Velho demais? De tatuagem a paraquedismo, conheça idosos que desafiam estereótipos em SC

05/06/2022 às 08h00

Numa sociedade que enxerga o idoso como atrasado ou fraco, conheça as histórias de pessoas que botam em xeque esses estereótipos

Yuri Micheletti Florianópolis

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Quando você fica velho demais para fazer algo? Pular de paraquedas, fazer uma tatuagem ou entrar para algum time de esporte, são práticas que sempre estiveram associadas a pessoas mais jovens. No entanto, muitos idosos olham isso e resolvem ignorar esses padrões impostos pela sociedade do que um idoso deve fazer, em Santa Catarina.

O estereótipo do idoso como pessoa fraca ou que não é capaz de aprender ainda é muito presente na sociedade- Foto: Freepik/Divulgação/NDO estereótipo do idoso como pessoa fraca ou que não é capaz de aprender ainda é muito presente na sociedade- Foto: Freepik/Divulgação/ND

Alguns realizam feitos incríveis, sendo capazes de se destacarem em esportes e serem admirados por muitos. Outros resolvem cuidar da autoestima e mostrar que você pode se sentir bem com a sua própria imagem independente da idade.

Nessa reportagem você vai conferir a história de alguns idosos que se libertaram dos estereótipos e experimentaram coisas diferentes, fazendo desta fase a sua “melhor idade”.

Tinta na pele e experiência

“A tatuagem é uma coisa maravilhosa, é um trabalho artístico que fica no seu corpo para sempre”. Essa é a forma que Sara Sttocco, de 70 anos, se refere ao processo de se tatuar. Com 13 tatuagens espalhadas pelo seu corpo, ela começou a receber agulhadas de tinta na pele 10 anos atrás, quando recém completava seis décadas de vida.

A primeira tatuagem feita por Sara tinha um significado especial. Muito devota de Nossa Senhora das Graças, ela marcou a imagem da santa em seu antebraço. “Eu me sinto orgulhosa e ainda vou fazer mais”, conta com alegria.

Tatuagem da Nossa Senhora das Graças feita no antebraço de Sara – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDTatuagem da Nossa Senhora das Graças feita no antebraço de Sara – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Além dessa, Sara coleciona rosa, beija-flor, cereja, borboleta e diversas outras tatuagens. Ela se diz feliz com as ‘marcas’ e ainda conta que muitas jovens a param na rua para elogiar os desenhos.

“É raro receber idosos que querem se tatuar, mas é sempre uma surpresa animadora quando passa pela porta do meu estúdio alguma pessoa de mais idade”, conta Ana Orlandin, tatuadora há oito anos que tem seu próprio estúdio de tatuagem – chamado Augusta Tatua – na cidade de Xaxim. “É algo que foge dos padrões, principalmente por muitos terem crescido numa cultura de preconceito contra tatuagem”.

A tatuadora já tatuou alguns idosos durante sua carreira, entre eles seus próprios avós. Mas um dos últimos idosos que Ana diz ter tido o prazer de tatuar foi Vilson Leonardo, que tal como Sara também fez sua primeira aos 60 anos.

Vilson sempre teve admiração e interesse por tatuagens. No entanto, ele relata que havia um grande preconceito com pessoas tatuadas quando era mais jovem. “Infelizmente, nossa sociedade é muito preconceituosa”, lamenta. Isso o impediu de se tatuar antes.

Vilson e Ana, após o senhor homem de 70 anos realizar sua primeira tatuagem – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDVilson e Ana, após o senhor homem de 70 anos realizar sua primeira tatuagem – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Quando finalmente completou 60 anos, ele resolveu marcar sua pele com tinta. Para ele tinha que ser algo com um significado, então tatuou o nome dos dois netos com duas pombas voando.

Tanto Sara quanto Vilson acreditam que se tem vontade de fazer uma tatuagem – independente da idade, deve fazer e não se preocupar com o que os outros irão pensar. “A vida é muito curta e passa rápido, então temos que explorar tudo que podemos”, afirma Sara com convicção.

