Crítica: ‘Indiana Jones e a Relíquia do Destino’ é sobre viver o momento presente que temos

Quinto filme do herói Indiana Jones, interpretado por Harrison Ford, chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (29)

Foto de Gustavo Bruning

Gustavo Bruning Florianópolis

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Atenção: o texto possui spoilers sobre o filme, incluindo detalhes importantes da história e elenco.

A caminho de uma sessão do filme “Indiana Jones e a Relíquia do Destino”, na quinta-feira (29), no Continente Shopping, na Grande Florianópolis, lembrei de uma ida ao cinema a quinze anos atrás. Foi em 2008, com “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, que tive o meu primeiro contato com os filmes do arqueologista e me tornei grande fã.

A franquia começou em 1981, com “Os Caçadores da Arca Perdida”, e teve duas continuações na mesma década, que formam a chamada “trilogia original”. O quarto capítulo é considerado pelos admiradores oitentistas como um grande fiasco e, mesmo reconhecendo suas fragilidades, cultivo por ele um carinho especial. O primeiro filme de Indy a gente nunca esquece.

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Nova aventura de Indiana Jones chegou aos cinemas – Foto: Divulgação/NDNova aventura de Indiana Jones chegou aos cinemas – Foto: Divulgação/ND

A quinta aventura, que acabou de chegar aos cinemas, aceita, talvez mais que o anterior, o período contemporâneo. Estamos diante de um Indiana Jones de 1969 (a trilogia original se passa nos anos 1930), mas imerso em uma produção de cinema de 2023, que já aceitou a abundância de efeitos visuais hollywoodianos.

Perde-se parte da simplicidade que transparecia nas cenários distantes e visualmente atraentes e ganha-se a chance de ver mais uma vez Harrison Ford vivendo o personagem que o eternizou. Perde-se o ritmo admirável dos filmes oitentistas e ganha-se sequências de ação que rejuvenescem o ator de maneira surreal.

O novo longa-metragem foi anunciado como a última empreitada de Ford como o personagem. Aos 80 anos, ele mantém a essência do Indiana Jones intacta: resmungão, criativo na hora do perigo e aterrorizado por cobras. No mundo ficcional da franquia, que já trouxe alienígenas e arcas com poderes sobrenaturais, a idade não impede Indy de galopar ferozmente em meio a uma multidão ou escalar obstáculos. O bônus aqui é a autoconsciência da idade, trabalhada de forma bem-humorada.

A idade dialoga justamente com um dos temas centrais: o tempo. Uma frase que me marcou quando vi o quarto filme, em 2008, ficou comigo desde então e representa bem o cerne da nova aventura: “Chegamos à idade em que a vida para de dar e começa a tirar”. É o medo das perdas, do enfraquecimento, da percepção de uma contagem regressiva da vida.

Harrison Ford volta pela quinta vez como o arqueologista – Foto: Divulgação/NDHarrison Ford volta pela quinta vez como o arqueologista – Foto: Divulgação/ND

Neste novo longa, o primeiro sem Steven Spielberg na cadeira do diretor, Indy, de fato, perdeu ainda mais: o casamento encantador da história anterior ruiu e o filho recém-descoberto está morto. O sossego já era, aqui arruinado não por tropas nazistas ou rituais macabros, mas por jovens vizinhos barulhentos. O herói está mais mundano, se aposentando da sala de aula e dando pouca bola para um dos eventos mais marcantes da história, a chegada do homem à Lua.

Apesar da melancolia que carrega, “Indiana Jones e a Relíquia do Destino” termina com uma perspectiva positiva, graças à revigorante afilhada do protagonista. Helena Shaw é vivida por Phoebe Waller-Bridge, da série “Fleabag”. É sobre abraçar o tempo que temos – o presente – e encontrar maneiras de enxergar o que está imperceptível ao nosso redor. Sempre há algo a incorporar positivamente em nossas vidas ou alguém por quem zelar, por mais que isso não esteja visível.

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    Phoebe Waller-Bridge vive a afilhada de Indiana Jones, Helena Shaw - Divulgação/ND
    Phoebe Waller-Bridge vive a afilhada de Indiana Jones, Helena Shaw - Divulgação/ND
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    Phoebe Waller-Bridge estrelou a série "Fleabag" - Divulgação/ND
    Phoebe Waller-Bridge estrelou a série "Fleabag" - Divulgação/ND

É preciso aceitar que Hollywood continuará turbinando seus filmes de aventura com efeitos visuais e que nunca mais teremos a estética exata dos clássicos. Ainda assim, temos lançamentos como este e “Halloween Kills: O Pesadelo Continua”, de 2021, que homenageiam suas raízes. Nem se Spielberg voltasse ao comando conseguiria emular o que fez quando tinha as ferramentas dos anos 1980.

