Vítimas relembram terror vivido durante queda em Joinville: ‘não sentimos nossos pés’

Em recuperação, famílias estão atentas aos sinais psicológicos deixados após acidente na abertura do Natal Cultural de Joinville

Sofia Mayer* Joinville

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Antes da estrutura ceder sobre o rio Cachoeira, em Joinville, a pedagoga Juliane Grotti, uma das 33 vítimas do acidente, ouviu um grande estouro.

Apenas dias depois, no entanto, ela e a família conseguiram associar o fato ao imprevisto que marcou a abertura do Natal Cultural da cidade, ocorrido nesta segunda-feira (22).

Família relembra momentos de terror, vividos em acidente em JoinvilleFamília relembra momentos de terror, vividos em acidente em Joinville – Foto: NDTV/Reprodução e Elisa Scherer/CanalSC/Divulgação/ND

“A gente ouviu um barulho antes, como se fosse um carro batendo, e uns minutos depois abriu o buraco e a gente se viu dentro da água”, comenta Juliane. Ela, o marido e o filho haviam chegado ao local cerca de 10 minutos antes da estrutura cair.

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A pedagoga ficou com marcas pelo corpo, além dos pontos na cabeça e arranhões nos braços e pernas.

Bruno Costa, auditor contábil e marido de Juliane, conta que o público estava na contagem regressiva para acendimento da luzes quando o chão começou a ceder. “Só lembro de ter acordado dentro do buraco”, relata.

Juliane e família foram vítimas da queda de estrutura em JoinvilleJuliane e família foram vítimas da queda de estrutura em Joinville – Foto: Elisa Scherer/CanalSC/Divulgação/ND

“Afundamos na água, escureceu total. Num primeiro momento, todo mundo afundou na água. Em questão de segundos, conseguimos voltar e a água estava na cintura”, complementa.

Marcas vão além do físico

Algumas marcas, no entanto, podem ficar escondidas no subconsciente. Emoções misturadas que, se não tratadas, podem virar traumas. O alerta é destinado principalmente aos pequenos.

À ocasião, onze crianças foram encaminhadas para o Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria: seis meninas e cinco meninos.

“É urgente que elas passem por um tipo de acompanhamento psicológico, porque foram expostas a uma cena traumática, caíram junto com pessoas que estavam lá para protegê-las”, explica o psicólogo André Leonardo Veridiano.

Ele ressalta que cada pessoa absorve traumas de forma diferente; a orientação para todas, porém, é que sejam acompanhadas por psicólogos para evitar possíveis transtornos.

“As crianças estão em desenvolvimento e captando tudo. Assim, podem desencadear algum tipo de medo em relação a rio, figura de Natal, noite, calçadas”, exemplifica Leonardo.

Atenção aos sinais

A professora Graziele Ramos Barros estava com a filha de 6 anos e o marido quando caiu no buraco da calçada.

Mãe e filha caíram na águaMãe e filha caíram na água – Foto: NDTV/Reprodução

Dois dias após o acidente, ela continua atenta aos sinais manifestados pela filha Enya. Na terça-feira (23), por exemplo, ela percebeu que a pequena começou a falar mais sobre o assunto.

“Hoje que eu senti ela agitada na hora do banho, parece que caiu um si. Ela estava falando: ‘nossa, ontem foi um dia terrível, né, mamãe?'”, relembra.

Por enquanto, ficaram apenas as marcas físicas. “Sentimento de alívio por estarmos bem. A gente até pensa que não deveria ter ido, mas, pensando bem, o sentimento é de agradecimento a Deus, pois vimos a morte!”, comenta Graziele.

“Foi muito traumatizante, porque, quando caímos, não sentimos os nossos pés. Ficamos totalmente afundados. Meu desespero era levantar a Enya para alguém pegá-la”, admite.

O psicólogo André alerta para que os pais fiquem atentos aos sinais que podem indicar stress pós traumático. “Falta de ar, palpitações, sudorese”, diz.

*Com informações de Dani Lando, repórter da NDTV Joinville