontro de 28 de setembro, entre o presidente executivo do Grupo ND, Marcello Corrêa Petrelli, e o presidente do governo regional, José Bolieiro: “Agora tem um olhar econômico, de troca substancial de investimento, inovação e empreendedorismo”, registra.

Falando sobre os Açores, Lélia destaca que hoje o desenvolvimento econômico das ilhas está ligado à produção do vinho, a questões de sustentabilidade e, sobretudo, ao aproveitamento das riquezas naturais, a relações com o mar, o turismo ambiental e a pecuária. Um terço da produção leiteira de Portugal, por exemplo, vem do arquipélago.

Arquipélago de AçoresAssim como Florianópolis, Arquipélago dos Açores também tem paisagens belas – Foto: Divulgação/ND

“Por outro lado, Santa Catarina é um exemplo de Estado e, no caso da Ilha, uma capital que mantém qualidade de vida, expectativas na área de educação e economia. Hoje, somos um polo importante na área digital para todo país”, ressalta.

O arquipélago dos Açores é composto por nove ilhas. Vieram para Santa Catarina principalmente as populações da Ilha do Pico, de São Jorge, Terceira, Faial e Graciosa. Além do sotaque, semelhante aos açorianos da Ilha Terceira, os colonizadores legaram tradições como o trabalho das rendeiras, nos engenhos, cantorias e as festas do Espírito Santo.

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