No caso de Indiana Jones, a afilhada do herói é quem coloca tudo em perspectiva. Não há escapatória: por mais seguro e confortável, não podemos tentar viver no passado – nem literalmente, como deseja Indy. O mesmo se aplica à franquia, que chegou ao seu quinto capítulo como pôde, se adaptando ao que o cinema de hoje tem a oferecer.

Em que ano “Indiana Jones e a Relíquia do Destino” se passa?

As primeiras cenas do filme se passam em 1944, alguns anos após o terceiro capítulo, “Indiana Jones e a Última Cruzada”, lançado em 1989. Vemos um Harrison Ford rejuvenescido digitalmente, atrás de um item histórico poderoso, criado por Arquimedes, capaz de encontrar brechas para viajar no tempo.

Após a sequência de abertura, a história pula para 1969, o período presente de Indiana Jones, que na trama tem seus 70 anos. No terceiro ato, vamos rapidamente para o ano de 213 a.C, quando os personagens voltam no tempo e testemunham a invasão de Siracusa pelos romanos e Indy fica cara a cara com Arquimedes.

Elenco de destaque

Harrison Ford retorna no papel principal, ao lado da estreante na franquia Phoebe Waller-Bridge, que interpreta a afilhada do arqueologista. Ela certamente carrega parte do brilho e não fica às sombras do protagonista. Certeira e realista, funciona por conta própria e vai se abrindo para a relação de carinho que havia criado com Indy no passado.

Mads Mikkelsen interpreta o vilão da nova aventura – Foto: Divulgação/NDMads Mikkelsen interpreta o vilão da nova aventura – Foto: Divulgação/ND

O vilão é vivido por Mads Mikkelsen, o personagem que dá nome à série “Hannibal” e o novo Grindelwald de “Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore”. Há participações de Antonio Banderas e Karen Allen, a paixão de Indy que dá as caras no primeiro e no quarto filmes.

Nostalgia

“Relíquia do Destino” resgata alguns elementos da franquia: dos mapas mostrando trajetos de personagens pelo mundo a armadilhas mirabolantes em lugares claustrofóbicos. Falando nisso, aqui a sensação de claustrofobia tem o seu auge em uma cena subaquática. Mesmo com essas peças-chave, o filme não se suporta na nostalgia para tentar agradar os saudosistas.

Cena icônica da primeira aventura de Indiana Jones, de 1981 – Foto: Divulgação/NDCena icônica da primeira aventura de Indiana Jones, de 1981 – Foto: Divulgação/ND

As trilhas originais de John Williams, que retorna como compositor, são usadas de forma estratégica. Como uma boa continuação de uma franquia antiga, traz as notas associadas a personagens quando eles são introduzidos na tela e desperta memórias de filmes anteriores. Impossível não se emocionar quando Karen Allen surge como Marion Ravenwood.

Rejuvenecido digitalmente

Harrison Ford é rejuvenescido digitalmente algumas décadas por uns bons minutos no começo do filme. O que poderia dar muito errado acaba funcionando para amarrar o novo capítulo ainda mais às aventuras clássicas.

Mesmo que a técnica desperte críticas quanto à autenticidade da performance (aqui é Ford, de fato, que gravou as cenas), ela vem sendo utilizada cada vez menos timidamente nos últimos anos.

Harrison Ford foi rejuvenescido digitalmente – Foto: Divulgação/NDHarrison Ford foi rejuvenescido digitalmente – Foto: Divulgação/ND

Carrie Fisher, ainda viva na época, voltou a aparentar ter 19 anos em “Rogue One: Uma História Star Wars”, de 2016. Já Peter Cushing, do mesmo filme, foi “revivido” por computação gráfica. Paul Walker, que morreu durante as filmagens de “Velozes & Furiosos 7”, teve suas cenas finalizadas graças a uma combinação de técnicas.

O que aconteceu com o personagem de Shia LaBeouf?

As menções aos filmes anteriores não ficaram apenas nas entrelinhas. Uma das mais notáveis tem relação com Mutt Williams, personagem de Shia LaBeouf em “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”.

Indiana Jones e Mutt Williams em “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, de 2008 – Foto: Divulgação/NDIndiana Jones e Mutt Williams em “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, de 2008 – Foto: Divulgação/ND

Considerado uma das apostas de elenco do capítulo anterior, o ator ficou de fora da nova aventura. Mutt havia sido revelado como o filho de Indiana Jones, mas aqui descobrimos que o personagem se alistou no Exército durante a Guerra do Vietnã.

O fim foi trágico e é sentido por Indy neste quinto filme. Segundo o diretor James Mangold, a decisão de não trazer Mutt novamente foi “certa emocionalmente” para fortalecer o arco do protagonista.

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