Há 274 anos, em 21 de outubro de 1747, as primeiras embarcações com açorianos partiam de Portugal em direção à Ilha de Santa Catarina. A expedição satisfazia tanto os interesses do então governador da Capitania de Santa Catarina, o brigadeiro José da Silva Paes, que pretendia povoar a região, quanto dos açorianos, que sofriam com a fome. Quem explica é a socióloga Lélia Pereira Nunes, professora aposentada e imortal da ACL (Academia Catarinense de Letras).
A socióloga Lélia Nunes se dedica a estudar a ligação açoriana com a Capital de Santa Catarina – Foto: Divulgação/ND“Nessa primeira leva, algo que me chamou muita atenção, quando li o edital régio, é que eles fazem o documento dizendo que olharam a cor dos olhos, dos cabelos, se tinham doença, dentes, se eram gordos, magros, se era um casal com muitos ou poucos filhos”, conta Lélia.
Os primeiros a chegar foram recebidos onde, atualmente, fica a rua dos Ilhéus, no Centro de Florianópolis, em 6 de janeiro de 1748. Após três meses de viagem e 8 mil km enfrentando ansiedade, doenças e até a morte, 461 chegaram com vida e 12 não resistiram.
SeguirOs sobreviventes estavam em situação tão precária de saúde que foram colocados em quarentena e pisaram em solo firme somente em 22 de fevereiro de 1748. Até 1754, quase 6 mil açorianos vieram para Santa Catarina e, conforme Lélia, o inimigo deles no arquipélago era a escassez de recursos.
Os primeiros açorianos vindos de Portugal saíram em outubro de 1747 e chegaram em janeiro de 1748 – Foto: Divulgação/ND“Um terço do que se produzia em trigo tinha que ser dado à Coroa portuguesa e havia uma população passando fome. Do lado de cá, uma ilha e um litoral que não tinha gente. Então, o brigadeiro Silva Paes escreveu ao rei de Portugal, em 1746, pedindo o envio de pessoas para as nossas terras, descritas por ele como ‘um corpo sem alma’”, registra a socióloga.
Segundo a pesquisadora, o intuito de Silva Paes era assegurar a posse da área por meio da ocupação, o que explica, também, a criação das fortalezas de Anhatomirim, Ponta Grossa e Ilha de Ratones, para evitar invasões piratas e, sobretudo, dos espanhóis.
Novos tempos e legado histórico
Situando Santa Catarina e o Arquipélago dos Açores, Lélia acredita que este é um novo tempo das relações. “Não podemos pensar no mercado de saudade, até porque são 274 anos. É poético dizer que, no meu sangue, tem sangue açoriano, mas o que temos, hoje, é a visualização de um mercado econômico, cultural, turístico, de sustentabilidade e preservação do meio ambiente”, avalia Lélia.
Saíram do Porto de Angra os primeiros açorianos que vieram para Santa Catarina – Foto: Divulgação/NDEla lembra que universitários, políticos, professores e investigadores têm atravessado o Atlântico com bastante frequência, mas, em termos econômicos, o primeiro passo foi o encontro de 28 de setembro, entre o presidente executivo do Grupo ND, Marcello Corrêa Petrelli, e o presidente do governo regional, José Bolieiro: “Agora tem um olhar econômico, de troca substancial de investimento, inovação e empreendedorismo”, registra.
Falando sobre os Açores, Lélia destaca que hoje o desenvolvimento econômico das ilhas está ligado à produção do vinho, a questões de sustentabilidade e, sobretudo, ao aproveitamento das riquezas naturais, a relações com o mar, o turismo ambiental e a pecuária. Um terço da produção leiteira de Portugal, por exemplo, vem do arquipélago.
Assim como Florianópolis, Arquipélago dos Açores também tem paisagens belas – Foto: Divulgação/ND“Por outro lado, Santa Catarina é um exemplo de Estado e, no caso da Ilha, uma capital que mantém qualidade de vida, expectativas na área de educação e economia. Hoje, somos um polo importante na área digital para todo país”, ressalta.
O arquipélago dos Açores é composto por nove ilhas. Vieram para Santa Catarina principalmente as populações da Ilha do Pico, de São Jorge, Terceira, Faial e Graciosa. Além do sotaque, semelhante aos açorianos da Ilha Terceira, os colonizadores legaram tradições como o trabalho das rendeiras, nos engenhos, cantorias e as festas do Espírito Santo.