65 anos a 4 mil metros de altura

“Imagina a 4 mil metros de altura você ver o mar, o campo, a praia e voar”. Com 84 anos de idade, altura não é problema para Luiz Schirmer. O paraquedista, que vive nos céus, já realizou 3.826 saltos de paraquedas, sendo um símbolo do esporte no Brasil.

A primeira vez que saltou foi em 1957 e, desde então, não parou mais, passando a competir profissionalmente na modalidade. Em 1964, por exemplo, ele foi campeão brasileiro de paraquedismo e, no ano seguinte, chegou em terceiro lugar no internacional de equipes.

Luiz Schirmer segurando o troféu do campeonato brasileiro de paraquedismo em 1964 – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDLuiz Schirmer segurando o troféu do campeonato brasileiro de paraquedismo em 1964 – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Mesmo depois de tantos saltos, o paraquedista ainda lembra do seu primeiro. “Eu estava apavorado”, relata. Na época, Luiz nunca tinha pisado num avião, mas teve que enfrentar seu medo e saltar. “Quando abriu o paraquedas foi uma sensação maravilhosa, eu já queria ir de novo”.

Apesar da idade, ele considera ser capaz de fazer quase tudo que qualquer pessoa faz e se vangloria de seu raciocínio e reflexos. “Não existem muitos idosos com eu”, conta rindo. Por esse motivo, ele não recomenda que qualquer idoso tente pular de paraquedas, a não ser que tenha um bom reflexo.

Luiz começou a saltar pelo exército e hoje pratica o paraquedismo há 65 anos – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDLuiz começou a saltar pelo exército e hoje pratica o paraquedismo há 65 anos – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Segundo Luiz, o paraquedismo é um esporte que exige muita mobilidade, e qualquer erro nesse aspecto pode causar um acidente fatal. Mesmo assim, o idoso pretende um dia parar com o esporte. “Só chegar a 4 mil saltos que eu paro”, conta sua meta.

Depois de 65 anos saltando, o paraquedista demonstra um carinho tremendo pelo esporte e recomenda a todos que estejam com os reflexos em dia. “Eu não conheço ninguém que saltou de paraquedas que não gostou”.

A velhice e seus estereótipos

Apesar de existir exemplos como os mostrados anteriormente, ainda permanece na sociedade um preconceito em relação ao idoso e o que se espera que ele realize ou não. “Muitas pessoas estabelecem ao idoso um estereótipo de pessoa fraca ou que não é capaz de aprender”, conta Lucas Rigoni, psicólogo e coordenador do Nati (Núcleo de Atenção à Terceira Idade).

Mesmo que exista perda de massa muscular e de capacidades cognitivas conforme se envelhece, ainda é possível aprender e realizar diversos tipos de atividade. “Desafie antes de limitar”, é a expressão que Rigoni utiliza para se referir a como deveríamos tratar os idosos. Ou seja, antes de duvidar da capacidade de realizar algo, veja se consegue exercer a atividade proposta.

A forma como enxergamos a velhice é reflexo do medo da nossa finitude, diz psicólogo – Foto: Pexels/Divulgação/NDA forma como enxergamos a velhice é reflexo do medo da nossa finitude, diz psicólogo – Foto: Pexels/Divulgação/ND

O estereótipo não só afeta a forma como a sociedade enxerga as capacidades, mas também o aspecto comportamental. Rigoni relata, por exemplo, que além de já ter observado um estranhamento com tatuagens em idosos, já viu casos desses senhores que queriam baixar um aplicativo de relacionamento para achar alguém nessa fase da vida, mas não fizeram por medo de julgamento alheio.

O psicólogo atribui a forma pejorativa como a sociedade enxerga a velhice como consequência do ser humano evitar lembrar da sua própria finitude, acreditando que esse pensamento deve ser ressignificado. “Há uma veneração da jovialidade, no qual o jovem é visto como a imagem da inovação e desafio. Enquanto o idoso, muitas vezes é visto por suas limitações, devendo ser resguardado e protegido”.